RONDONOTICIAS segunda-feira, 21 de outubro de 2019 - Criado em 11/10/2001

Pluralismo democrático é condição fundamental para a ampliação de nosso horizonte cultural e para a maturação de nossa consciência moral!


Por Leno Danner

17/09/2019 07:38:41 - Atualizado

O Brasil é um país que tem em seu DNA uma tradição de violência contra minorias político-culturais. Para começo de conversa, constituiu-se e desenvolveu-se como e por meio da violência simbólico-material em termos de etnocídio indígena e de escravismo negro, em nome do fundamentalismo religioso e do racismo biológico, em geral interligados e como base para a justificação da colonização econômica predatória e da dominação política autoritária. Nesse sentido, a história, a cultura e as instituições brasileiras são marcadas em cheio pela marginalização, pela exclusão e pela violência de grupos socioculturais considerados menores, decaídos, antinaturais.

A constituição de nossa sociedade e sua evolução até o que somos hoje são determinadas e dinamizadas de modo muito importante, como disse no parágrafo anterior, pela produção de minorias político-culturais, uma produção institucionalizada e sistemática na qual a correlação de poder político, econômico e religioso justificaram a construção de uma suposta condição atrasada ao país (só mato, só selvageria) e de uma condição pré-civilizacional de seus habitantes (sub-humanos), primeiro os/as indígenas e depois os/as negros, que justificavam tanto esse domínio e essa gestão autoritários e verticalizados do poder quanto a imposição de um modelo antropológico que tinha no homem branco cristianizado e na civilização europeia calcada na maioridade cultural, no desenvolvimento econômico e na moralização social seus princípios estruturantes.

Como dizia Pero Vaz de Caminha em sua carta ao rei de Portugal, esta seria uma terra virgem, intocada, pronta para tornar-se o paraíso na Terra, e seus habitantes seriam como um papel em branco, prontos para serem preenchidos com a melhor poesia, situação que respaldava diretamente ao colonizador em sua cruzada pela civilização, pela humanidade, pelo melhoramento daquele contexto e daqueles povos. Esta é uma condição original que, ontem como hoje, não deixou de valer para a constituição política e cultural de nossa sociedade, marcada por um processo de modernização conservadora em que a imposição prática de um ideal de progresso, de homem e de moralização fortes deslegitima e até minimiza a dignidade dos diferentes grupos socioculturais que nos constituem e, no mais das vezes, coloca sua viabilidade em xeque.

Um ponto em comum pode ser visto enquanto um continuum ao longo da constituição e do desenvolvimento de nossa sociedade, a saber, a correlação da espada e da cruz como os instrumentos e os valores basilares que nos conduzem rumo à civilização. A cruzada que vemos hoje, especialmente entre os grupos neopentecostais, no que tange à conquista do poder político e em sua determinação a partir de uma perspectiva essencialista e naturalizada dada pela correlação de biologia e religião, é em síntese a mesma que podemos ver ao longo da colonização, sob a forma de justificação seja da aculturação dos povos indígenas, seja da guerra justa contra aqueles/as que não se convertiam ao catolicismo. Hoje, no caso, além dos/as indígenas, temos os grupos LGBTQ+, que são, para nossos grupos conservadores, os grandes inimigos da cultura, da moralidade e do progresso, tendo de ser silenciados, apagados, privatizados, inclusive, conforme nosso presidente disse há poucos dias, buscando-se projetos políticos que promovam “as maiorias” e ataquem “as minorias”.

Com as devidas proporções relativamente ao fenômeno da colonização e à relação de opressão dos colonizadores brancos em relação aos povos indígenas e negros, a tentativa de colonização religiosa do poder político justifica hoje a produção permanente de minorias político-culturais como base da validade de preceitos, de práticas e de instituições religiosas, ou seja, dado seu primitivismo e seu irracionalismo, dada sua incapacidade de oferecer à democracia – e democraticamente – soluções políticas, econômicas e culturais efetivas para seus impasses, os grupos neopentecostais, principalmente estes, agarram-se ferozmente à defesa de supostos valores e modelos antropológicos tradicionais, justificados como a tábua de salvação para um mundo democrático em crise.

Não por acaso, a grande solução ao nível individual que esses grupos neopentecostais efetivamente dinamizam consiste, por incrível que pareça, no maniqueísmo religioso do bem contra o mal. Isso mesmo, crença em demônios, em espíritos ruins, em exorcismos e milagres! Essa é a resposta política, cultural, social e institucional dada pelas igrejas neopentecostais para a crise de integração social brasileira, não raro cobrada a preço de ouro ou, para usar um termo do Pastor Waldomiro Santiago, a preço do “trízimo”.

