RONDONOTICIAS terça-feira, 25 de fevereiro de 2020 - Criado em 11/10/2001

“Nacionalismo cultural” não tem nenhum significado no discurso do atual governo!


Por Leno Danner

20/01/2020 09:07:25 - Atualizado

O discurso feito pelo agora ex-secretário especial da cultura do governo Jair Messias Bolsonaro, Roberto Alvim, no qual, entre outras coisas, afirmou que a “nova” arte brasileira será e estará alicerçada em nossos mitos fundantes, é no mínimo estarrecedora, considerando-se, no caso, que, para ele (e para o presidente que o nomeou e que ele diz representar ali), esses mitos consistem na pátria, na família, na coragem do povo e em deus – inclusive em termos das virtudes básicas que essa arte nacionalista deve fomentar, a saber, a , a lealdade, o autossacrifício e a luta contra o mal. Como se percebe, tanto esses mitos fundantes quanto essas virtudes estéticas são apenas delírios do século XIX e dos primórdios do século XX, que não fazem mais jus à realidade de uma democracia contemporânea.

Comecemos, então, pelas condições fundantes de uma democracia contemporânea. Ela é pluralista, heterogênea e diferenciada, não possuindo qualquer identidade étnico-racial de caráter essencialista e naturalizado. O que nos une, para além de algumas convenções culturais e linguísticas básicas, e de uma pretensa história em comum (contada por quem?), é a Constituição estruturada sob a forma de um Estado democrático de direito; é, portanto, nossa cidadania política e o fato de sermos sujeitos de direito em igualdade de condições que nos fazem uma mátria, uma pátria, uma coletividade. Nenhuma perspectiva étnico-racial substitui o Estado democrático de direito e nem o embasa. Não há como regredir a uma ficção tão ingênua como a dessa pátria étnico-racial sem consequentemente invalidar-se a própria democracia.

Nossa democracia, como disse, é pluralista, o que significa que existe uma multiplicidade cultural e uma pluralidade de sujeitos sociopolíticos que convivem juntos, gerando tensões e potencialidades próprias a essa multiplicidade impossível de massificação e de homogeneização. Ademais, nossa democracia assume pressupostos institucionais e normativos marcados pela racionalização, pela secularização e pelo laicismo, o que significa o reconhecimento de que o que nos une é, em última instância, o próprio direito, a própria política, e não a pertença, repito, a uma raça, a uma etnia, a uma religião ou a um gênero comum. Por isso, é ininteligível a ênfase na pátria, na família e em deus. A qual deus nos referimos – Javé, Allah, Tupã etc.? A qual família nos referimos – a heterossexual, a homossexual, a transexual etc.? A qual pátria nos referimos – a dos hinos e da disciplina militarista, a da teocracia neopentecostal, a do universalismo etc.?

O ex-secretário responde: a da maioria, a da imensa maioria. Mas qual imensa maioria – a maior torcida, a maior religião, o maior gênero-sexo, os mais pobres, a maior “raça” etc.? Não está claro – e desconfio que Roberto Alvim também não tenha claro – qual é a maioria brasileira que aprova e justifica essa “cultura nacionalista”, e à qual esta mesma cultura nacionalista objetiva servir de base formativo-simbólica.

Por trás desse discurso, estão a utilização e a promoção de uma mistificação do que seja efetivamente o povo, do que seja efetivamente a pátria – e isso não somente por parte desse governo. É só andar no dia a dia de nossas cidades para se perceber que essa maioria não existe ou pode ser pior do que pensávamos idealisticamente; é só analisarmos as condições de acesso à educação, à saúde, ao trabalho, à cultura da população brasileira para termos uma noção de qual pátria se está falando. É a pátria do abandono político, e não da depravação cultural. Se nossa sociedade está doente, isso se deve a uma degeneração de nossas elites políticas, econômicas e religiosas.

De outro lado, a solidificação de uma democracia substantiva, dos direitos humanos e do universalismo cultural exige outros princípios do que a fé, a lealdade, o autossacrifício e a luta contra o mal. O mal é exatamente tudo aquilo que impede que os direitos humanos floresçam em sua plenitude, e não a crença nos diabinhos que nos causam desde doenças físicas e mentais até problemas de relacionamento afetivo e crises sociais amplas. O combate efetivo ao mal, se ele fosse entendido em termos não-escatológicos, derrubaria muitos governos, lideranças e partidos políticos; e talvez nem nosso atual presidente escaparia disso, se instituíssemos uma moralização da política que se sobrepõe ao direito, ao devido processo legal, à presunção de inocência, se respaldássemos essa perspectiva maniqueísta e dualista muito em voga em nossos dias.

De minha parte, tenho uma profunda ojeriza a todas as lideranças e partidos políticos que assumem, promovem e publicizam essa ignorância fundamentalista que para eles pode salvar uma democracia doente. A democracia perde força se as instituições não funcionam de modo publicizado, transparente e profundamente imbricado às necessidades de inclusão e de justiça sociais, de reconhecimento cultural e de participação política. No mesmo sentido, cada vez me enoja mais lideranças religiosas que enriquecem às custas da manipulação da miséria e da ignorância populares, de seu sofrimento e de suas desilusões cotidianos, por meio da utilização de uma linguagem simplista e simplória sobre mau-olhado, inveja, olho gordo, espíritos etc., como se aqui estivesse a causa de todos os nossos problemas, pessoais e políticos.

No fundo, talvez a grande crise da sociedade brasileira consista no fato de que queremos viver o presente, sermos contemporâneos de nosso tempo sem assumirmos a radicalidade que uma democracia exige: queremos falar de família heterossexual em um contexto onde ela não é mais a única forma de vida familiar; queremos falar em amor à pátria onde a efetividade da cidadania e o respeito ao Estado democrático de direito e às diferenças passaram a ser a base democrática; queremos justiça social sem protagonismo político por parte do Estado; queremos liberdade, igualdade e reconhecimento sem conceder aos outros as mesmas condições e sem exigir das instituições públicas o mesmo tratamento para com eles. Enfim, queremos viver em uma democracia, mas de modo não-democrático, classista, em que eu, minha família ou minha comunidade temos todos os direitos, e os outros nenhum. Em suma, queremos continuar sendo fascistas e viver em uma democracia.

Por isso, a fala de Roberto Alvim, além de uma ingenuidade ou má-fé enorme, expõe o óbvio: de que essa ideia de uma cultura nacionalista é só fanfarronada de quem não tem nada a oferecer em termos de projetos políticos, de propostas de desenvolvimento social e de inclusão cultural. É um discurso vazio, carente de significado e imbecilizante, que não ataca nossos problemas econômicos, políticos e culturais, que não ataca o subdesenvolvimento, a corrupção e a falta de protagonismo político de nossas lideranças, que não ataca a crise educacional sem fim que vivemos.   


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