RONDONOTICIAS sábado, 24 de outubro de 2020 - Criado em 11/10/2001

A história julgará os gestores anticiência, e não a OMS, pela má conduta pública na pandemia do coronavírus!


Por Leno Danner

22/09/2020 10:22:22 - Atualizado

Certo jornalista aqui de Porto Velho escreveu há poucos dias que a história julgará a Organização Mundial da Saúde pela dubiedade, quando não pela condução equivocada, do enfrentamento da pandemia do coronavírus, em especial no que diz respeito à prescrição da cloroquina ou da hidroxicloroquina para tratamento da COVID-19 desde o início da manifes-tação dos sintomas da doença. Segundo o referido jornalista, o fato de que a Organização Mundial da Saúde tem sido dinamizada por ideologias políticas impediu o enfrentamento ob-jetivo do problema e, inclusive, a liberação desse medicamento para tratamento dos pacientes, ocasionando mortes desnecessárias que poderiam ter sido evitadas exatamente com a prescri-ção da cloroquina desde a fase inicial do tratamento.

É duro ler estas palavras, sem nenhum fundamento científico, mas obviamente é da democracia: dê-se espaço e as pessoas falam o que quiserem, inclusive de suas fantasias mais íntimas ou da sua profunda estupidez camuflada de retórica apaixonada – e em geral com teo-rias da conspiração as mais absurdas, sempre com uma tônica anticientífica e fundamentalista rasa, simplória e falsa. Porque, desde o início, os presidentes Donald Trump e Jair Messias Bolsonaro foram exatamente os mais empedernidos inimigos de uma abordagem científica desse problema, ao ponto de se chocarem frontalmente com a Organização Mundial da Saúde, acusando-a exatamente de politização – essa acusação falsa e grosseira que os papagaios-mínions não se cansam de repetir.

Donald Trump, obviamente, ainda possui um pouco de bom senso, porque, tão logo a Food and Drug Administration (FDA), que é a agência de saúde nacional dos Estados Unidos, constatou o caráter extremamente contaminador e letal da doença, orientando a uma postura governamental de fechamento do país e de contenção da população, ele modificou a sua pers-pectiva e conduziu um processo de isolamento social horizontalizado amplo, ainda que, por ter se atrasado em pelo menos um mês nas medidas, tivesse como consequência o primeiro lugar por parte dos Estados Unidos no que diz respeito ao número de contaminações e de mortes. Inclusive, no caso de Donald Trump, houve também a proposição de um pacote de investimentos públicos que foram desde a realização de empréstimos a empresas para o não fechamento de suas atividades e o pagamento de seus funcionários, passando pela distribuição de um auxílio social de três mil dólares para cada cidadão e para cada cidadã americana em vulnerabilidade social – nesse caso, um pacote de pelo menos três trilhões de dólares de in-vestimento público nas áreas social e econômica!

Nosso presidente Jair Messias Bolsonaro, em contrapartida, continua até hoje a negar a obviedade dos dados científicos em torno ao problema – aliás, continua a negar até hoje evi-dências científicas mínimas sobre clima, sobre Terra redonda, sobre vacinação etc. Bolsonaro, nesse sentido, simplesmente não conseguiu ser convencido por ninguém relativamente ao necessário diagnóstico científico da doença, fundando suas crenças simplórias e simplificado-ras seja no fundamentalismo religioso (quem não se lembra do jejum pelo Brasil, que ele en-campou, ou de sua afirmação de que quem fica em casa, na época da pandemia, é um fraco?! – note-se, aliás, a grande fundamentação científica desses juízos, que fariam inveja até a Al-bert Einstein!), seja no negacionismo idiota e inercial do senso comum mais tosco.

A consequência de uma atitude criminosa de nosso presidente, não apenas por omis-são, mas também por estímulo ao desrespeito seja às normas sanitárias de isolamento, seja ao trabalho de governadores e prefeitos, foi o fato de que o Brasil conseguiu o segundo lugar em número de contaminações e de mortes, Trump em primeiro, Bolsonaro em segundo, EUA em primeiro, Brasil em segundo: não por acaso, os dois presidentes anticiência, que criticavam a politização e a ideologização da OMS, governam os países com mais casos de contaminação e de mortes pelo coronavírus. Coincidência nenhuma aqui, mas apenas cumplicidade, estímulo e desrespeito à ciência, com profunda contaminação ideológica e recusa ao protagonismo.

