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porto velho, segunda-feira 26 de outubro de 2026

Encerrada a apuração, a vida segue nas ruas, nas casas e no trabalho. Quem comemorou e quem lamentou o resultado voltará a enfrentar as mesmas preocupações com a saúde, a segurança, o emprego e o futuro dos filhos. É desse Brasil, com as suas diferenças e necessidades, que os eleitos terão de cuidar.
A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, no segundo turno, deve ser respeitada como expressão da vontade popular. Reconhecê-la não exige adesão ao presidente eleito, tampouco renúncia às próprias convicções. Reivindica o compromisso de aceitar que, numa democracia, a escolha da maioria prevalece segundo as regras que valem para todos.
Esse compromisso alcança também o primeiro turno, no qual os brasileiros elegeram um Congresso com vocação mais acentuada à direita. A legitimidade do voto é a mesma nas duas escolhas. Seria incoerente celebrar uma delas e desqualificar a outra por desagrado ideológico com o resultado.
Não sabemos quantos eleitores desejaram, deliberadamente, distribuir o poder entre forças distintas. Temos ciência, porém, que essa foi a configuração que emergiu das urnas. Uma Presidência de esquerda terá de conviver com um Parlamento posicionado mais à direita. Há nessa convivência uma oportunidade racional de fortalecer a democracia, desde que ambos compreendam as suas elevadas responsabilidades.
O presidente Lula terá de governar, apresentar propostas e buscar apoio para realizá-las. O Congresso deverá legislar, fiscalizar e decidir com independência. Nenhum desses mandatos elimina o outro. Ambos nasceram do voto, da soberania popular e encontram na Constituição os seus poderes e limites.
A necessidade de negociar pode melhorar decisões. Um projeto debatido com seriedade permite identificar falhas, ponderar consequências e acolher preocupações que ficaram fora da proposta inicial. Para isso, o governo precisa estar disposto a rever posições, e a oposição precisa examinar o mérito do que recebe. Ninguém perde a sua identidade política por reconhecer um bom argumento.
Contudo convém não idealizar o desencontro entre as maiorias. A diferença ideológica também pode produzir bloqueios irracionais, desinteligências, alimentar ressentimentos e prolongar a campanha por todo o novo mandato. O equilíbrio só beneficia o país quando há disposição para fazê-lo funcionar, de parte a parte.
Fiscalizar com firmeza é dever da oposição. Criar dificuldades apenas para enfraquecer o governo impõe à população o custo da irrefletida disputa. Da mesma forma, buscar apoio parlamentar faz parte da tarefa de governar, mas não justifica acordos obscuros ou concessões contrárias ao interesse público. A negociação precisa resistir ao olhar do cidadão.
Do presidente eleito espera-se a grandeza de respeitar os que votaram no seu adversário. Dos parlamentares, a compreensão de que a independência também traz responsabilidade pelas decisões tomadas e pelas soluções impedidas. Todos deverão responder pelo que entregarem ao país.
O eleitor pode continuar defendendo as suas ideias, cobrando e criticando, o que torna mais bela a defensável e sempre desejável democracia. Aceitar o resultado preserva justamente essa liberdade e a possibilidade de buscar, na eleição seguinte, outro caminho.
Enquanto isso, há um país a administrar. A família que espera atendimento médico de qualidade, segurança pública que protege, educação que emancipa e o trabalhador que procura emprego precisam de instituições capazes de decidir, mesmo quando os seus dirigentes discordam.
Nesse cenário, se a Presidência da República e o Congresso Nacional souberem exercer os seus mandatos com respeito mútuo, fiscalização e diálogo inteligente, a distribuição de forças políticas de espectros distintos poderá servir bem ao Brasil e ao seu povo que luta há séculos por um país mais justo, humano, desenvolvido, fraterno e civilizado. Quem ganha é a democracia, porque o poder permanece limitado e o cidadão continua sendo a razão do seu exercício.
Rondônia, 26 de outubro de 2026.
WILBER COIMBRA
Cidadão brasileiro