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porto velho, segunda-feira 23 de março de 2026

PORTO VELHO - RO - A engenharia eleitoral em Rondônia atravessa um de seus momentos mais delicados. Nos bastidores, longe dos palanques e dos discursos ensaiados, dirigentes partidários enfrentam uma verdadeira corrida contra o tempo para montar nominatas minimamente competitivas à Câmara dos Deputados. A tarefa, que nunca foi simples, tornou-se agora um quebra-cabeça de alta complexidade — daqueles em que faltam peças essenciais.
O principal vazio atende por um nome conhecido no vocabulário político: os “puxadores de votos”. Figuras capazes de arrastar consigo não apenas votos, mas também mandatos. Em outros pleitos, esses nomes funcionavam como locomotivas eleitorais, capazes de conduzir vagões inteiros de candidatos menos votados até Brasília. Hoje, essa engrenagem perdeu força — e, em alguns casos, sequer existe.
A ausência desses protagonistas impõe aos partidos um esforço quase artesanal. Não se trata apenas de atrair candidatos, mas de equilibrar densidade eleitoral, distribuição regional e viabilidade matemática. Cada nome precisa ser calculado como quem monta um tabuleiro de xadrez, onde um movimento mal feito compromete toda a estratégia.
O cenário se agrava com as mudanças na legislação eleitoral, especialmente o fim das coligações proporcionais. Se antes quatro, cinco ou mais partidos se uniam em torno de uma soma coletiva de votos — muitas vezes suficiente para alcançar o quociente eleitoral e garantir cadeiras —, agora cada sigla precisa sobreviver com suas próprias forças. Mesmo nas federações partidárias, como a formada por União Brasil e Progressistas, há limites rígidos: juntas, podem apresentar no máximo nove candidatos à Câmara Federal, sendo obrigatória a reserva de um terço das vagas para mulheres. Um funil estreito para uma disputa cada vez mais competitiva.
Nas eleições passadas, nomes como Fernando Máximo e Sílvia Cristina cumpriram o papel de grandes catalisadores de votos. Foram votos que transbordaram, irrigando chapas inteiras. Agora, ambos reposicionam suas ambições rumo ao Senado, deixando um vácuo que nenhum dos atuais parlamentares, ao menos até aqui, demonstra capacidade de preencher com a mesma intensidade.
Sem essas referências, o que se vê é um mercado político inflacionado, onde candidatos são disputados como ativos raros. Promessas, cálculos e projeções se misturam a movimentos menos nobres — puxadas de tapete, acordos desfeitos à meia-luz, fidelidades voláteis. A política, como sempre, não abdica de sua natureza humana, com suas virtudes escassas e seus vícios recorrentes.
A apenas poucos dias do fechamento da janela partidária, o ambiente é de tensão contida. Sorrisos calculados escondem inseguranças, enquanto lideranças tentam, a qualquer custo, evitar o fracasso de nominatas frágeis — que, na prática, significam entrar na disputa apenas para cumprir tabela.
No fim, a pergunta que ecoa nos corredores do poder não é apenas quem vai vencer. É mais crua, mais honesta — e talvez mais reveladora do momento político: quem conseguirá perder menos?