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porto velho, segunda-feira 30 de março de 2026

PORTO VELHO - RO - A capital rondoniense se despede de uma de suas figuras mais singulares. O servidor da Câmara Municipal, Pedro Soares, conhecido em toda cidade como “Pedro da Ascron”, que morreu aos 68 anos após não resistir a um infarto. Ele permaneceu internado por seis dias, período que mobilizou amigos, admiradores e curiosos — reflexo de uma trajetória que jamais passou despercebida.
Mais do que servidor público, Pedro construiu uma identidade própria. À frente da Ascron (Associação dos Cornos de Rondônia), transformou uma vivência pessoal em discurso coletivo, defendendo, com humor e franqueza, que situações de traição não deveriam resultar em violência. Sua fala, muitas vezes carregada de ironia, escondia uma mensagem direta: reagir com consciência, não com agressão.
Essa postura o levou além das fronteiras de Rondônia. Em 2008, ganhou projeção nacional ao participar do quadro “Me Leva Brasil”, no Fantástico, ao lado do repórter Maurício Kubrusly. A aparição apresentou ao país não apenas a figura de Pedro, mas também a peculiar atuação da associação e suas já conhecidas carteirinhas distribuídas aos membros.
A presença midiática se repetiu em outras emissoras, como Record, Band e SBT, sempre com o mesmo traço: irreverência aliada a uma crítica comportamental pouco convencional. Pedro falava de temas delicados com leveza — e, por isso mesmo, conseguia ser ouvido.
Na política, ensaiou uma entrada formal em 2012, quando disputou uma vaga na Câmara Municipal. Obteve 453 votos. Não foi eleito, mas consolidou ainda mais sua imagem pública, marcada por uma campanha que misturava humor, autenticidade e provocação.
Ao longo dos anos, vieram reconhecimentos diversos. Em 2023, foi destaque no tradicional bloco carnavalesco Concentra Mas Não Sai. No ano seguinte, recebeu o prêmio “Os Melhores do Ano”, entre outras homenagens que refletiam não apenas popularidade, mas a capacidade de se tornar parte da cultura local.
Entre os muitos episódios que cercam sua história, um permanece como símbolo do personagem que ele ajudou a construir. A cabeça de um boi — ícone da Ascron — foi furtada da frente de sua residência, onde também funcionava a sede da entidade. O objeto nunca reapareceu. Pedro, com seu estilo característico, resumiu o caso em uma frase que atravessou a cidade: o desaparecimento virou mistério, quase folclore.
A morte de Pedro Soares encerra uma trajetória difícil de enquadrar em padrões convencionais. Entre o humor e a crítica, entre o popular e o inusitado, ele ocupou um espaço raro — daqueles que não se repetem com facilidade. Em Porto Velho, seu nome segue ecoando não apenas pela figura que foi, mas pela marca que deixou.