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    porto velho, segunda-feira 5 de outubro de 2026

O pragmatismo venceu?


Por Walterlinna B Brasil

05/10/2026 17:47:15 - Atualizado

Os resultados das eleições de 4 de outubro ainda estão sendo interpretados. Vinte estados escolheram seus governadores no primeiro turno, o maior número desde o início da série histórica, em 1990. Em São Paulo, o governador foi reeleito com mais de 62% dos votos válidos. Em diferentes regiões do país, candidatos de orientações políticas distintas também alcançaram vitórias expressivas. Para a Presidência da República, entretanto, a decisão foi adiada para o segundo turno.

Seria precipitado transformar esses resultados em explicação definitiva sobre o comportamento do eleitor brasileiro. Votamos por muitas razões, dentre elas: identidade, valores, rejeição, interesses, expectativas, ideologia e avaliação dos governos. As eleições, contudo, permitem formular uma pergunta que ultrapassa as urnas e alcança a política, a administração pública e nossas próprias relações sociais: o pragmatismo venceu?

A palavra está por toda parte. Queremos pessoas pragmáticas, líderes pragmáticos, gestores que resolvem problemas e governos que entregam resultados. Dizer que alguém “faz acontecer” tornou-se um elogio poderoso em uma sociedade cansada da distância entre discurso e realização. É compreensível que seja assim. Problemas concretos exigem respostas e a população tem razões para cobrar resultados daqueles que exercem funções públicas.

O problema não está, portanto, em querer que as coisas funcionem. Está em algo mais difícil de perceber: o que acontece quando a capacidade de resolver se transforma, por si mesma, em critério de legitimidade? Quando perguntamos cada vez mais “funcionou?” e cada vez menos “para quê?”, “para quem?”, “com quais consequências?” e “por quanto tempo?”.

É aí que o pragmatismo merece ser discutido.

De qual pragmatismo estamos falando?

Convém esclarecer o conceito, porque o uso corrente da palavra se afastou bastante de sua origem filosófica. O pragmatismo associado a Charles Peirce, William James e John Dewey não pode ser reduzido à máxima de que vale aquilo que produz resultado rápido. Embora existam diferenças importantes entre esses autores, há nessa tradição uma relação entre conhecimento, experiência e consequências práticas. Ideias precisam enfrentar a realidade, e a experiência também pode obrigar a rever nossas certezas.

Há inclusive uma ironia nisso. O pragmatismo filosófico, especialmente em Dewey, dificilmente autorizaria a oposição simplista entre reflexão e ação. Investigar, experimentar, observar consequências e rever decisões fazem parte do próprio processo de conhecer.

O pragmatismo que se popularizou na linguagem política e gerencial é outro. Chamamos de pragmático aquele que decide, executa, negocia obstáculos e produz uma solução possível. Nesse sentido cotidiano, o termo passou a representar uma qualidade muito valorizada: diante de dificuldades, o pragmático não permanece discutindo indefinidamente; ele resolve.

Ainda assim, existe uma distância importante entre reconhecer o valor prático das consequências e transformar o resultado imediato em medida suficiente da boa decisão. É nessa passagem que localizo o problema desta reflexão.

O “mal” do pragmatismo não está na ação. Surge quando os meios começam a dispensar a discussão sobre os fins; quando a rapidez reduz o espaço da deliberação; quando o resultado mensurável substitui consequências menos visíveis; ou quando aquilo que pode ser entregue no presente recebe prioridade simplesmente porque o futuro ainda não pode apresentar seus resultados.

O presente ganhou força

Hartmut Rosa ajuda a compreender essa transformação ao descrever a aceleração social e seus efeitos sobre nossa relação com o tempo. François Hartog, por outro caminho, identifica o presentismo, regime de historicidade no qual o presente passa a ocupar progressivamente nossa experiência temporal e o futuro perde parte de sua capacidade de organizar expectativas coletivas.

Essas interpretações ajudam a compreender uma aparente contradição contemporânea. Nunca tivemos tantos instrumentos de planejamento, produção de dados, avaliação e projeção do futuro. Ao mesmo tempo, experimentamos enorme pressão por respostas cada vez mais rápidas.

Governos precisam entregar, gestores precisam demonstrar resultados, instituições precisam apresentar realizações e profissionais são continuamente convocados a comprovar produtividade. As plataformas digitais acrescentaram outra camada a esse fenômeno: além de realizar, é necessário tornar a realização permanentemente visível.

Não há razão para romantizar a lentidão. Burocracia excessiva, incapacidade decisória e processos intermináveis também produzem injustiça e desperdício. Uma administração pública que não consegue executar suas políticas não se torna melhor simplesmente porque refletiu muito sobre elas.

O problema é outro. A velocidade é uma qualidade da ação, não uma garantia de sua direção. Uma decisão pode resolver imediatamente um problema e criar outro adiante. Uma política pode produzir um excelente indicador e não alterar estruturalmente a realidade que originou aquele indicador. Uma instituição pode aumentar sua produtividade e perder capacidade de pensar sobre aquilo que produz.

