15/07/2017 18:18:10 - Atualizado em 17/07/2017 08:31:43

CRÔNICA: Os meninos de rua e os carros riscados - Por Arimar Souza de Sá

OS MENINOS DE RUA E OS CARROS RISCADOS

QUEM SERÁ A PRÓXIMA VITIMA?

Por Arimar Souza de Sá

- “TIO PODE* CUIDAR DO SEU CARRO”?

Quem ainda não ouviu ou foi tentado a dizer NÃAAO, diante de um apelo desta natureza? Mas o que fazer nesta hora?

Responder SIM e correr o risco do risco? Ou dizer NÃAAO e por isso mesmo entregar o carro de “mão beijada” para servir de cobaia às frustrações desses moleques.

Resultado: No cotidiano de Porto Velho ficou cada vez mais difícil deparar-se com um automóvel, sem que nele esteja impresso o selo da violência urbana traduzida em riscos...

No País do Faz de Contas as coisas parecem ser sempre assim: Mulheres descuidadas e de hormônios provocadores parem cedo, os pais “arribam” e os meninos, depois de desmamados, ganham as ruas. Nas ruas, atesta a burguesia: são os párias sociais, a quinta classe, o lixo humano travestido de gente.

Maltrapilhos e famintos, eles formam um bloco de resistência informal, e se espraiam nos sinais de trânsito, nas portas dos restaurantes, nas beiras das lixeiras, nos estacionamentos e por todos os recantos deste país continental.

Sem voz, cara, nome, espaço e destino, aprendem rápido “a lei da selva” para sobreviver, enfrentando a todo o momento implacável reação social que, na maioria das vezes, é de pura repugnância..

Com trajetória marcada por traumas, assim, além de penúria, violência e rompimentos, os meninos vão à luta com suas próprias armas, no império do desconforto de um “mundo cão”, perverso, que lhes mostra na TV propagandas de iguarias, roupas, carros e telefones celulares de última geração mas lhe cerceia o direito de possuí-los como todo mundo.

De arma em punho, então, desfilam nem sempre sorrateiros e se “esforçam para acompanhar a moda adquirindo esses bens na base da força, do tiro e do grito.

No jogo da vida e diante da alta vulnerabilidade social de que estão sujeitos, as saídas que se lhes impõem têm sido sempre as mesmas: pedir, cheirar cola, drogar-se, dormir pequenos sonos e fugir da polícia, tudo com direito a safanões, bofetões, pauladas, ou por vezes, em plena adolescência, agasalhando no corpo os estilhaços perdidos vindos de um vazio qualquer.

Quando a barriga ronca, cercam as portas dos restaurantes na briga diária pelos restos de comida, e ainda esboçam sorrisos para agradecer quando encontram alguém de coração benevolente que os atende.

No geral, forjam sempre suas existências nos ensaios do caldeirão do opróbrio humano, fazendo malabarismo nos sinais de trânsito para enrolar o dia e arranjar alguns “trocadinhos” para ir levando a vida do jeito que Deus deixa.

Não obstante, em pouco tempo dessa convivência discrepante, os meninos estão formados, prontos. Antes, vítimas da sociedade, mas agora, agressores desta sem a menor dimensão de calcular o risco de suas ações. Daí por diante, nada mais lhes importa, nem mesmo o pavor que oferecem e correm, com o conflito inexorável dos artigos e incisos do Código Penal.

No centro nervoso da Sete Setembro, Jatuarana ou da Amador dos Reis, riscar carros é sinônimo de rebeldia aplaudida por eles próprios e reclamada e até chorada pelos donos dos veículos, como há algum tempo presenciei uma senhora de meia idade se debulhando em lágrimas diante do infortúnio.

Vaticinar para onde vamos, na capital de Rondônia, é tarefa para os santos da terra santa, ou para adivinhadores da sorte ou do azar alheio. Providências para debelar o mal se vêem espasmos dos Poderes, porque o que brilha mesmo é o triunfo do improviso, do empurra com a barriga, na incompreensível eleição do processo curativo, antes do preventivo.

Mas, o portovelhense cansado desses nojentos e manjados expedientes, está na “grita”, pede e espera um fôlego suplementar que lhe sirva de suporte ao açoite de tanta violência: de menores assim, na ruas, riscando carros, do desemprego que lastrou, da corrupção no serviço público, da fome que fulmina, dar dor que faz folia no trânsito, nos hospitais de Base e João Paulo II...

Do medo generalizado e do terror urbano traduzido na ação de marginais audaciosos que, volta e meia, atacam de forma impiedosa os bairros mais distantes e carentes da cidade.

Ninguém é claro, se torna um “urso social” sem antes, no entanto, ter sido esquecido pela própria sociedade. Quem esgrime um revólver, uma faca ou estilete aleatoriamente, é aquele a quem quase sempre a vida não lhe deu a oportunidade de ter um lápis nas mãos e a chance de escrever a palavra ESPERANÇA.

A violência sobre os carros nada mais é do que a radiografia do horror urbano, ou, subproduto trágico da indiferença humana. O que se sabe, o que se ouve, o que se vê, é que o ódio sempre atrai ódio na proporção dos opostos, na constância de nossos próprios vícios e indiferenças.

E o nosso carro riscado, significa um recado das almas feridas das ruas, pelo pesado ônus que o destinos lhes impôs traduzido num lance de pura rebeldia, contra as mazelas de uma sociedade sem alma que os esqueceu.

E o pior, é que até agora, a despeito da constância desses atos, não se estabeleceu uma forma plausível de como lidar com o camarada ofensor da pintura do carro, quando pego em flagrante, senão demonstrando o desconforto com o uso da força para puni-lo com o rigor requerido pelo ódio de ver danificado um bem conquistado com tanto esforço e renúncia.

De qualquer sorte, creio que não existam também outros cuidados específicos ou locais estratégicos para estacionar o veículo que nos deem o certificado de garantia de que ali, em plena luz do sol, o bem esteja incólume aos riscos dos meninos, e ao próprio furto. E a situação vai ficando dramática.

Neste caso, o senso comum recomenda três regrinhas básicas da lenda popular: sorte, prudência e caldo de galinha. Ah!, acrescente também reza, da “braba”, para que no plagio de uma antiga novela da telinha, você não venha a ser a Próxima Vítima...

Porque a vítima de ontem... Infelizmente, fui EU.

fonte: Rondonoticias

comentar

comments powered by Disqus

Ultimas Notícias