RONDONOTICIAS quarta-feira, 3 de março de 2021 - Criado em 11/10/2001

O longo e direto caminho da pandemia, o curto e tortuoso caminho da política!


Por Leno Danner

22/01/2021 14:58:14 - Atualizado

Nós estamos acompanhando, desde a emergência da pandemia do coronavírus, um hiato entre a política partidária e o desenvolvimento e a amplificação da pandemia do coronavírus cuja distância e, em muitos casos, contraposição estão nos levando tanto ao caos sanitário quanto ao imobilismo e o travamento sociais, por meio seja das disputas partidárias e gerenciais espúrias dinamizadas pelo negacionismo, à revelia da ciência, e pela guerra fratricida entre lideranças políticas preocupadas pura e simplesmente com sua hegemonia em meio à tragédia, seja de uma prática sabotadora de qualquer mínimo trabalho imbricado entre as diversas instâncias institucionais de governo.

Para começo de conversa, pudemos aprender algo de muito importante com o andamento acelerado e mortal, até agora, da pandemia do coronavírus. Ela é demarcada por contágio alto e intenso, que tende a crescer e se agravar com o desrespeito a regras sanitárias mínimas de cuidado (como máscara, luva, álcool gel e distanciamento). Reunir-se em multidões equivale a assinar-se um atestado de morte para mais e mais pessoas, próximas ou distantes de nós. Entender que nos tornamos reais (não mais potenciais) propagadores do vírus e, em caso de negligência e de desrespeito às normas sanitárias, reais (não mais potenciais) assassinos de nossos semelhantes, bem como de nós mesmos, é importante para conscientizarmo-nos moralmente de nossas responsabilidades e obrigações.

Ela não permitirá a constituição pura e simples de imunidade de rebanho sem vacinação ampla e permanente da população, de modo que contaminar-se com o vírus não é e não nos dá nenhuma garantia de que nunca mais pegaremos a infecção: os casos corriqueiros de reinfecção e as mutações genômicas do coronavírus estão aí para nos mostrar que a liberação geral das atividades e o fim do isolamento social viabilizadores de imunidade de rebanho são equivocados quando se trata do enfrentamento de curto, médio e longo prazos relativamente ao COVID-19.

A vacinação em massa e permanente da população, ademais, não eliminará de agora em diante – e provavelmente para sempre – posturas de isolamento, distanciamento e cuidados sanitários intensificados, constantes e sempre alertas, de modo que a vacina não será e não representará uma liberação pura e simples para voltarmos a uma normalidade de vida e social que perdemos de uma vez por todas. Nesse sentido, não voltaremos mais à vida que tínhamos antes, desde coisas simples como reunir-se em um cinema para assistir um filme, passando-se por festas e shows grandiosos e chegando-se até a coisas mais drásticas e autodestrutivas como alcoolismo, tabagismo, uso de entorpecentes e obesidade etc. Vamos ter de evitar aglomerações e nos proteger permanentemente, sendo que as administrações públicas, profundamente fundadas no trabalho científico, terão de realizar distanciamento e isolamento sociais frequentes, com o objetivo de fiscalizar-se, gerenciar-se e, com isso, evitar-se a proliferação descontrolada de contaminações.

O que vimos, o que constatamos e o que pudemos aprender nestes doze para treze meses de pandemia? Que ela acelera com a liberação geral das atividades, o abandono do isolamento social e o descaso em relação a cuidados higiênicos; que ela desacelera com isolamento social, com contenção de aglomerações e com cuidados sanitários. Que ela é de rapidíssima e intensa propagação, saturando em um curto prazo os sistemas hospitalares e levando a uma mortandade elevadíssima de pessoas, idosos principalmente, mas não exclusivamente; que ela pode ser minimizada e controlada – mas não eliminada – na medida em que o isolamento social, a redução de aglomerações e o respeito a regras e cuidados sanitários são efetivamente assumidos por contingentes cada vez maiores de pessoas e estimulados pelas autoridades públicas.

