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Crônica de fim de semana: A miséria, mãe da violência humana - por Arimar Souza de Sá

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA:

A MISÉRIA, MÃE DA VIOLÊNCIA HUMANA
– por Arimar Souza de Sá

Os dias atuais não têm sido fáceis. Estamos numa quadra de perplexidade ante o aumento indiscriminado da violência nos centros urbanos. Dir-se-ia: Um momento “putrificado” de horror.

E como a violência é gerada entre seres humanos, não existe outra fórmula para mitigá-la, senão com o aprofundamento de estudos que possam identificar o eixo criminológico, e aí programar-se o Estado para enfrentar o impasse, antes, é claro, que se estabeleça o estágio de guerra civil.

Na minha concepção, a questão está situada no sítio de exaustão dos miseráveis do mundo, discordantes dos privilégios de uns e do abandono em massa da população, posto que, na verdade, ninguém gostaria de ser bandido. A “eleição” dá-se pela inglória de ter nascido pobre num país onde abundam tantas riquezas.

Na verdade, ser bandido cresta o espírito, tornando a alma submissa aos solavancos da sordidez torpe da ganância e demais deleitações criminosas.

Neste diapasão, os desgraçados, os desvalidos, exaustos de serem meros assistentes apenas da riqueza alheia, que se ostenta através dos meios de comunicação, abraçaram uma nova forma de sentir e viver o mundo, matando os próprios semelhantes ou roubando-lhes impiedosamente os seus “tesouros”.

Por que então falar-se de riqueza e pobreza ao mesmo tempo? Simples. Porque a violência “entesoura-se” entre o ter e o não ter acesso aos bens da vida, admitindo-se que os bens são produzidos para o consumo dos homens e não dos peixes em alto mar ou no fundo dos rios – e aí fecha-se a questão.

Graciliano Ramos, na sua magistral obra sobre a miséria, mostra, ainda na segunda metade do século passado, o nordestino, que se retira do seu sítio e no caminho come seus bichinhos de estimação, o cachorro, o papagaio e até as próprias mãos. Depois, ajoelha-se no torrão seco pedindo graças ao criador.

Mas o nordestino do sertão, naquele universo, não tinha conhecimento da riqueza do mundo. O seu mundinho era apenas as caatingas, cobertas de cactos e sombreadas pelo pó da terra esturricada, já que as árvores, de há muito, estavam mortas, rendidas pela inclemência da natureza.

Estes mesmos retirantes chegaram às cidades, ingênuos como uma vaca em pé. No início, ajudaram nas construções das catedrais dos ricos, depois foram amontoados nos guetos, nas favelas, nos vãos das ruas e, mudos, viraram vacas que não dão mais leite – e foram tocados, obedientes, para o caminho dos matadouros – e aí já não havia tempo para mais nada, nem para rezar...

Entre as duas chegadas e o tempo, medrou-se no âmago da miséria a estratégia de vingança contra os afortunados, e o fenômeno transformou-se em violência urbana, estampado em assaltos, sequestros relâmpagos, homicídios, furtos, roubos, latrocínios. Dir-se-ia, os homens transformados em infectantes bactérias criminais, e na marcha que está, possivelmente, se transformarão em guerreiros vingadores ou serão eliminados pelo capitalismo selvagem.

Distante desse “lixo”, desfrutando de uma vida de regalos, grande parte dos políticos apenas gravita na orla no poder, interessados unicamente no voto sufragado da miséria humana, importando-se pouco com a violência gerada nos antros onde nem o sol, o amor ou clemência penetram.

É de se admitir, porém, que esta situação gesta, de forma silenciosa, nos intramuros dos casebres, nos guetos e nas palafitas, um sentimento de vingança. Pura vingança. E aí...
É só esperar!

Como “politicamente” não há nada a fazer, queira Deus não chegue o dia em que organizações clandestinas deste país resolvam dar um fim ao espetáculo, saindo do seu nicho de meros assistentes da riqueza, para serem os agentes da desordem e da desgraça que se instalarão.

E então nós, homens de bem, seremos poucos, rotos e impotentes para combater a horda furiosa, que roerá nossa carne até os ossos, restando apenas sangue, suor e lágrimas.

Que Deus nos proteja disso.
É tempo de reflexão.

AMÉM!

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