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porto velho, sexta-feira 6 de fevereiro de 2026

PORTO VELHO-RO: A BR-364 voltou a ser palco de uma sequência brutal de tragédias em Rondônia no último fim de semana. Em pouco mais de dois dias, ao menos seis pessoas morreram em acidentes registrados em diferentes trechos da rodovia. Quatro vítimas perderam a vida em uma única colisão, em Candeias do Jamari. Outras duas mortes ocorreram na região de Cacoal. Já em Porto Velho, mais uma vida foi perdida dentro do perímetro urbano. Um retrato recorrente de uma estrada que se tornou sinônimo de risco permanente.
Os acidentes não são episódios isolados. Eles seguem um padrão conhecido: velocidade excessiva, ultrapassagens proibidas, falta de duplicação, desatenção à sinalização, buracos ainda presentes em alguns trechos e um fluxo intenso de veículos pesados. A combinação é explosiva — e previsível. Quem circula pela BR-364 sabe que qualquer erro, por menor que seja, pode ter consequências irreversíveis.
Todos os dias, cerca de três mil caminhões cruzam os quase mil quilômetros que ligam Vilhena à divisa com o Acre. Trata-se de uma rodovia essencial para o escoamento da produção e para a economia do estado, mas que funciona, na prática, como um corredor de alto risco. Em colisões frontais entre carros de passeio e carretas, não há disputa: o desfecho quase sempre é fatal.
O silêncio institucional porparte do DNIT contrasta com a gravidade dos fatos e reforça a sensação de abandono sentida por quem utiliza diariamente a estrada.
A concessão de uma rodovia não se limita a contratos, projeções financeiras ou futuras cobranças de pedágio, hoje suspenso pela justiça. Ela pressupõe compromisso com a segurança viária, comunicação ativa com a sociedade e responsabilidade diante de situações críticas. Ignorar o drama humano que se repete ao longo da BR-364 é fechar os olhos para a realidade que a concessão deveria ajudar a transformar.
Enquanto isso, campanhas educativas promovidas pelos órgãos de trânsito continuam surtindo pouco efeito, especialmente nas rodovias. O comportamento de risco persiste e tende a se agravar. A perspectiva de um número crescente de condutores sem formação adequada, sem treinamento prático consistente e sem preparo real para enfrentar o tráfego pesado projeta um futuro ainda mais preocupante.
A BR-364 é hoje o reflexo de uma cadeia de falhas — humanas, estruturais e institucionais. E enquanto mortes seguem sendo tratadas como estatísticas, Rondônia continua pagando, com vidas, o preço da imprudência e da omissão.