O que mais vimos, constatamos e aprendemos? Primeiro, que somente a vacinação em massa poderá pôr fim aos aspectos mais nefastos do coronavírus, especialmente no que se refere aos casos moderados e graves necessitados de intervenção médica aguda, como internação, tratamento medicamentoso e ventilação mecânica (em muitas situações, pacientes apresentam problemas cardíacos sérios, noutras disfunção renal crônica, noutras ainda falência pulmonar e, finalmente, problemas neurológicos graves, quando não, nesse último caso, morte cerebral por meio da formação de trombose cerebral e acidente vascular cerebral). Segundo, que até agora a pandemia tende basicamente a se tornar mais ampla, pungente e aguda, seja pelas variações genômicas do coronavírus (já temos pelo menos três novas cepas, uma delas surgida aqui no Amazonas), seja pelo descuido institucional e social em relação ao isolamento, à contenção de aglomerações e às medidas profiláticas – veja-se, nesse sentido, tanto o caso do Amazonas e da segunda onda ali emergente, mais devastadora que a primeira, quanto o próprio caso do Brasil de um modo mais geral, que retomou o patamar de mais de mil mortes diárias nos últimos dias.

Ora, o que estamos vendo, constatando e aprendendo é exatamente o caráter explosivamente pandêmico, infeccioso e mortal do coronavírus, que não pode ser controlado em sentido estrito e que, sem medidas de contenção, isolamento e cuidados profiláticos básicos, tende a se tornar devastador de qualquer sociedade, uma máquina de moer vidas humanas sem qualquer complacência. Consoante ao título desse texto, o coronavírus representa um caminho longo, acelerado e direto rumo à catástrofe social e pessoal, ao ponto de não só percebermos a crise social aguda em que vivemos, mas também termos experienciado seja a perda de pessoas próximas a nós, seja, finalmente, a mortandade elevadíssima de nossos concidadãos.

Por isso mesmo, é cada vez menos tolerável o curto e tortuoso caminho da política partidária. Todos sabemos de longa data que ela vive de compromissos instrumentais de curto prazo – a próxima eleição, o apoio parlamentar majoritário, a disputa pela presidência das casas legislativas, a visibilidade social imediata, o impacto de curto prazo das ações político-administrativas etc. – e, portanto, que está disposta seja a acordos e práticas espúrios, seja, finalmente, a evitar ações supostamente “impopulares”, de olho na próxima eleição.

Ademais, todos sabemos e temos experienciado desde longa data o enorme poder de amalgamento produzido pelo populismo, e nem sempre de forma positiva, de modo que autoridades políticas, capazes de gerar, fomentar e conduzir multidões até à morte se preciso for (veja-se, por exemplo, a atitude do felizmente agora ex-presidente Donald Trump em incentivar a invasão do Capitólio, com saldo de seis mortos) e de se utilizar de argumentos fraudulentos, do fanatismo e do fundamentalismo religioso e, finalmente, de uma postura de simplificação da realidade, acabam assumindo e gerando uma condição desestabilizadora, desagregadora e destrutiva das instituições e da vida coletiva.

A política partidária tem em geral insistido em uma atitude de curto prazo e tem assumido uma postura gerencial e orientadora bastante tortuosa em termos de gestão pública, a qual generaliza a guerra política fratricida dentro das instituições e na própria sociedade civil, lançando mão, para isso, de atitudes simplificadoras, de valores antidemocráticos e de ações anticientíficas drásticas, as quais, se já são destrutivas em um contexto de normalidade social e institucional mínima, são potenciadas ao extremo em seus efeitos negativos dentro de um contexto explosivo próprio à pandemia do coronavírus. Isso, de todo modo, não pode mais continuar; é preciso em todos os momentos, e especialmente no contexto da pandemia mortal do coronavírus, estabilidade institucional, trabalho conjugado entre poderes e, como base de tudo isso, um embasamento científico sólido capaz de orientar o trabalho gerencial e administrativo das instituições públicas.

No mesmo diapasão, o fundamentalismo religioso, a simplificação dualista-maniqueísta da realidade e o populismo negacionista e desagregador precisam ser eliminados de uma vez por todas da vida política e do trabalho exercido por nossos gestores. É insuportável e intolerável gestores que, ao estilo do presidente Jair Messias Bolsonaro, deslegitimem seja a construção de uma ação coletiva sólida e imbricada, seja o protagonismo científico, seja, finalmente, o trabalho de isolamento e de contenção sociais e a utilização de medidas profiláticas básicos para o refreamento do coronavírus.