Por isso, a pergunta relevante talvez não seja apenas quanto conseguimos fazer. Precisamos perguntar o que estamos construindo enquanto fazemos.

Há coisas que somente o tempo entrega

A história das políticas públicas oferece bons exemplos dessa diferença. A transformação da agricultura tropical brasileira associada à Embrapa não nasceu de uma decisão espetacular nem de uma única entrega administrativa. Criada em 1973, a instituição integrou um processo de décadas de pesquisa, formação de pesquisadores, experimentação, erros, correções e continuidade institucional.

O resultado é concreto, mas parte importante dele somente existe porque sucessivas gerações aceitaram investir em algo cujo retorno não cabia no calendário imediato.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado à ciência, à formação de professores, à consolidação de instituições e a muitas políticas educacionais. Existem resultados que podemos contar no final do ano e existem transformações que somente conseguiremos reconhecer depois de muitos anos.

O futuro, portanto, não desapareceu. Continuamos dependendo dele. O que parece ter mudado é nossa disposição para atribuir valor político e social àquilo que ainda não pode apresentar resultados imediatos.

É nesse ambiente que uma segunda transformação ganha importância: já não basta realizar; é preciso mostrar que se realiza.

Quando mostrar passa a valer tanto quanto fazer

No setor público, tornar resultados visíveis não constitui um desvio. Transparência, prestação de contas e comunicação são obrigações democráticas. Uma instituição financiada pela sociedade precisa explicar o que faz, quanto custa e quais resultados produz.

A distorção começa quando essa relação se inverte. Em vez de tornar visível aquilo que é importante, corremos o risco de começar a considerar importante aquilo que pode ser facilmente tornado visível. Nem precisa ser verdade; apenas estar nas mídias.

Obras inauguradas, números apresentados, metas cumpridas, rankings, eventos, anúncios e indicadores possuem uma vantagem na sociedade da atenção: podem ser mostrados, contabilizados e convertidos rapidamente em evidências de ação.

Processos longos têm muito mais dificuldade para competir nesse ambiente. Formar um pesquisador exige anos. Consolidar um grupo de pesquisa pode exigir décadas. Construir uma área de conhecimento talvez atravesse gerações. Desenvolver autonomia intelectual, capacidade crítica e cultura democrática dificilmente cabe em uma fotografia ou em um indicador isolado. Na pressão da celeridade, correm o risco de serem forjados, em lugar de serem realmente efetivos.

Essa diferença nos conduz diretamente à universidade.

Quando o pragmatismo chega à universidade

A universidade pública não pode se declarar imune às exigências de resultados. Ela custa recursos públicos, assume responsabilidades sociais e precisa responder pela qualidade daquilo que oferece. Também não pode usar a complexidade da produção acadêmica como justificativa para ineficiência, ausência de avaliação ou resistência a mudanças necessárias. Entretanto, a universidade possui uma característica que torna o predomínio da lógica pragmática especialmente delicado: boa parte de seus resultados depende do tempo.

O Brasil vive atualmente um novo movimento de expansão e consolidação das universidades federais, com investimentos em campi, infraestrutura, restaurantes universitários, laboratórios, moradias e ampliação da oferta educacional. São entregas necessárias e concretas. Entretanto, justamente porque são concretas, permitem enxergar a diferença entre entregar uma estrutura e consolidar uma instituição.

A Universidade Federal de Rondônia nos oferece uma referência próxima. A UNIR ampliou sua oferta de graduação: passou de 2.662 vagas em 64 cursos no processo seletivo de 2025 para 2.935 vagas em 66 cursos anunciadas para 2026 e já preve novos cursos e vagas para 2027. Para um estado amazônico, ampliar oportunidades de acesso ao ensino superior público possui relevância social evidente.

Mas a constatação positiva não encerra a análise. Ao contrário, permite fazer a pergunta seguinte: Quando podemos considerar consolidada uma expansão universitária?

Um curso pode ser criado por uma decisão institucional e suas vagas podem aparecer imediatamente nas estatísticas. Sua existência acadêmica, porém, depende de docentes, técnicos, infraestrutura, bibliotecas, laboratórios, assistência estudantil, pesquisa, extensão, permanência dos estudantes, financiamento e capacidade de formar profissionais com qualidade. Alguns desses resultados podem ser acompanhados rapidamente; outros somente serão conhecidos depois que as primeiras turmas atravessarem toda a experiência universitária. E outros podem ser convertidos em dependencia direta da estrutura política e de poder vigente.

A diferença não é semântica: Criar é um ato. Consolidar é um processo.

Essa distinção interessa especialmente às universidades amazônicas. Nelas, decisões sobre expansão não ocorrem em território abstrato. Distâncias, infraestrutura urbana, disponibilidade de profissionais, permanência estudantil, desigualdades regionais e custos de funcionamento interferem nas possibilidades reais de transformar uma decisão administrativa em política educacional sustentável.

É precisamente nesse intervalo entre a decisão e suas consequências que o pragmatismo precisa encontrar limites.

