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Quenianas lutam contra ritual que exige sexo com estranhos para ‘purificação'


G1

Publicada em: 08/12/2017 16:09:25 - Atualizado

MUNDO- Um grupo de mulheres no oeste do Quênialuta para romper com uma antiga tradição: a "purificação" de viúvas.

O ritual praticado pelo povo Luo, predominante na região, prevê que as mulheres mantenham relação sexual – muitas vezes com estranhos – após a morte dos maridos, no intuito de "limpá-las de impurezas".

Embora tenha sido considerado ilegal pelo governo em 2015, o costume se mantém vivo em uma das áreas mais pobres e rurais do país. E muitas vezes acontece sem o uso de preservativos, deixando as mulheres vulneráveis ao HIV, vírus causador da Aids.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 1,5 milhão de quenianos são portadores da doença – e que cerca de 400 mil não sabem disso.

Pamela, de 50 anos, foi diagnosticada com HIV após ser "purificada" por um homem que se recusou a usar camisinha. E hoje faz parte do grupo de mulheres que luta para acabar com o antigo costume.

Segundo ela, após passar quatro dias com o chamado "purificador", a mulher volta para a casa dos pais.

Até R$ 900 por 'purificação'

No caso de Pamela, o homem que realizou sua "purificação" permaneceu com ela após o ritual. Ele diz que fez isso para cuidar dela.

Os "purificadores" chegam a cobrar mais de £ 200 para executar a tradição.

"Elas dizem que não querem ser purificadas, mas no fundo elas querem. Algumas mulheres são forçadas a procurar um 'purificador'. E se não encontram, a vida pode ser muito difícil", diz um homem que atua como "purificador".

Já Pamela, que luta pela independência das viúvas, vê a situação sob outra perspectiva:

"O 'purificador' aparece do nada. Ele vem apenas de olho na propriedade que o seu marido deixou", avalia.

Terapia

Roseline Orwa, fundadora da Rona Foundation, ONG que protege e luta pelos direitos das viúvas no Quênia, realiza sessões regulares de terapia não só com as mulheres, mas também com os "purificadores", na tentativa de reeducá-los e acabar com a prática.

"Acredito que seja o início de um longo movimento feminista, particularmente para as viúvas no Quênia. Eu sou uma viúva sem filhos, então foi muito fácil para eu chegar e dizer: 'acho que isso é um abuso contra as mulheres, que se trata de estupro, que é reflexo de uma sociedade patriarcal'", diz.

Para as mulheres, as sessões de terapia são uma ferramenta importante.

"Em um grupo como esse, podemos nos apoiar mutuamente. As pessoas sabem que você perdeu um ente querido e podem dar o apoio moral que você precisa", diz Pamela.

O governo afirma, por sua vez, que a melhora na educação tem levado mais mulheres a buscarem proteção legal para seus direitos.


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