O presidente tem apelado ao fundamentalismo religioso como chave interpretativa da nossa democracia pluralista e universalista constituída como um Estado democrático de direito; tem assumido uma perspectiva negacionista em relação ao potencial destrutivo do vírus e apelado seja para remédios sem prognose científica estabelecida, seja para uma imunidade de rebanho por meio da exposição direta e aberta ao vírus que, mais uma vez, não tem comprovação e nem respaldo científicos, nenhuma comprovação e nenhum respaldo científicos; tem sabotado, com palavras e exemplos, o trabalho de estados e municípios, recusando assumir protagonismo efetivo no combate ao coronavírus; tem estimulado o desrespeito social ao isolamento e à utilização de cuidados profiláticos; tem desrespeitado a China e, nesse caso, quase inviabilizado a parceria entre ela e o Instituto Butantan no que se refere à fabricação da Coronavac.

Em suma, Jair Messias Bolsonaro tem usado do seu cargo como presidente da República para destruir qualquer possibilidade de protagonismo público-político em termos de tematização, enfrentamento e resolução da crise sanitária, institucional e socioeconômica causada pelo coronavírus. E, a partir de seu exemplo, muitas lideranças políticas e grande parte da população tem entrado nessa onda imbecilizante de que há que se prosseguir com a vida como se não existisse o vírus, como se ele não fosse mortal. Obviamente, a diferença entre Jair Messias Bolsonaro e um pobretão qualquer é bem mais básica do que o cargo que ambos ocupam: o presidente pode pagar – nós podemos pagar para ele – os melhores hospitais e os tratamentos mais modernos; o pobretão morrerá em casa ou no corredor de algum hospital por falta de unidades de terapia intensiva ou, caos absoluto, por falta de oxigênio industrial.

Conforme meu argumento acima, que serve de título a este artigo, a pandemia do coronavírus possui um caminho longo, direto e mortal de desenvolvimento, que tende basicamente a se intensificar ao longo do tempo; e a política partidária possui um funcionamento de curto prazo e tortuoso, calcado na estupidez e na simplificação do “momento”, isto é, do interesse político-partidário imediato em termos de hegemonia a qualquer custo. Ora, a pandemia do coronavírus somente poderá ser enfrentada se a própria política partidária assumir exatamente essa orientação longa, direta e incisiva que possa equiparar-se ao modo de funcionamento da pandemia, a qual tem essa dinâmica de longo prazo, de infecção, de morte e de esgotamento estrutural de hospitais cada vez mais intensificada e ascendente.

Por isso mesmo, as administrações públicas precisarão superar sua simplificação da realidade, seu fundamentalismo religioso tacanho e sua atuação instrumental pelo tratamento e pela orientação científicos do problema; precisarão abandonar sua inação, sua teimosia em flertar com o caos e sua sabotagem do trabalho sério e incisivo e, com isso, estimular, encampar e realizar um plano de trabalho conjunto entre governo federal, estados e municípios, demarcado pela contenção, pelo isolamento e pelo fomento de cuidados profiláticos (máscaras, luvas e álcool gel). Obviamente, creio que Jair Messias Bolsonaro não possa reorientar sua ação nesses termos, uma vez sua incapacidade gerencial, seu fundamentalismo religioso simplificador e sua postura negacionista e anticientífica destrutiva estarem e restarem consolidados. Nestas horas, lideranças políticas comprometidas com as instituições públicas, com a ciência e com o real enfrentamento da pandemia passam para primeiro plano e devem receber todo o protagonismo e todo o apoio de cada um de nós. É nesse sentido, inclusive, que João Dória Júnior, governador de São Paulo, se torna uma referência básica – embora, claro, não a única – de modelo de gestor público que, em uma crise tão grave, porta-se com institucionalidade, inteligência e sensibilidade, representando um contraponto salutar ao presidente inepto e inapto, ao presidente que recusa protagonismo e sabota sempre que pode. Ponto para Doria, ponto para a sociedade brasileira.


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