Bourdieu e aquilo que a universidade passa a reconhecer

Pierre Bourdieu oferece uma lente particularmente útil para observar esse fenômeno. Em Homo Academicus, a universidade aparece também como um campo social no qual diferentes posições e formas de capital disputam reconhecimento. Prestígio científico, autoridade acadêmica, posições administrativas, redes de relações e capacidade de influenciar decisões não se distribuem igualmente.

A contribuição de Bourdieu permite deslocar nossa pergunta. Em vez de observar apenas o que uma universidade faz, podemos perguntar o que, dentro dela, passa a ser reconhecido como realização valiosa.

Em uma cultura institucional fortemente orientada para resultados visíveis, a capacidade de entregar tende a adquirir grande valor. Conseguir recursos, criar programas, inaugurar espaços, ampliar vagas, alcançar indicadores e demonstrar produtividade são realizações importantes e podem revelar elevada competência administrativa.

Mas outras capacidades também deveriam constituir capital valioso em uma universidade: formular boas perguntas, produzir conhecimento original, identificar consequências não previstas, discordar fundamentadamente, revisar decisões, preservar memória institucional, construir consensos difíceis e reconhecer quando determinada escolha precisa ser corrigida.

O problema aparece quando apenas o primeiro conjunto se torna facilmente reconhecível. Nesse cenário, a própria noção de competência pode se estreitar. O gestor competente passa a ser aquele que entrega; o pesquisador produtivo, aquele que contabiliza produção; o curso bem-sucedido, aquele que apresenta determinados indicadores; e a universidade dinâmica, aquela que consegue demonstrar movimento.

Nada disso é necessariamente falso. O equívoco está em considerar que seja suficiente.

O falso real

Chegamos, então, a uma situação paradoxal. Aquilo que vemos é efetivamente real: a obra existe, a vaga foi criada, o recurso foi obtido, o evento aconteceu, a decisão foi tomada, o indicador melhorou e a postagem circulou. A avaliação formal é celebrada.

O “falso real” não está nesses fatos. Está na interpretação que fazemos deles quando os transformamos em evidência suficiente de qualidade, relevância, sustentabilidade ou transformação.

Uma instituição pode estar intensamente ativa sem estar se transformando. Uma administração pode multiplicar entregas e deixar capacidades institucionais frágeis. Um indicador pode melhorar enquanto dimensões importantes e menos mensuráveis se deterioram. Da mesma forma, uma decisão rápida pode ser necessária e correta, mas sua rapidez não constitui prova de sua qualidade.

A universidade enfrenta, por isso, um desafio maior do que simplesmente aprender a comunicar melhor. Precisa participar da sociedade da comunicação sem permitir que a lógica da visibilidade reorganize silenciosamente aquilo que considera importante.

Isso exige mostrar resultados, mas também explicar processos. Exige entregar, mas acompanhar consequências. Exige decidir, mas preservar espaços reais de deliberação. Exige incorporar tecnologia e velocidade sem transformar reflexão em sinônimo de atraso. E exige reconhecer que participação pode tornar decisões mais demoradas sem que, por isso, seja necessariamente um obstáculo à eficiência.

Talvez esteja aí uma responsabilidade especialmente importante da universidade contemporânea. Em uma sociedade que recompensa respostas rápidas, ela ainda precisa preservar institucionalmente o direito à dúvida, à revisão e à pergunta incômoda.

Volto, então, ao início: o pragmatismo venceu?

Talvez esteja vencendo uma determinada versão dele: aquela que associa competência à capacidade de resolver, executar, entregar e mostrar resultados. Essa disposição produziu e continuará produzindo avanços importantes. O problema começa quando ela reivindica para si uma autoridade maior: a de definir, sozinha, aquilo que merece ser feito. Quando pode corromper e diminuir a objeção ao fato de que a corrupção é intolerável.

Resolver problemas não nos dispensa de compreender os problemas que estamos resolvendo. Entregar resultados não elimina a obrigação de investigar suas consequências. Agir rapidamente não nos autoriza a abandonar a pergunta sobre a direção.

Caso contrário, poderemos alcançar uma das contradições mais inquietantes do nosso tempo: tornarmo-nos extraordinariamente eficientes e descobrirmos, tarde demais, que usamos toda essa eficiência para chegar mais rapidamente ao lugar errado e a um custo humano irrecuperável.

Saiba mais

BOURDIEU, Pierre. Homo Academicus. Stanford: Stanford University Press, 1988.

DEWEY, John. The Public and Its Problems. Athens: Ohio University Press, 1991 [1927].

HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

JAMES, William. Pragmatismo. Diferentes edições em língua portuguesa.

PEIRCE, Charles S. “How to Make Our Ideas Clear”. Popular Science Monthly, 1878.

ROSA, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade. São Paulo: Editora Unesp.

ROSA, Hartmut. Ressonância: uma sociologia da relação com o mundo.

Fontes para dados contemporâneos: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), resultados das Eleições Gerais de 2026; Universidade Federal de Rondônia (UNIR), dados dos processos seletivos de 2025 e 2026; Ministério da Educação (MEC) e Governo Federal, informações sobre expansão e consolidação das universidades federais e investimentos do Novo PAC.


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