RONDONOTICIAS quarta-feira, 26 de setembro de 2018 - Criado em 11/10/2001

Retalhos e materiais naturais ganham espaço em artigos para casa e decoração

Hoje, nas feiras internacionais, há estandes inteiros dedicados a produtos naturais


Notícias ao Minuto

21/08/2018 11:04:05 - Atualizado

O consumidor está mais interessado em saber a origem do que come, bebe, veste e usa, no corpo e na casa. Para contemplar essa tendência, uma das maiores feiras de objetos para casa destinados a lojistas e hotéis do Brasil inclui em seu cardápio mais produtos com componentes sustentáveis.

Cecilia Rima é uma das criadoras da feira Abup (Associação Brasileira das Empresas de Utilidades e Presentes), que tem sua 37ª edição de 15 a 19 de agosto em São Paulo. Ele garimpa objetos há 20 anos em fornecedores na China, na Índia e no Vietnã. "Há 4 ou 5 anos, eu não via a preocupação com sustentáveis em meus clientes. Hoje, nas feiras internacionais, há estandes inteiros dedicados a esses produtos", diz.

"Não é só uma moda, e sim consciência de uma nova forma de consumir: menos e de maneira mais racional. As pessoas querem saber mais sobre o caminho do produto, como ele foi feito", afirma.

"Meu próprio foco como compradora foi mudando. Buscava artigos com bons preços e que tivessem mercado garantido para revender. Com o tema da sustentabilidade mais presente, comecei a procurar artesanato original dentro do Brasil e com isso conhecer e valorizar o trabalho de comunidades de artesãos", relata. "Tem sido um novo aprendizado. O artesão vive e cria seus filhos na região onde produz."

"Sua preocupação com o meio ambiente é diferente da nossa. Para ele, a proteção da natureza é vital", diz.

Mirando neste mercado de objetos que são produzidos por comunidades de artesãos, gerando emprego e renda locais, Cecilia se prepara para lançar uma nova marca, a Rima Casa, na feira High Design, nos dias 28, 29 e 30 de agosto. Artesanato feito com piaçava, látex, retalhos de jeans e couro fazem parte do lançamento.

Marco Pulchério, que atua há 25 anos na agência comercial Marco 500 e hoje representa 32 iniciativas de designers e artesãos, leva para esta edição da Abup alguns produtos que têm produção sustentável, como os itens em retalhos de couro de Jacqueline Chiabay.

"Aumentou a procura por peças únicas, com história, e itens naturais, sem revestimento, sem sintéticos", afirma. Pulchério orienta os artistas que representa a valorizarem a história de suas produções na comunicação com os clientes. Mas acha que são ainda poucos os consumidores que estão ligados na origem dos produtos. "No mercado da decoração, vêm em primeiro lugar o ineditismo, a surpresa e o preço."

RETALHOS DOS RETALHOS

A artesã decidiu, há 20 anos, produzir algo com as aparas de couro que sobravam das roupas que costurava. Começou fazendo tiras e com elas tecendo peças. O negócio das aparas foi dando certo e ela passou a comprar retalhos de outros fabricantes, para fazer almofadas, bolsas, banquetas, e itens de decoração.

Em meados dos anos 1990, fincou seu ateliê na região de Viana, no Espírito Santo, e arregimenta trabalhadoras donas de casa e agricultoras para dar conta de grandes encomendas. A equipe fixa tem 5 pessoas, mas em períodos de alta produção pode chegar a 150 envolvidas.

Jacqueline não vende gato por lebre. "O descarte do couro é problemático, pois em seu processo de fabricação é usado o cromo, poluente e tóxico. Nossa produção é sustentável por dar uma segunda vida, ou mais duração, a um material que já estava produzido, mas não é ecológica."

O preço final é uma vantagem para o consumidor. Enquanto uma bolsa feita de retalhos sai por R$ 300,00, o mesmo modelo em couro integral pode chegar a R$ 700,00.

Foi durante um programa desenvolvido pelo Sebrae local que Jacqueline teve um segundo estalo: pegar os retalhos de seus retalhos e dar a eles também uma finalidade. Assim começou o projeto Novas Marias, que levou o artesanato para dentro de penitenciárias femininas.

Jacqueline criou uma técnica de corte de peças pequenas que ela chama da lantejoulas de couro. Instrui as detentas a fazer os cortes, que serão usadas como adereços nas peças que ela produz no ateliê.

