11/06/2018 09:54:14

​Projetos políticos, por favor!

Projetos políticos, por favor!

Nossa política cotidiana transformou-se em uma guerra verdadeiramente suja e nojenta, em que a desinformação tem hoje a tônica central. Essa desinformação vem dos próprios meios de comunicação – inclusive daqueles que sustentaram o golpe contra Dilma Roussef –, dos partidos políticos, de diferentes grupos sociais e dos cidadãos e das cidadãs de um modo mais geral. Discussão de ideias e de projetos, respeito mínimo às regras do jogo e educação cívica passam longe de todos, nessa situação, para não se falar de alguns candidatos e de algumas candidatas que democraticamente colocam na lama os direitos humanos como ponto de partida de sua vinculação público-política!

Essa situação é verdadeiramente preocupante. E o é, em primeiro lugar, pelo fato de que estamos envoltos em um mar de desinformação e reproduzimos em nosso dia a dia essa desinformação a um ponto tal que, como já dizia Platão, a caverna e suas sombras se tornaram a nossa verdadeira realidade. Não sabemos mais como – e às vezes nem temos condições de – distinguir a mentira em relação à verdade, a verdade em relação à mentira. Esse primeiro ponto, por si só, já revela as tragédias que vivemos, já explica as tragédias políticas, sociais e culturais que nos aconteceram nos últimos anos, bem como já serve de base para uma previsão acerca das tragédias que ainda estão por vir, dada essa guerra fratricida entre instituições, partidos, grupos sociais e cidadãos e cidadãs.

Em quem acreditarmos? Em quais informações podemos confiar? Lembrando que essas informações falsas criam conflitos, divisões e estados de ânimo que conduzem para uma situação de violência simbólico-material permanente, de baixaria grosseira, prejudicando a construção e a elaboração de projetos políticos conjuntos, a busca cooperativa da resolução dos problemas sociopolíticos que enfrentamos. Pode-se perceber, no que diz respeito a isso, hoje, uma solidificação de posturas maniqueístas e salvíficas que, a julgar pelo grau de acirramento que estão assumindo, provocarão distúrbios sociais bem graves e crises políticas sem fim nas instituições e entre os partidos políticos.

O segundo ponto importante dessa situação consiste no fato de que muitas pessoas passam a se desinteressar da política democrática, do exercício da cidadania e da crítica, da discussão e da participação público-políticas, apostando, em muitos casos, nos/as lobos/as travestidos/as de messias e assumindo o maniqueísmo como seu horizonte normativo, moral, a partir do qual a sociedade, as instituições, os grupos sociais e os cidadãos e as cidadãs são mensurados/as e compreendidos/as. Com efeito, em uma situação de desinformação permanente, de maniqueísmo puro e simples, como podemos viver, estimar, promover e agir democraticamente? Em uma situação dessas é bem provável que agir democraticamente signifique sofrer violência e deslegitimação. Por isso, muitos grupos sociais, cidadãos e cidadãs ou se tornam maniqueístas, promovendo essa enxurrada de deslegitimação, ou se retraem para sua esfera privada de vida, abdicando da política, deixando-a exatamente nas mãos e no controle dos maniqueístas, daqueles que constroem esse caos de desinformação e sustentam o maniqueísmo como condição de sua hegemonia.

Aliás, não podemos nos enganar quanto a esse ponto: em sua grande maioria, a desinformação e o maniqueísmo – que andam de mãos dadas – são promovidos, estimulados e fomentados exatamente por partidos, grupos sociais, cidadãos e cidadãs que somente podem conquistar hegemonia por parte dele, que somente podem alcançar visibilidade e apoio público-políticos por meio dele. É verdade que já há muito preconceito, violência e maniqueísmo socialmente vinculado, culturalmente enraizado e respaldado e politicamente viabilizado. Mas, conforme o estou enfatizando, está-se utilizando a democracia para promover-se e perpassar-se publicamente essa situação, em flagrante espírito antidemocrático, em pungente violação dos direitos humanos.

Por isso, aos partidos políticos e aos/às candidatos/as que buscarão, neste ano, o apoio popular para suas propostas: queremos ver, ouvir, ler e analisar seus projetos políticos para nossa cidade, para nosso estado, para nosso país! Queremos avaliar se seus projetos e suas propostas servem de forma consistente para o desenvolvimento socioeconômico e para a moralidade público-institucional. Queremos ver se eles e sua atuação servem para construir pontes, e não para gerar guerras, violências e maniqueísmos. E, em tudo isso, queremos perceber se vocês sabem discutir projetos, pensar e agir a partir de propostas e projetos, enquadrando os/as demais candidatos/as em suas propostas e em seus projetos, sem desinformação.

De todo modo, essa invectiva serve também para nós, grupos sociais, cidadãos e cidadãs os/as mais variados/as: sabemos e saberemos superar essa situação de desinformação e de maniqueísmo e alcançarmos um ideal de maturidade política e de civismo democrático que nos possibilite discutir e interagir racionalmente uns com os outros, umas com as outras? Essa crise social, política, institucional, cultural e econômica que vivemos hoje – isso precisa ficar bem claro – não foi causada apenas no nível partidário-institucional, o que significa que ela não é apenas uma crise política; ela também foi causada culturalmente, socialmente, economicamente, a partir da quebra de consensos democráticos mínimos que vínhamos vivendo, ainda que com bastante fragilidade, há muito tempo: respeito às regras do jogo por partidos políticos, tolerância cultural, aliança entre capital e trabalho etc.

Por isso, a quebra desses consensos nos explicita que nossos problemas são bem mais amplos do que a crise partidário-institucional que vivemos, estando, em verdade, enraizados em nossa sociedade, em nossa cultura nacional, em nossos grupos sociais, em nossos cidadãos e em nossas cidadãs. E nós precisamos desconstruí-los todos, um por um, dia após dia, individual e coletivamente. Podemos fazer isso por meio do combate à desinformação, por meio da promoção de uma discussão civilizada e do respeito e da acolhida para com nossos/as vizinhos/as, da tolerância e do acolhimento às diferenças e do tratamento racional de nossas dissensões. Não adianta falarmos mal das instituições e dos partidos políticos e continuarmos jogando esse mesmo jogo podre de que os/as acusamos.

Estamos no mesmo barco, como dizem os/as intelectuais indígenas, e afundaremos todos/as juntos/as. Por isso, o resgate da democracia em nossa esfera privada e em nossa esfera pública é fundamental e necessita de todos/as nós, da participação, do ativismo e de uma postura cívica por parte de todos/as nós.


Autor: Leno Danner

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