RONDONOTICIAS quarta-feira, 26 de setembro de 2018 - Criado em 11/10/2001

Crônica de fim de semana - Porto Velho, uma cidade sem alma - Arimar Souza de Sá


09/09/2018 11:25:03 - Atualizado

Porto Velho, uma cidade sem alma - Por Arimar Souza de Sá

Poderíamos chamá-la de cidade sol, ante a beleza do alvorecer por múltiplos reflexos coloridos sobre as águas do caudaloso Madeira, nosso rio infante na nomenclatura dos rios, belíssimo, de cachoeiras desde o nascimento, quando se unem o Beni e o Mamoré, ambos rios bolivianos, mas que falam, também, a nossa língua, na liturgia das águas.

“Poderíamos” – se empregado, com eficiência, o futuro do pretérito. Mas não é bem assim! A cidade vive em ruínas. Ela, a namorada querida dos filhos natos ou adotivos, virou enteada nas mãos dos que a governaram nos últimos tempos.

Ostenta a condição de capital do Estado, mas sem infraestrutura que a justifique. Os seus vestidos de baile são de chita, e chita velha, comprada em brechós clandestinos a preço de banana – muito madura...

Os alienígenas, nós os recebemos de braços abertos, como fizeram os índios na época do descobrimento do Brasil, mas boa parte deles não veio transportando suas almas. Trouxeram os corpos, mas elas, as almas, deixaram-nas nos pousos onde nasceram, e assim, sem a confraria do corpo e da alma, não há amor que resista – o sentimento substantivo dos homens.

Por isso, os que ocupam os altos postos são como as andorinhas que voam do Canadá aos lençóis maranhenses – não se quedam aqui, vêm para a desova, por vezes bicam ali e acolá, mas jamais construirão suas catedrais por essas bandas de cá.

Em decorrência, não tratam a cidade com o amor de alma, com amor de amor, deixando-a à mercê dos ventos e das tempestades. Aliás, nesse foco, a cidade não aguenta uma chuva forte. Quinze minutos de chuvarada, a desmoraliza, tudo vira o caos revivendo dor, e isso tem afugentado as pessoas.

Qualquer investidor que se deslocar para a velha Porto Velho, indagará: a cidade tem esgoto, tem um Porto organizado para armazenagem de produtos, plataforma para embarque e desembarque, tem uma rodoviária decente, tem hospitais de referência, os logradouros públicos são razoáveis e limpos? Há um plano perene de limpeza pública?

Não, não há! E sabe por quê? Porque o investidor é gente que se desloca de outros lugares com civilização garantida, para implantar o seu negócio, e geralmente tem família – e como então se instalar num lugar onde o esgoto é a céu aberto, não há praças e parques para as crianças e o lixo se acumula nas ruas sem conta das autoridades do setor, como é o caso de Porto Velho?

Tudo, entendam, não é culpa do administrador de plantão, a culpa deve ser de sua alma, que ficou pregada na terra em que ele nasceu.

Se o gestor municipal tivesse nascido aqui, por certo ele cuidaria melhor da cidade, como em campanha pediu ao seu povo, posto que a alma colada ao corpo é que nos cobra higiene, transporte público de qualidade, saúde para os pobres, limpeza das praças, consertos dos asfaltos e meio fio, esgoto, sinalização das ruas etc...

E, por vezes, fico a imaginar: “O que se passa na cabeça de certas pessoas”? Será que quando a gente é de longe e vem governar outro lugar, viramos coruja, que não pia e nem tem alma, e só espiamos pela vidraça do gabinete, isto é, da janela do corpo que, cercada de bajuladores, não nos permite enxergar nem mesmo o sol ao entardecer?

Por isso e bem por isso, não canso de fazer referência ao Standard de governo, totalmente diferenciado, do inesquecível Teixeirão. Quando ele aportou por aqui, veio de Manaus e trouxe pouca bagagem, mas dentro da maleta de mão, creio, veio a sua alma, por isso, nós filhos de Rondônia o amamos tanto para dizer: no teu tempo, coronel, Porto Velho perfumou-se de amor e de esperança, ao contrário de hoje.

É imperioso lembrar que, na pressa de progresso e saga da ocupação, outras cidades reivindicaram a sede da capital, mas o velho comandante sempre abria sua maleta e sua alma e dizia a si mesmo: “meu pouso é aqui”, porque o velho amava Porto Velho.

Quando ele acordava, sempre às 5 horas da manhã, punha-se ao largo para deixar sua alma viver a implantação do Estado, e Porto Velho, imagino, deveria ser linda na dimensão de seu sol.

Pena que os que vieram depois, sem alma, deixaram que sepultassem seu corpo no Rio de Janeiro, em vez de trazê-lo para os cemitérios da capital para zelar por nós.

Enfim, sem a alma aqui, só o corpo, a cidade continuará feiosa, sem respeito, com cheiro de estrume, posto que sem “água”, de há muito as rosas já murcharam em nossos jardins.

Salve o sol da esperança, quando houver sol. 

AMÉM!

Arimar Souza de Sá


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