RONDONOTICIAS segunda-feira, 18 de janeiro de 2021 - Criado em 11/10/2001

Consequências de não termos vacinação em massa esse ano


Por Leno Danner

09/01/2021 11:34:23 - Atualizado

Já está certo que não teremos vacinação em massa esse ano no Brasil. Até agora, o go-verno federal conseguiu comprar apenas dois milhões de doses da vacina Oxford/Astrazeneca e em primeira mão encomendou cem milhões de doses da vacina Sinovac/Butantã, embora não tenha ainda condições infraestruturais de aplicação destas últimas, na medida em que não conseguiu comprar seringas suficientes para a vacinação. Obviamente, ainda estamos no co-meço da definição das vacinas e dos insumos necessários, mas exatamente por isso houve uma falha enorme do governo federal em três aspectos básicos.

Primeiro, no boicote realizado por Jair Messias Bolsonaro em relação ao trabalho pre-ventivo de estados e municípios, em uma cruzada anticiência, simplificadora e maldosa (uma vez que vidas humanas estavam em jogo) que ainda hoje me é difícil de entender e que nos colocou de joelhos seja no que se refere à estabilidade socioeconômica, seja no que diz respei-to ao enfrentamento consistente da pandemia. O resultado: crise e morte.

A segunda diz respeito à aposta exclusiva na vacina Oxford/Astrazeneca, aliada ao fa-to de não ter feito reserva de mercado das vacinas, seja mais uma vez esta da Ox-ford/Astrazeneca, seja as das outras dez empresas que estão fabricando vacinas, incluindo-se a proposta da Sinovac/Butantã – o governo federal podia ter garantido no mínimo o triplo do que hoje acredita poder fornecer aos brasileiros neste ano de 2021, mas, mais uma vez ape-lando à sua perspectiva de boicote e à sua postura anticientífica, não se programou junto às empresas e estas já reservaram sua produção a outros países (EUA, por exemplo, compraram pelo menos um bilhão de doses de várias empresas; Canadá comprou uma quantidade de va-cinas três vezes maior do que o número de habitantes; União Europeia recentemente reservou mais cem milhões de doses da Oxford/Astrazeneca).

Terceiro, supondo que o governo tivesse uma visão cosmopolita e universalista aliada à Organização Mundial da Saúde e, portanto, tivesse aderido ao COVAX, então haveria um protagonismo direcionado ao fornecimento das vacinas a essa mesma OMS que, por sua vez, distribuiria equitativamente as doses entre os países. Entretanto, como vimos desde o início da pandemia, a OMS “comunista” simplesmente foi deslegitimada pelo presidente e por seus aliados bolsonaristas.

O preço do boicote, da omissão e da simplificação bolsonarista está visível: duzentos mil mortos, número completado na quarta-feira, dia 06 de janeiro. Agora, já sabemos que a doença mata, que ela derruba a economia e cria instabilidade social. E também sabemos que a liberação pura e simples das atividades cotidianas e a abertura desenfreada de estabelecimen-tos têm por efeito ampliar a situação de infecções, superlotação e esgotamento da infraestrutu-

ra hospitalar e finalmente incrementar as mortes. Também sabemos que cuidados profiláticos básicos, como uso de máscaras, luvas e álcool gel, funcionam e podem minimizar os casos de infecção. Sabemos tudo isso de longa data já, mas a insistência negacionista, a postura sabo-tadora e, finalmente, a inação institucional nos levaram ao agravamento da pandemia – já es-tamos em plena segunda onda – e nos colocaram ao final da fila da vacinação em massa.

Seja na vacinação em massa, seja na utilização de máscara, luva e álcool gel, seja, fi-nalmente, no isolamento social horizontal, o que vimos foi simplesmente uma negação com-pleta, por parte do presidente, de qualquer efetividade, de qualquer postura de cuidado e de proteção, exemplo que foi seguido de perto pela massa social bolsonarista, não sei se por es-tupidez, se por boçalidade pura e simples, se por maldade – provavelmente um pouco de to-das. O importante está exatamente em que nenhuma medida de enfrentamento foi tomada pelo presidente e sequer foi seguida e chancelada por ele. Nenhuma. O próprio auxílio emergencial foi aprovado pela câmara dos deputados e pelo senado federal, e não pelo presidente, embora ele tenha levado o crédito.

É por isso que, conforme título deste texto, não teremos vacinação em massa da popu-lação brasileira. Quando muito, é bem provável que tenhamos 60 milhões de pessoas vacina-das até o final do ano, o que não é suficiente para pôr fim ao problema através da garantia da imunização de rebanho – a qual, é preciso que se diga, só funciona com vacinação, e não com liberação geral. Digo “quando muito” porque essa situação dependerá de organização logísti-ca e gerencial do governo federal, o que só está sendo feito agora a contragosto e direcionado ao enfrentamento do governador de São Paulo, João Dória. É contra ele que o governo tem se empenhado, não contra a doença. De todo modo, desde que haja vacinação ampla, que seja.

Teremos, com isso, três implicações muito sérias. Primeiro, haverá crise permanente, com picos de crescimento do contágio que normalizarão superlotação hospitalar, isolamento social e mortes; segundo, haverá impossibilidade de retomada de atividades cotidianas, como a volta as aulas, por exemplo – teremos que ficar indefinidamente em casa; e, finalmente, a economia estará permanentemente engessada, em decrescimento forte, levando ao aumento do desemprego e da instabilidade sociais, uma vez que o crescimento das infecções tem o efeito de inibir a livre circulação de pessoas.

Ora, a solução dessa crise não acontecerá por meio da retomada das atividades cotidi-anas e o rompimento do isolamento social, que implicam em fechar-se os olhos para a pan-demia e em ignorar-se seus efeitos mortais na saúde das pessoas e na própria economia; a solução está na correlação de vacinação em massa e de medidas de contenção e de isolamento

bem realizadas, concomitantemente ao estímulo à proteção e ao cuidado pessoais, por parte de cada um, por parte de todos.

Será que Bolsonaro está disposto, depois de tudo, a dar este passo? Essa situação exi-giria um giro de 360 graus na mentalidade do presidente, o que sinceramente não acredito, haja vista sua falta de empatia, sua incapacidade gerencial e sua perspectiva anticiência sim-plificadora. A saída provavelmente seja o impeachment, algo já justificado pelos inúmeros crises de responsabilidade cometidos. Ele, legítimo como o é, nos permitiria retirar do poder um dos piores sujeitos que já tivemos na nossa esfera público-político-institucional.


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