RONDONOTICIAS sábado, 30 de maio de 2020 - Criado em 11/10/2001

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA - SALVE AS TRANSPORTADORAS NOS CÉUS DO BRASIL -Arimar Souza de Sá


Publicada em: 12/01/2020 11:23:39 - Atualizado

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
SALVE AS TRANSPORTADORAS NOS CÉUS DO BRASIL
-Arimar Souza de Sá

Quando viajo de avião, tenho que admitir: dá aquele friozinho na barriga. É que não nascemos com asas e, no trajeto, mesmo sem conhecê-lo, entregamos cegamente a nossa vida, nossos sonhos, sorte e destino aos que têm as aeronaves sob seu comando.

No voo, tem uns que dormem logo, outros que ficam mudos, de olhos vidrados na janelinha, olhando para o infinito, e alguns ficam falantes, para disfarçar o nervosismo... Cada um no seu silêncio, e à sua maneira, vai destilando medo pelos poros, sem querer demonstrar.

Há, ainda, os que rezam e se contorcem ao sentir quaisquer solavancos, sem contar aqueles que remetem suas orações a todos os santos ou ao mais camarada. Se for nordestino – oxente! – é claro que o “cabra” dirige suas orações a “Padim Ciço Rumão Batista” , enquanto o “passarinho”, cortando o vento e singrando horizontes, vai riscando tranquilo o firmamento.

Apesar de, ao longo da vida, eu já ter realizado várias viagens, o momento sempre é de tensão, principalmente quando a comissária de bordo orienta sobre as medidas de segurança em caso de acidente: “Esta aeronave possui seis saídas de emergência (...); em caso de despressurização da cabine, máscaras cairão automaticamente; puxe a mais próxima, coloque-a sobre o nariz e a boca e observe os avisos de atar cintos e não fumar...”, e por aí vai... Em caso de aterrissagem no mar o assento sob suas poltronas é flutuante, siga rigorosamente a orientação dos comissários”.

E com a suavidade de quem está sempre perto do céu, a comissária finaliza sua fala – “tenham todos uma boa viagem”, fazendo crer que ela não está na aeronave. E quando tudo parece estar tranquilo, em “céu de brigadeiro”, eis que o engraçadinho do piloto fala ao microfone: “Estamos a dez mil pés. Atenção, senhores passageiros, passaremos por nuvens carregadas e haverá trepidações, apertem os cintos e mantenham-se nos seus lugares”. É a liturgia dos opostos – tranquilidade e pânico – se misturando. O melhor que se faz, então, é relaxar e dormir. Seja o que Deus quiser!

Ato contínuo, uma senhorinha que vai ao seu lado, com uma vozinha meio macabra, pergunta curiosa: quanto mede um pé? O silêncio reina, e a ignorância neutraliza a resposta. Alguém pede água, já que as companhias não servem mais nada além dela durante o voo.

Pouco depois, com o avião já estabilizado, surge o piloto e com um largo sorriso, “ele” se apresenta: “Com sua licença, sou a comandante Cíntia Lanhozo, desejo passar-lhes algumas informações sobre a viagem. “Nosso tempo de voo estimado até Brasília é de duas horas e trinta minutos”. Na capital federal o tempo é bom e a temperatura está na casa dos 24 graus. Mais tarde eu retorno e atualizo as informações”.

Neste momento o passageiro ao meu lado diz incrédulo ao meu ouvido: “Pô”, uma mulher dirigindo um bicho desse tamanho?! E, mal eu comecei a cochilar, lá se vem o chato de novo: “é mesmo uma mulher que está no comando do avião? ”.

Durante o voo, pude perceber que meu companheiro estava realmente com medo, que aumentou quando alguns se despiram da túnica do machismo e sentiram a força da mulher no comando daquela travessia dos nossos destinos. Simples assim.

O processo atávico nos transporta para o antigo adágio popular: a mulher é o sexo frágil? Para mim é o sexo forte e merecedora de todas as suas conquistas, sobretudo na aviação. Por dentro, aplaudi com entusiasmo.

E aí me pus a imaginar por que, às vezes, o machismo e a misoginia fazem com que alguns homens não acreditem nas mulheres, como nesta que, magistralmente, está guiando este avião até meu destino, a Capital Federal?

Ora, quando Deus nos colocou na aeronave finita da vida, foi no útero de uma mulher, e foi num campo sem luz e sem o brilho do sol, que ela nos transportou e nos fez chegar até aqui com segurança. Como insigne comandante, ela nos acolhe com os braços abertos e, com um largo sorriso, nos aproxima de seu corpo e fala, pelo olhar, a linguagem dos anjos cimentada de amor.

São as mulheres que nos embalam, quando chegamos nesta fantástica viagem da vida. E, quando “criamos asas” e voamos, são elas que choram na hora da partida, mas têm força para resistir e ainda nos consolar quando, por algum desses percalços do destino, precisamos de um colo...

A essa intrépida mulher do nosso tempo, a comandante Cíntia, que se junta aos homens neste comando fantástico do espaço aéreo, colocando sob sua autoridade uma máquina de 80,5 toneladas, fora o peso dos passageiros, merece a minha saudação.

Na configuração eterna das cores, no espaço voam como passarinhos, negros, brancos, amarelos. Negras, brancas, mulatas ou orientais, as mulheres também se aventuram no céu.

De acordo com ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil, 1.465 brasileiras conduzem aviões e helicópteros, sendo 63 delas pilotos de linhas aéreas, 495 de voos comerciais e 907 de voos privados. Uma conquista e tanto!

Assim, sem susto nem desconfiança, “macharada”! – vamos aplaudir a jovem comandante Cíntia Lanhozo, do vôo 3595 da LATAM que, como os pássaros, voa com firmeza e segurança nos céus do País e aterrissam com suavidade no solo brasiliense.

E que o timão de Deus, incorporado aos seus braços e mentes, as fortaleçam cada vez mais, nessa missão de transportar vidas e nos conduzir aos nossos destinos, para inveja dos “maxos” com X que, por uma vã ignorância, nem percebem que um avião, sob o comando de uma mulher, voa com mais cuidado, com mais segurança e tranquilidade, e a dez mil pés, o medo até aparece, mas depois se encolhe para, na aterrissagem, pulular de alegria.

Reverências à comandante Cintia Lanhozo e sua tripulação.

Amém.



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