RONDONOTICIAS quarta-feira, 3 de março de 2021 - Criado em 11/10/2001

Planejamento institucional e resolução de crises: o que podemos aprender com a pan-demia do COVID-19


Por Leno Danner

16/01/2021 13:54:48 - Atualizado

A pandemia do coronavírus representa um exemplo drástico de como o protagonismo e o planejamento institucionais em relação aos nossos problemas e mesmo no que se refere às potencialidades sociais que apresentamos como país se tornam fundamentais para evoluirmos com estabilidade, autoconsciência e auto-organização. É um exemplo drástico porque vidas são salvas pela racionalidade administrativa, pelo compromisso social e pela seriedade política de nossas instituições e de nossos gestores, que sabem compreender (cientificamente), organizar-se (gerencialmente) e vincular-se (politicamente) por meio de diagnósticos e em termos de planejamento de médio e longo prazos. Ao contrário, na falta desse protagonismo institucional, estamos fadados ao caos social, seja em termos de inação pública (ou, no caso do presidente Jair Messias Bolsonaro, de incentivo ao desrespeito social, de sabotagem contra o trabalho de estados e municípios), seja em termos de falta de instrumentos básicos ou de um planejamento de vacinação em massa, seja, finalmente, na naturalização e na normalização das mortes que estamos vivenciando.

É nessas horas que todos clamamos com mais força pelo Estado, pelas instituições públicas, exigindo que cumpram com sua missão de estabilizar a vida social, de resolver nossas crises e nossos problemas cotidianos. É nestas horas de desespero que nos damos conta de como simplesmente não temos como prosperar – e nesse caso sobreviver – sem o investimento, o protagonismo e o planejamento públicos. Esse ponto é muito importante a uma democracia que se autorreflexiviza, autocontrola e autocorrige por meio de suas instituições públicas e em termos de uma ação política consistente concertada entre sujeitos institucionalizados e sujeitos sociopolíticos informais.

Mas não precisamos esperar as tragédias sociais para assumirmos e exigirmos esse papel proativo das instituições públicas e nem para nos darmos conta da qualidade gerencial e moral de nossas lideranças políticas. Esse é nosso objetivo permanente e pungente, ou seja, fiscalizar o trabalho institucional, exigir compromisso e responsabilidade com os valores democráticos, avaliar a capacidade de trabalho e o comprometimento político de nossas lideranças e partidos políticos e, finalmente, apontar para a constituição de políticas públicas que possam garantir desenvolvimento, inclusão e justiça.

Note-se esse ponto: não precisamos e não podemos esperar pelas tragédias para, no desespero, clamar publicamente pela política, pelos políticos, pelas instituições públicas. Também não precisamos e não podemos esperar pelas crises para nos darmos conta de que a política, os políticos e as instituições públicas são fundamentais para a organização, o gerenciamento e a estabilização de uma democracia. Obviamente podemos fazê-lo nestes momentos, mas também somos plenamente capazes, como coletividade plural e como consciência político-moral individualizada, de nos adiantarmos a situações como essas e, então, escolhermos de modo consistente, fiscalizarmos de modo mais incisivo e participarmos de modo mais corriqueiro da prática política, a começar por discussões sérias sobre ela.

Por exemplo, conhecíamos o atual presidente Jair Messias Bolsonaro desde longa data e já sabíamos de antemão da sua incapacidade gerencial, da sua falta de inteligência e da ausência de empatia com a dor alheia. Já sabíamos de antemão que seu palavreado era oco e falso, quase como o de um psicopata; e também já sabíamos que sua conversa se centrava basicamente em castração química, liberação de armas e fundamentalismo religioso – ele mesmo já criou um bordão básico para defini-lo, ou seja, “sou péssimo líder político e gestor público, mas não sou corrupto”. Bem, estamos pagando a conta da tragédia sanitária, social, econômica e institucional do patrão e amigo do Queiroz: crise institucional sem fim, descontrole amplo em relação à pandemia do coronavírus e, finalmente, ausência de projeto de retomada do crescimento. Esse é um exemplo, entre tantos outros, que nos apontam mais uma vez para a necessidade de aprendermos sobre política, de vivenciarmos a política no nosso dia a dia, para além do consumismo barato e da fuga da realidade cotidiana que vivenciamos de modo cada vez mais pungente no Brasil hodierno.


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