Jair Messias Bolsonaro só não fez um estrago maior porque o Supremo Tribunal Fede-ral, prevendo o desastre gerencial que já estava consolidado e que se ampliava rapidamente, retirou a competência exclusiva e primordial do governo federal em organizar uma política nacional de saúde em torno ao combate à pandemia do coronavírus, invertendo a lógica pró-pria ao Estado brasileiro: ao invés de ser o nível federal a organizar as atividades nos estados e nos municípios, cada estado e cada município passaram a ser autônomos para realizarem sua gestão e seu gerenciamento da pandemia. Isso é uma inversão administrativo-legal que, em uma situação normal, com um governante normal, simplesmente não teria lugar, porque é óbvio que é responsabilidade do governo federal a gestão da saúde pública nacional, com o qual colaboram estados e municípios. Ocorre que, se o STF tivesse dado esse poder ao gover-no federal, teríamos, hoje, muito provavelmente o dobro de mortes, dada a loucura presiden-cial nesse seu espírito anticiência.

Em outras palavras, ao perceber a insensatez e a incompetência gerenciais do presiden-te da República e a sua postura em favor de um suposto isolamento vertical não recomendado cientificamente, com efeitos possivelmente nefastos, O STF retirou do presidente qualquer competência última para decidir sobre a política de saúde assumida por estados e municípios em relação à pandemia do coronavírus – situação vergonhosa para Jair Messias Bolsonaro, porque lhe passou exatamente uma atestado monumental de incompetência, de incapacidade. Ora, o que o presidente fez (além de ameaçar desrespeitar decisões do judiciário e de enviar tropas ao STF)? Continuou dando exemplos de desrespeito às determinações científicas e sa-nitárias e às posturas administrativo-políticas assumidas por gestores estaduais e municipais, ao ponto de brigar publicamente com o governador de São Paulo João Dória, acusando-o de se aproveitar dele e depois abandoná-lo. Ademais, atrasou os repasses aprovados pelo legisla-tivo para os estados e municípios, obrigando muitos deles a reabrirem atividades econômicas para adquirem receitas mínimas para lidar com as despesas institucionais. Ou seja, o presiden-te, embora impedido de conduzir uma política nacional de enfrentamento ao coronavírus, con-seguiu sabotar o trabalho científico e a gestão administrativa da pandemia por estados e muni-cípios; e, não obstante todas estas evidências por parte do presidente de desrespeito às normas sanitárias e de sabotagem do trabalho de governadores e prefeitos, ainda tem gente – como é o caso do jornalista acima citado – acreditando que o presidente é inocente nessa história, coisa que ele não é com absoluta evidência. Nessa retórica distorcida que vivemos, uma retórica canalha e desonesta que tem por consequência o aumento do número de mortes, o presidente anticiência, o presidente simplificador, o presidente que ameaça derrubar o STF e, portanto, o próprio Estado democrático de direito, é afirmado como um herói abnegado e, ao contrário, as entidades científicas e todo o trabalho de saúde feito por nossos profissionais, ao risco da pró-pria vida, são tematizados como politizados e ideológicos!

É uma inversão vergonhosa dos valores democráticos e aqueles que têm coragem, não obstante todas as evidências, de defender um presidente incompetente e sabotador do trabalho de combate ao coronavírus entrarão para a história, junto com esse presidente, como os res-ponsáveis não só pelo incremento da crise sanitária, social, política e econômica que vivemos, com o crescimento do número de infecções e de mortes que poderiam ser facilmente evitadas com cuidados mínimos e isolamento social por parte de todos, mas também pela deturpação de nossos valores democráticos mais básicos. O bolsonarismo é um câncer nacional, uma do-ença ao mesmo tempo político-institucional, sociocultural e cognitivo-moral, e nós demora-remos muito tempo a nos livrarmos dessa praga, se é que algum dia nos livraremos.


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