Ora, diante dessa pobreza cultural e mental própria a tal visão de mundo simplista e charlatã, a cruzada messiânica pela colonização religiosa do poder político assume, nos grupos neopentecostais, um núcleo central, uma luta de vida e de morte, no sentido, primeiro, de dar-lhes certo protagonismo social e de manter viva a chama do próprio grupo religioso em questão, bem como, segundo, de desviar o foco dessa perspectiva de exploração da miséria social com crenças religiosas fantásticas e ingênuas, em que demônios e anjos, maldições e bênçãos, mau olhado, olho gordo e exorcismos são mais importantes para resolver os problemas sociais e individuais que a política, a ciência e as instituições públicas.

Para as igrejas neopentecostais, principalmente para aquelas com ligações claras com o poder político (Silas Malafaia, Marco Feliciano, Edir Macedo etc.), há que se produzir permanentemente esse fantasma das minorias e seu “terrível impacto” relativamente à estabilidade social tanto para justificar seu (das igrejas neopentecostais e de suas lideranças) suposto papel salvífico quanto para esconder sua completa ineficácia e irracionalidade nas soluções mágicas e escatológicas apresentadas para resolver-se nossos agudos problemas sociais. Atacar as minorias é a saída mais palatável por parte das igrejas neopentecostais para esconder seu fracasso social e sua estupidez intelectual.

Nesse sentido, o ataque ao pluralismo democrático e, aqui, à centralidade do Estado democrático de direito tem assumido, seja na atuação das igrejas neopentecostais, seja no protagonismo político de candidatos e partidos por elas apoiados e delas representantes, uma pungência cada vez maior, ao ponto de nosso presidente, Jair Messias Bolsonaro, simplesmente encampar diretamente pautas conservadoras desses grupos que atacam e deslegitimam a inclusão social, o reconhecimento cultural, a participação política e uma prática educativa calcadas nas conquistas e no caráter emancipatório da democracia cultural, do Estado democrático de direito e das instituições públicas, entre elas a escola.

Cientes de que uma educação pública democrática varreria por completo o charlatanismo religioso, os grupos neopentecostais insistem muito em uma escola sem partido, que nada mais significa do que a ideia de que à educação pública não deve interessar a formação humanística, o ensino de filosofia, sociologia, artes e educação religiosa; de que a escola de educação básica deve trabalhar e desenvolver apenas habilidades básicas, como ler, escrever e contar, sem nenhuma possibilidade de “impor” formas de pensamento e “ideologias” ao alunado. Como venho dizendo, nada mais tacanho e simplório que isso, posto que a formação humanística não é imposição ideológica de formas de vida e de valores sociais, mas exatamente preparação do aluno para a vida democrática, uma vida que se funda no pluralismo, na inclusão, no reconhecimento e da participação, bem como nos desafios políticos de enfrentamento do fundamentalismo religioso e do racismo biológico como os dois grandes inimigos da democracia, do Estado democrático de direito, das instituições públicas, do próprio pluralismo.

Nesse sentido, as instituições e as autoridades públicas precisam responder à ameaça do fundamentalismo religioso e do racismo biológico na política, na educação e na cultura por meio do fortalecimento de políticas públicas de inclusão e de reconhecimento, de uma educação escolar que tenha como foco a cooperação e a interação entre os diferentes grupos em torno a pautas humanísticas, em termos da promoção política, cultural e educacional do pluralismo.

É por causa do pluralismo, isto é, entre e com os diferentes grupos socioculturais, que maturamos nossa cultura, rompendo com processos de exclusão, de marginalização e de violência; da mesma forma, é por meio do pluralismo, isto é, com os diferentes grupos sociais, que nos aperfeiçoamos como seres morais, alargando nossa visão de mundo. E, por isso, o pluralismo precisa passar para primeiro plano de uma democracia contemporânea, se quisermos (a) proteger e fortalecer o Estado democrático de direito como base inultrapassável para a constituição de uma sociedade democrática, (b) conferir protagonismo e centralidade às instituições públicas em termos de promoção da inclusão, do reconhecimento, da justiça e do desenvolvimento sociais, bem como (c) evitar que o fundamentalismo religioso e o racismo biológico colonizem a política democrática e travem esses processos de reconhecimento e de inclusão colocados, viabilizados e exigidos pelo pluralismo.    


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