RONDONOTICIAS segunda-feira, 10 de agosto de 2020 - Criado em 11/10/2001

Não basta moderação institucional, é preciso liderança e projeto!


Por Leno Danner

14/07/2020 11:24:12 - Atualizado

Estamos vivendo alguns dias de relativa paz institucional, devido ao fato de que nosso presidente, Jair Messias Bolsonaro, se calou. Nos primeiros dias, confesso que foi difícil me acostumar, porque Bolsonaro normalizou uma situação de enfrentamento de poderes, de estímulo a uma massa-milícia digital-social de aclamação, de discursos cotidianos bobos e, finalmente, de atuação tresloucada frente à pandemia mortal do coronavírus que nos alçou em pouco tempo à condição de segundo lugar mundial em número de contaminações e de mortes, com a possibilidade de ainda alcançarmos o primeiro lugar, caso Donald Trump se moderar. Estava tão acostumado a perceber um nível elevado de tensão institucional e social, com ameaças permanentes de ruptura institucional, que, de fato, nos primeiros dias, estranhei deveras este “novo” momento de Jair Messias Bolsonaro. Que o respeito entre os poderes e a postura institucional não faltem mais ao presidente e a todos os partidos e lideranças políticas! E, com isso, que ele possa passar mais tempo calado, circunspecto.

Porém, isto não é suficiente para sairmos do buraco sem fim – e se agravando mais e mais – causado pela tríade problema sanitário, crise econômica e miserabilidade consolidada, amplificado mais e mais por essa postura anti-institucional do presidente e de seus apaniguados. Para ser sincero, o pior lado do presidente Jair Messias Bolsonaro não é nem de longe sua tendência antissistêmica e de confronto institucional, seu linguajar chulo e as bobagens sexuais e religiosas que diz ou as fake news que compartilha ingenuamente (ou maldosamente), mas exatamente sua falta de projeto político e sua incapacidade de liderança institucional e de diálogo com os demais poderes, especialmente o legislativo. É nesse quesito que Bolsonaro revela-se de uma incompetência enorme e, hoje, depois de um ano e meio de conflitos diretos e radicalizados contra o judiciário e o legislativo, temos um presidente acossado, quando não ridicularizado, que não consegue e que dificilmente conseguirá construir maioria legislativa para aprovar seus projetos, se é que efetivamente tiver algum em termos de retomada do crescimento econômico, do emprego e da renda, o que exige protagonismo estatal desde um modelo de política forte, que enquadra e orienta a economia.

O que se percebe, portanto, nesse aspecto, é que o governo de Jair Messias Bolsonaro entrou em um apagão gerencial e em um isolamento político que imobilizaram qualquer possibilidade de projetar o amanhã pós Covid-19, o que exigiria desde já uma preparação público-estatal direcionada (a) a um diálogo e a uma parceria incisivos com o legislativo federal e com os governadores e prefeitos; (b) a um fortalecimento e a uma ampliação dos bancos públicos em termos de oferta de capital a pequenas, médias e grandes empresas e de financiamento da construção civil e da retomada de obras ligadas ao PAC, especialmente o saneamento básico; e (c) a efetivação de um programa de renda mínima universal que pudesse estender-se incondicionalmente às famílias de baixa renda, sendo absolutamente necessária pelo menos enquanto primeiro momento da recuperação social e econômica nacional. Seria importante, ainda, (d) a revogação da legislação trabalhista aprovada no governo de Michel Temer, em torno à terceirização irrestrita e à questão da redução dos direitos trabalhistas, uma vez que não há como se promover desenvolvimento econômico sem concomitantemente fortalecer-se o âmbito do trabalho, do emprego, da renda.

Esses desafios urgentes, essas necessidades prementes, entretanto, não estão na alçada de mira do presidente Jair Messias Bolsonaro, embora já tenham sido aventadas pelo Gal. Braga-Netto por meio do Pró-Brasil, porque quem dá as cartas da economia nesse momento é o ministro da economia Paulo Guedes, que já afirmou, contra o próprio Gal. Braga-Netto, que não é o Estado e nem uma perspectiva social-desenvolvimentista que farão a economia crescer e os empregos aparecerem, mas exatamente a primazia do capital privado, em particular do capital privado externo. É um erro crasso em uma situação de crise social aguda e de descrescimento econômico amplo que estamos vivendo. Se somarmos, a essa situação de recessão e de desemprego consolidados, o fato da instabilidade política e da tensão entre poderes causada pelo presidente Bolsonaro e por seus apaniguados, inclusive alguns experientes membros das forças armadas que resolveram agir como se fossem imbecis, então teremos uma explicação bastante clara de por que a salvação não virá da iniciativa privada, seja brasileira, seja internacional, mas exatamente de um Estado de bem-estar social protagonista e ativo, com investimento maciço na economia e na integração social.

Ademais da limitação gerencial do presidente Jair Messias Bolsonaro por causa de Paulo Guedes, temos exatamente a incapacidade que já vem de longa data de ele (Bolsonaro) conseguir construir alianças amplas capazes de implantar institucional e politicamente uma perspectiva social à gestão pública, embora, neste momento, Bolsonaro esteja vendo sua popularidade crescer entre os grupos mais vulneráveis por causa do auxílio emergencial a eles distribuído. O presidente não tem uma visão social da economia e muito menos uma compreensão política em termos de desenvolvimento e de integração socioeconômicos. Na sua compreensão simplificada e simplificadora, tudo se reduz à meritocracia por meio do trabalho, à fé em Deus e à chibata contra o crime, ou seja, mercado, bíblia e polícia – não há nada mais e nada menos do que isso, para ele. Nesse sentido, se estamos surpreendidos com o fato de que o presidente finalmente fechou a boca, tranquilizando um pouco a relação entre poderes, ainda nos falta a consecução de um projeto político de desenvolvimento e de uma atitude efetivamente gestora e de liderança institucional e política, que é necessária a qualquer executivo. Por isso, temo que continuaremos não enfrentando a pandemia que nos assola, devido à recusa à responsabilidade por parte do presidente e ao seu confronto com governadores e prefeitos, e nem teremos um projeto de longo prazo de reconstrução da economia e da integração social, de modo que a evolução social continuará se dinamizando de modo espontaneísta, isto é, como um imobilismo permanente causado por meios políticos, amplificado por estes. Nossa tragédia nacional tende, com Jair Messias Bolsonaro, a se consolidar mais e mais, devido à sua incapacidade gerencial e à sua falta de liderança e de projeto institucionais.   


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