RONDONOTICIAS quarta-feira, 20 de novembro de 2019 - Criado em 11/10/2001

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA - A gênese da violência urbana no Brasil - Arimar Souza de Sá

Estamos numa quadra de perplexidade e dor, ante o aumento indiscriminado da violência nos centros urbanos. .


10/11/2019 11:23:06 - Atualizado

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
A GÊNESE DA VIOLÊNCIA URBANA NO BRASIL
- Arimar Souza de Sá

Os dias atuais têm sido penosos. Estamos numa quadra de perplexidade e dor, ante o aumento indiscriminado da violência nos centros urbanos. Dir-se-ia: É um momento putrificado de horror na vida do país.

E como a violência é gerada entre seres humanos, não existe outra fórmula para mitigá-la senão com o aprofundamento de estudos que possam identificar o eixo criminológico, e aí programar-se o Estado para enfrentar o impasse, antes que se estabeleça o estádio da guerra civil.

A meu pensar e sentir, a questão está situada no sítio de exaustão dos miseráveis, discordantes dos privilégios de uns e do abandono em massa da população por parte dos homens de poder.

Na verdade, ninguém gostaria de ser bandido, a “eleição” se dá pela inglória de ter nascido pobre num país onde abundam tantas riquezas nas mãos de tão poucos.

Ser bandido, creio, é crestar o espírito, tornando a alma submissa aos solavancos da sordidez, da covardia, da torpeza e demais deleitações criminosas.

E, neste diapasão, os desgraçados, exaustos de serem meros assistentes apenas da riqueza alheia, que se ostenta via meios de comunicação, abraçaram uma nova forma de sentir e viver o mundo: matando cruelmente os próprios semelhantes e roubando-lhes seus “tesouros”.

Por que, então, falar-se de riqueza e pobreza ao mesmo tempo, quando o assunto é violência? Simplesmente porque a violência se insinua entre o ter e o não ter acesso aos bens da vida, admitindo-se que tais bens são produzidos para o consumo de todos os homens, e não de alguns e nem dos peixes em alto mar. E aí, fecha-se a questão.

Graciliano Ramos, na sua magistral obra sobre a miséria, mostra, ainda no início do século passado, o nordestino, que se retira de seu sítio e no caminho come os bichinhos de estimação – o cachorro, o papagaio, as próprias mãos e, ainda assim, ajoelha-se no torrão seco rendendo graças ao Criador.

Esse nordestino do sertão, porém, não tinha conhecimento da riqueza do mundo, o seu universo era tão somente as caatingas cobertas de cactos, sombreadas pelo pó da terra esturricada, já que as árvores, de há muito, morreram pela inclemência do sol.

Tais retirantes chegaram às grandes cidades ainda inocentes, puros e mansos como uma vaca em pé, que não dá mais leite e segue caminho para o matadouro.

No início, ajudaram nas construções das catedrais dos ricos, mas no decorrer do tempo, foram tangidos e se amontoaram nos guetos, nas favelas, nos vãos das ruas, e aí, sem ter a quem recorrer, já não sobrava ânimo nem para rezar.

Entre as suas chegadas, a opressão sofrida e o tempo, medrou-se, no âmago da miséria, a estratégia de vingança contra os afortunados.

Daí por diante, forram à desforra, e o fenômeno transformou-se em violência urbana, estampada em assaltos, sequestros-relâmpago, homicídios, feminicídios, furtos, roubos e latrocínios.

Dir-se-ia: Os homens, oprimidos e assim transformados em bactérias criminais, viram guerreiros, cruéis vingadores e não poupam ninguém. No caminho, ou serão eliminados pelas elites, mofando nos cárceres, ou receberão o epíteto de terroristas, com viéses internacionais.

De certo, este fenômeno não pertence apenas ao Brasil, é claro. Trata-se das seqüelas produzidas pela corrupção, pelo tráfico de drogas, exclusão social e desemprego.

Tal situação tem parido o resultado que está estampado na cara daqueles que “cagam” nas ruas, dormem debaixo das marquises ou vivem nos morros e guetos do Rio, se alojam nas palafitas do Maranhão e da Bahia, como ratos, farejando os monturos, e disputando com os urubus a podridão dos depósitos de lixo.

Do outro lado das “lixeiras humanas”, estão os políticos, cercados “até o talo” de seguranças armados, gravitando na orla do poder, com seus discursos prontos dizendo que o “fenômeno” da violência está na educação.

Ora bolas! Se o problema está na educação, como afirmam, quando foi que se ouviu falar que eles próprios, os políticos, se deram as mãos e, junto com os gestores das pastas da educação, segurança pública e ação social, visitaram as escolas e ouviram os alunos e diretores, a fim de programarem-se para combater o mal no próprio “nascedouro”? Pura balela.

Pelo visto, a grande maioria está interessada apenas em seus projetos pessoais de poder, e no voto sufragado da miséria de seus compatriotas, importando pouco a violência gerada nos antros, onde nem o sol nem o amor penetram.

Em suma, é de se admitir, portanto, que gesta nos intramuros dos casebres, nos guetos ou nas palafitas, um incontido sentimento de vingança e, pelo visto, é só esperar o dia em que as organizações clandestinas deste País resolverem dar um fim ao espetáculo e serem os agentes da desordem que agora se instalará de vez...

E, no fogo que se propagará no cabaré, os novos ditadores da ordem tomarão conta das ruas, e haverá sangue e o último que sobrar não terá tempo nem para apagar a luz ao sair.

Que Deus tenha piedade de nós.

AMÉM



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