RONDONOTICIAS terça-feira, 12 de novembro de 2019 - Criado em 11/10/2001

Chega dessa cultura política da morte!


Por Leno Danner

13/10/2019 11:29:24 - Atualizado

Desde minha infância, ouvi, em muitas ocasiões, a opinião de que “Bandido bom é bandido morto”. Ultimamente, aqui em Rondônia, passei também a ouvir o termo “CPF cancelado com sucesso!” enquanto representando o julgamento de muitos populares – e lideranças políticas – acerca dos confrontos entre policiais e bandidos, acerca do enfrentamento da criminalidade que cresce. No fim das contas, portanto, é a cultura da morte que se generaliza socialmente, consolidando-se como o padrão de enquadramento das situações cotidianas de marginalização, de miséria e de violência, tornando-se prática política de lideranças conservadoras as quais não têm nenhuma base sólida de gestão institucional e de vida pública, precisando, por isso, criar, fomentar e sustentar um bode expiatório que, como negatividade, dá sentido e despolitiza os mocinhos, justificando-os como missionários da transformação exatamente por meio da morte desse inimigo genérico e despersonalizado.

Vejo, portanto, uma radicalização social e política daquilo que, antigamente, era apenas um desabafo mudo, sem coragem de ser veiculado publicamente de modo amplo e, o que é pior, de ser assumido como bandeira política central de partidos políticos e de políticos profissionais específicos. Daqueles desabafos que eu ouvia na minha infância para, hoje, a comemoração dos CPFs cancelados, uma coisa mudou muito, e essa mudança ou transformação me preocupa bastante, como educador e teórico político que sou, que é o fato de que a cultura da morte como solução para os problemas sociais e como alternativa política fundamental se tornou um mantra cultural utilizado fomentado institucionalmente por lideranças conservadoras cuja base política é apenas esse tipo de violência primária e indiscriminada como plataforma de governo, uma política institucional e uma prática sociocultural que afetam mais inocentes que bandidos e que tem cunho diretamente racista, preconceituoso e segregacionista, como estamos vendo com a política do governador Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, de se fomentar socialmente esse tipo de prática cultural, de se comemorar publicamente a morte de criminosos e, finalmente, de se autorizar a (e até de participar da) invasão aérea e terrestre de favelas, com o atirar primeiro e perguntar de pois, sem qualquer mediação possível.

A cultura da morte simplifica a vida social e retira a mediação necessária no enquadramento das situações cotidianas e no entendimento dos sujeitos e dos problemas sociais. Ela normaliza a ideia de que a violência institucional e a vingança com as próprias mãos são a melhor saída, a melhor resposta para a violência cotidiana. Ela nos transforma em vingadores munidos do direito de matar sem antes conhecer e entender as situações e os sujeitos que se nos apresentam socialmente, negando-se o direito a um julgamento justo e ao funcionamento do sistema jurídico e do Estado democrático que temos. Ela nos retira a sensibilidade humana e às situações concretas que vivemos, transformando-nos em carrascos, em pessoas com o coração de pedra para com seus próximos.

Mas o mais importante dessa cultura da morte normalizada social e institucionalmente é a sua consequência sub-reptícia, seu contexto de fundo, que é exatamente o fato de que ela realiza, de modo correlato, (a) uma simplificação dos problemas sociais e da compreensão popular relativamente ao sentido multívoco da violência e à sua relação direta com a desigualdade e a marginalização social, e (b) fomenta gradualmente uma formação e uma identidade social em que a morte é o grande núcleo vital, em que a arma – e o fazer arminha – se transforma na solução, deixando a política, a educação, a justiça social e a educação da paz em segundo plano.

Não é por acaso, aliás, que Jair Messias Bolsonaro e Wilson Witzel apareçam relacionados com – e enfatizem sempre em suas aparições públicas – armas e falem da morte como se fosse a coisa mais fácil e natural do mundo. Quase não se vê ênfase na educação básica, no Estado democrático de direito e na solidariedade social, que são valores e práticas que podem efetivamente enfrentar e desconstruir essa situação de violência, de marginalização e de desintegração social que vemos na nossa sociedade – e que tem nesse conservadorismo tosco, simplista e fundamentalista uma de suas bases legitimadoras e causadoras.

A educação, o Estado democrático de direito e uma cultura de solidariedade, de paz e de reconhecimento são processos difíceis de serem implantados e requerem sabedoria política e trabalho de longo prazo, coisa que nossos fundamentalistas não estão dispostos a tolerar, porque isso torna necessário, entre outras coisas, a abertura política, a justiça social e o pluralismo cultural ou, por outras palavras, mais democracia e menos bala, mais justiça e menos individualismo, mais Estado e menos igrejas, mais cultura e menos fundamentalismo religioso. Nesse sentido, na mente simplificada e simplificadora do fundamentalista-totalitário, temos, como substitutivo, a cruzada religiosa, missionária e messiânica do bem contra o mal, o mal tentando – embora nunca conseguindo – triunfar sobre o bem.