O projeto já passou pelo presídio feminino de Tucum, na Grande Vitória, de 2008 a 2010, pela penitenciária feminina de Cariacica, de 2010 a 2014, pelo centro de detenção provisório feminino de Viana, de 2014 a 2017. O centro de detenção masculino de Vila Velha 3 também se encarrega de dar suporte ao projeto, produzindo a parte de marcenaria de bancos e banquetas que recebem as almofadas feitas com aparas.

"Acho que tivemos nos últimos anos um avanço na valorização do trabalho artesanal", diz. Por isso, em seus produtos, usa etiquetas que contam toda a história da produção.

COLORIDO NATURAL

Do sertão da Paraíba vêm os produtos da Santa Luzia, empresa que Armando Dantas formou em 1986 e que terá estande na feira. Atualmente são três linhas de produtos: com material reciclado, com algodão natural e com algodão natural e orgânico.

Nos primeiros dez anos, para fazer redes de dormir, jogos americanos, roupa de cama, mantas, almofadas e cortinas eram usados algodão cru e empregados corantes e alvejantes. No final do processo, esses líquidos de lavagem dos produtos eram descartados diretamente no esgoto.

Há cerca de 20 anos, quando começaram a aparecer os fios reciclados de polyester de PET no Brasil, vindos da China, Dantas mudou a forma de trabalhar e incorporou-os em sua produção. Não foi somente pela sustentabilidade, por parar de poluir, mas também pela praticidade e preço final mais atraente.

Para fazer a linha que emprega reciclados, são usados fios feitos da junção de fibras provenientes de retalhos de roupas prontas e do polyester de PET. Como a cor já vem dos retalhos, não é necessário tingir os tecidos.

"Hoje a palavra reciclado é chave. Chama a atenção. Quando começamos a usar, as confecções pagavam para que retirássemos seus retalhos. Hoje elas já vêm valor nos resíduos, separam por cor e os desfibram, para que possam ser trabalhados na montagem de fios de fibra mais longa, para confecções", conta.

Dantas também revende os fios de polyester da China e diz que o mercado têm crescido muito. '80% das minhas vendas são de redes que usam essa matéria prima. O preço final dos produtos justifica -as redes de materiais reciclados vão de R$ 45 a R$ 400 e as de algodão orgânico vão de R$ 90 a R$ 500. A produção de reciclados é a maior. Foram 35 toneladas de produtos em 2017, contra 22 toneladas em 2016.

O preço mais caro do orgânico -3 vezes o preço do reciclado- é o necessário para "manter remuneração justa" para as 32 famílias de agricultores assentados em uma área de 40 hectares cuidando da produção, toda manual. Embora em menor quantidade, também crescem as vendas de algodão natural e de orgânico. Em 2016, foram 11 toneladas e, em 2017, 16 toneladas.

O uso do algodão colorido orgânico tem também outra vantagem. Ele já nasce com nuances do bege ao marrom. Com isso, o processo de tecelagem economiza 87% no consumo de água comparado à produção convencional com tingimento químico.

"O consumidor está mais consciente. Tem gente que, ao ouvir a nossa história, já decide comprar. Em 2 anos, o nosso algodão vai ganhar o mundo", diz Dantas.

"Objetos com significado são mais guardados", diz a crítica e curadora Adélia Borges. Para ela, o interesse pelos sustentáveis começou há muito tempo fora do Brasil e vem crescendo internamente.

Ela pode ver esse movimento através de uma amostragem. Há dois anos, Adélia faz curadoria da loja do Museu de Arte de São Paulo (Masp), e tem três linhas de produtos: produtos feitos por designers em cooperação com artesãos, produtos feitos por comunidades de artesãos e artesanato indígena.

"Lá você não encontra gadgets como os que são vendidos em outras lojas de museus. A loja tem premissas diferentes. Pautamos nossas escolhas pela sustentabilidade ambiental e social, aliada ao caráter estético, ao preço bom e à alguma continuidade de produção para atender ao mercado", diz.

"Colocamos etiquetas explicando de onde vêm os produtos, quem os fabrica, onde. Não tenho dúvidas de que as pessoas se interessam pela história. Prova disso é que a loja é um sucesso comercial", afirma.


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