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porto velho, sexta-feira 9 de outubro de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
NUNCA SUBESTIME UM PIÁ, AINDA QUE, AOS SEUS OLHOS, ELE PAREÇA DE BOSTA
*Arimar Souza de Sá
Piá, para quem não sabe, é menino. Garoto. Moleque. Guri. No Sul, sobretudo no Paraná, é palavra de quintal, de rua, de infância. Dependendo do contexto, também carrega aquela condescendência dos mais velhos diante de quem ainda parece pequeno demais, imberbe, para sentar à mesa dos adultos.
Na política, porém, ‘Piá’ pode ser outra coisa. Pode ser justamente aquele sujeito que os caciques observam de cima, como quem vê um quero-quero bicando migalhas sem perceber que o passarinho já decorou o caminho até a despensa.
É o rapaz que entra pequeno no salão dos medalhões. Pequeno na idade, pequeno no protocolo, pequeno na fotografia. Mas nem sempre pequeno na urna. E é aí que mora o perigo.
Para Janja, por exemplo, o piá ganhou até sobrenome: “de bosta”. Parecia, aos olhos dela, personagem menor, desses que cabem numa provocação lançada da carroceria de um caminhão. Cara de menino, cabeça de mamão e, aparentemente, sem o tal jeitinho mineiro para conquistar eleitor. ‘Perdeu, Mané’!
A política tem esse vício antigo: medir os outros com a régua da própria vaidade. Veteranos contam mandatos, sobrenomes, alianças, cargos, padrinhos, jantares, gabinetes e tapinhas nas costas. Olham para o jovem adversário e confundem experiência com blindagem. Não é! Às vezes, experiência demais produz apenas excesso de confiança e risco.
Foi nesse ambiente que Janja soltou ao vento a expressão “piá de bosta”. Talvez imaginasse estar jogando uma pedrinha num personagem eleitoral que considerava menor, justamente no território dele. Ledo engano. A política tem uma habilidade extraordinária para transformar pedrinhas em avalanches.
A frase saiu com raiva da carroceria de um caminhão e voltou pesada da urna. Esse é o risco do deboche político: parece flecha quando parte, mas não raro regressa como bumerangue. E regressou com uma carrada de votos.
De repente, o sujeito tratado de forma pejorativa ganhou manchetes, visibilidade e dimensão nacional. O “piá” saiu do canto da sala, interrompeu a conversa dos mais velhos e foi parar no centro do palco. Quem ria teve de assistir ao menino falar grosso.
A urna tem dessas perversidades. Não ri da piada, não participa do aplauso e pouco se importa com primeira-dama, cacique, medalhão ou estrela de palanque. É uma cobradora cruel e silenciosa. E, naquele caso, cobrou com juros.
Pode-se chamar um adversário de imaturo, inconsequente, despreparado ou qualquer outra coisa. Pode-se fazer trocadilho, piada e provocação. Só não convém esquecer que a urna é um espelho. E espelho não pergunta se você gostou da imagem devolvida.
Naquele momento, o insulto parecia martelo. Depois da eleição, virou prego. E quem acabou preso à parede foi justamente quem pronunciou a frase: “Eu quero dar um salve para todo mundo de Minas Gerais, menos para o “piá de bosta. ” Quis lacrar, dançou!
Para azar da autora, o ‘Piá de Bosta’ teve uma votação grande que não é apenas número. É um elefante entrando numa sala de cristais. Não adianta fechar a cortina e fingir que ninguém viu. A fera ruge!
Mais irônico ainda: o termo usado para diminuir virou combustível. A tentativa de apequenar o personagem colocou sobre ele uma lupa nacional. É uma velha especialidade da política: apagar incêndio com gasolina e, depois, perguntar de onde veio tanta fumaça. O piá, enquanto isso, fez aquilo que muitos adultos não percebem a tempo: escutou, provocou, comunicou, esperou e contou votinho por votinho.
Enquanto uns contavam anos de experiência, ele contou urna. Enquanto uns contavam histórias de grandeza, o Piá contou eleitor. Enquanto uns batiam no peito, ele bateu meta e ainda ajudou a eleger meia dúzia de marmanjos para senado e governo.
A distância entre a soberba e a surpresa, às vezes, é apenas o tempo que leva para começar a apuração. Na política, nada é mais perigoso do que acreditar que o adversário ficou pequeno só porque você resolveu chamá-lo de pequeno. Palavra sem grandeza não encolhe ninguém. Às vezes, estica. Às vezes, fortalece. Às vezes, entrega ao adversário exatamente a narrativa de que ele precisava.
Janja queria um adjetivo. Entregou um bordão. Queria uma provocação. Entregou um estandarte. Queria diminuir um piá da favela em seu próprio reduto, mas acabou ajudando a transformá-lo em personagem nacional.
A ironia, quando fecha o círculo, costuma ser cruel. Quem soltou a frase ficou com a frase. Quem recebeu ficou com os votos. É quase uma fábula política moderna de quem cultiva o desvario.
Pode criticar o piá. Pode combater o piá. Pode chamá-lo de inconsequente. Pode discordar dele até o último fio de cabelo. Só não convém rir cedo demais. Porque a política tem memória curta, mas a urna possui um senso de humor comprido e devastador.
Às vezes, alguém sobe no palanque para diminuir um ‘Piá” e descobre, depois da abertura das urnas, que o menino voltou gigante. E piá que se preza não leva desaforo para casa. Dá o troco na lata.
Por isso, depois de todo esse enredo, sobra uma frase que serve de conselho aos caciques, medalhões, veteranos, primeiras-damas e donos provisórios da verdade e do poder:
Nunca subestimem um piá, ainda que, aos seus olhos, ele pareça de bosta.
É tempo de aprendizado!
AMÉM!
*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.