Ora, qual é a base de uma cruzada religiosa do bem contra o mal: a luta de morte, a cruzada, a jihad. Assim, quando o fundamentalista-totalitário transplanta seu maniqueísmo doente do bem contra o mal para a política, o substituto da cruzada e da jihad é exatamente a milícia, a arminha, o fuzil, que têm um alvo direto: o/a negro/a favelado despersonalizado/a, sempre traficante, a priori traficante e, portanto, alvo dos tiros, diabo a ser morto pelo poder do missionário policialesco. Frente a esse negro favelado que já é desde sempre bandido, não se precisa de perguntas, mas de ação, não se precisa de direito, mas do fuzil, não se precisa da justiça, mas da execução.

A cultura da morte do fundamentalismo-totalitarismo, como disse acima, simplifica os sujeitos, as condições e as relações sociais: tem-se o sujeito bom e o sujeito mal e, como consequência, tem-se a luta do bem contra o mal, que significa: assassinato planificado dos maus. Ademais, em geral o sujeito bom e o sujeito mal têm cor: o mau é o negro-preto-favelado, o bom é o branco. Esse é o motivo pelo qual a favela – como negritude, isto é, como banditismo – é invadida sem dó e nem piedade, e seus cidadãos, inclusive e principalmente crianças, são fuzilados a esmo. Não se vê isso nos bairros nobres como branquitude, isto é, como nobreza de caráter e espírito de laboriosidade e de virtude em termos econômicos e culturais. Essa contradição é tão escancarada na cultura de morte do fundamentalismo-totalitarismo brasileiro que ninguém questiona o porquê só a favela como negritude-banditismo é o alvo, enquanto que os bairros nobres como branquitude-virtude sempre são invisibilizados em termos de criminalidade, tráfico, corrupção etc., como se fossem um regime de paz e de bondade absolutas.

Essa é a simplificação de que falei acima, solidificada e normalizada com a cultura de morte dos conservadores-fundamentalistas-totalitários brasileiros, a saber, despersonalizar a favela e a população negra, associando diretamente negritude, banditismo e tráfico, e despolitizar e invisibilizar os crimes do lado de lá da rua, do outro lado da moeda, que é a branquitude-virtude. Por isso, a ideia do “CPF cancelado com sucesso” significa a permissão para se matar negros favelados antes de se perguntar e de se julgar se efetivamente são bandidos, porque eles já são bandidos pelo simples fato de serem negros favelados. Quando à branquitude-virtude, temos exatamente, e como contraponto, uma polícia quietinha, que em geral é desrespeitada e menosprezada, afinal a branquitude-virtude confere supremacia e autoridade, é o modelo de cidadão e de valor social hegemônicos, e jamais admite contrariedade, contradição, enquadramento, perfeita que é.

O bode expiatório dos conservadores-fundamentalistas-totalitários é a negritude-favela-banditismo. Ela é o alvo da arminha, do sniper, do fuzilamento cotidiano de nosso dia a dia das periferias; e justifica, com isso, o caráter intocado, impoluto e naturalizado da branquitude-virtude, purificada de qualquer chaga, via maniqueísmo e simplificação da cultura, da política, da sociedade. Note-se, com isso, outra consequência fundamental da cultura da morte dos conservadores-fundamentalistas-totalitários: as desigualdades sociais, de base racista no caso da sociedade brasileira, são simplesmente apagadas e, com isso, é o crime, o crime do negro, porque o crime é basicamente do e pelo negro, que se transforma no alvo efetivo de enfrentamento. O negro em geral, bandido por natureza, é o resultado da cultura da morte destilada, justificada e promovida pelos conservadores-fundamentalistas-totalitários.

Essa cultura corrói a socialidade, a reciprocidade e a mutualidade que servem de base para a integração e a estabilidade sociais; ela deturpa o sentido e o protagonismo das instituições, que deixam de integrar os marginalizados para matar pura e simplesmente; e, finalmente, elas fomentam um modelo de ser humano violento, primitivo e instintivo, para o qual todos os problemas, de uma discussão simples até a interpretação e a resolução dos desafios e das contradições sociais, têm no individualismo e na morte seus valores e respostas basilares. O conservador-fundamentalista-totalitário brasileiro é um maniqueísta e bipolar ao mesmo tempo: ele só vê luta do bem contra o mal e é um furioso e violento combatente do mal, pois só conhece dois humores: ao bem o bom, ao mau o ruim. Sem mediações, sem reflexividade, sem considerações amplas. Por isso, sua resposta é sempre um misto de individualismo e de morte. A política não serve para nada mais e o outro ou é um amigo, ou um inimigo.

Nós precisamos lutar contra essa cultura de morte, de simplificação, de violência e de embrutecimento. É a educação pública que permite enfrentar as várias formas de violência e minimizar os efeitos do obscurantismo cultural e da desigualdade social. São as instituições públicas que podem promover processos amplos de inclusão, de reconhecimento e de participação, enfrentando a violência, a desigualdade e o racismo. E é a cultura de paz e de solidariedade, calcada na diversidade, no pluralismo, na ênfase no Estado democrático de direito, que pode reconstruir e solidificar uma ideia de bem comum que em grande medida perdemos e que nos leva exatamente ao abandono, ao individualismo, à violência. E, com isso, nossos conservadores-fundamentalistas-totalitários devem retornar ao lugar do qual nunca deveriam ter saído: o do ridículo, afinal, como ridículos que são, vivem uma realidade deturpada, são um sujeito deturpado e, como tal, o que realizam, quando são hegemônicos política e institucionalmente, é a deturpação da cultura, de nossa realidade.    


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