RONDONOTICIAS quinta-feira, 3 de dezembro de 2020 - Criado em 11/10/2001

O delírio do governador Marcos Rocha, ou como ser espertalhão politicamente por meio do fomento à ignorância, à desinformação e ao ódio alheios!


Por Leno Danner

12/11/2020 19:45:50 - Atualizado

Retomo mais uma vez uma observação que fiz em artigo anterior neste jornal: extrema direita e extrema esquerda são criminosas pelos mesmos meios e pelos mesmos motivos: ambas têm por meta o solapamento do Estado democrático de direito, dos direitos e das garantias fundamentais e da civilidade democrática. Se a extrema direita se utiliza do fundamentalismo simplório e simplificador e do golpismo militar messiânico, a extrema esquerda, de sua parte, se utiliza do dualismo político e da luta antissistêmica. Como se percebe, são bandidos do mesmo modo, ainda que em lados completamente opostos do espectro político, por buscarem destruir a integridade das instituições públicas e a centralidade da diferença (inclusive da diferença política).

Eu inicio com esta observação para que a gente possa responder exatamente aos interlocutores da extrema direita e da extrema esquerda – se é que se pode falar desse modo elogioso, isto é, interlocução com extremistas
da democracia, dos direitos humanos e do Estado democrático de direito – e aos seus dois neurônios conflitantes: o tico da direita e o teco da esquerda, o tico do comunismo e o teco do capitalismo. Com eles, os extremistas, aliás, ou é tico, ou é teco. Não tem meio termo, não tem conciliação, não tem racionalização. A luz da razão, da tolerância e da ciência não consegue espairecer e suplantar a névoa que perpassa suas ideias, suas práticas, sua visão de mundo. Por isso mesmo, o extremista é somente um idiota útil. Útil a quem? Ora, é aqui que aparece o exemplo do governador Marcos Rocha.

Outro ponto importante: votei em Marcos Rocha no segundo turno eleitoral em 2018. Acreditava que o fato de ser professor e de possuir fala mansa e límpida e comportamento calmo e controlado – uma virtude de muitos professores e militares, aliás – lhe capacitariam, embora filiado ao PSL e ao bolsonarismo, a renovar a política rondoniense (ou pelo menos a não piorá-la), especialmente levando-se em conta seu adversário na época. Sinceramente acreditei que a atuação como líder político de um estado – e por já ter atuado como professor e militar, o que exige, tanto quanto o cargo de governador, neutralidade institucional, moderação discursiva e abertura normativa – o fariam aprender que líderes políticos institucionalizados saberiam diferenciar as exigências jurídicas e morais do cargo e esse obscurantismo tosco que, com o bolsonarismo, se tornou o fundamento de segmentos sociais nada desprezíveis e, finalmente, de autoridades políticas que perderam completamente o senso de institucionalidade. Mas, obviamente, acreditei em vão.

Por isso, me pergunto: o que leva um governador, que também é um professor de escola e um coronel da polícia militar, a falar estultice – a desmedida estultice – que foi dita por Marcos Rocha em um vídeo que circula pelo noticiário do estado, no qual, para fazer campanha a um pastor evangélico sem noção, diz coisas como: crente ou cristão e esquerda não combinam, esquerda persegue e mata cristãos, esquerda fomenta a depravação sexual e a erotização e a sexualização precoce das crianças? O que leva Marcos Rocha, governador do estado, professor e militar, a encampar um discurso tão ignorante de um pastor que certamente não sabe portar-se como pastor e que certamente não saberá ser liderança política?

Ora, é aqui que aparecem os líderes políticos e religiosos aproveitadores, os espertalhões manipuladores da fé e da boa vontade alheias. Marcos Rocha é pessoa inteligente, o pastor é pessoa inteligente – ao menos falam de modo consistente e demonstram capacidade de autodomínio e autocontrole. E por serem inteligentes sabem que aquilo que falaram é pura e simplesmente asneira. Tanto é assim que Marcos Nobre chega até a gaguejar e a tartamudear na hora de “explicar” que crente ou cristão é ou deve ser de direita, e não de esquerda, bem como, correlatamente, de que esquerda e religião não combinam. Bom, pensei que o que não combinasse era crente e criminalidade, direita e criminalidade, esquerda e criminalidade. Mas, como venho dizendo, a extrema direita fundamentalista perdeu qualquer sentido de honestidade intelectual e de comprometimento moral.

De todo modo, Marcos Rocha falou tanta besteira, juntamente com o pastor Josinélio Muniz, porque seu objetivo é pura e simplesmente manipular a boa vontade e a fé das pessoas, principalmente dos evangélicos, ao que parece, em favor de seu projeto político nesta eleição. É a versão institucional e fundamentalista das fake news no âmbito digital-midiático. O que Marcos Rocha e Josinélio Muniz disseram é fake, eles são fake: interpretaram um papel manipulador, deturpador e simplesmente querem fomentar a desinformação e estados de ânimo que, em situação de acirramento político, podem levar à violência, tudo para ganhar votos.

Será que já pararam para pensar que algum correligionário pode se sentir motivado com suas falas a realizar alguma forma de violência contra opositores? Já vimos essa cena com Bolsonaro: instiga-se as pessoas a desrespeitarem as medidas de isolamento social; a pessoa, crente no presidente, sai de casa sem máscara, se mete no meio da multidão, pega COVID-19 e a passa para familiares e amigos. Depois ela, ou sua esposa, ou seu esposo, ou seu pai, ou sua mãe morre e, então, é choro e arrependimento. Isso sem falar no confronto com o judiciário e o legislativo, que, desde o estímulo do presidente, gera movimentos destrutivos no âmbito da sociedade civil contra as instituições. Ou mesmo no “vou metralhar a petezada”. Como uma liderança pode falar isso e esperar que nada aconteça?

Note-se que, em um caso como no outro, é tudo planejado para motivar o conflito, para fomentar a destruição e, obviamente, a autodestruição. Nada é dito ou feito ao azar, sem planejamento. O fim é sempre conquistar hegemonia por meio da manipulação, da desinformação, da mentira, do estigma, do ódio. No caso do governador Marcos Rocha e do pastor Josinélio Muniz, como disse, a intenção é desinformar, desorientar e manipular pessoas por votos. Por isso, a esses espertalhões que manipulam despudoradamente, por meio da desinformação e da mentira, a vontade, a crença, a esperança e a ação alheias, instrumentalizando-as para seus interesses eleitorais imediatos, a melhor resposta é exatamente votar em lideranças capazes, preparadas e honestas. Isto é, apoiar outras lideranças.


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