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    porto velho, terça-feira 7 de abril de 2026

EDITORIAL RONDONOTICIAS – Fúria o show pirotécnico que derrapa antes do palanque

Talvez valha ouvir o secretário Renan Fernandes Barreto — empresário, articulador e uma espécie de maestro desse enredo — que conduz a partitura das aparições...


Redação

Publicada em: 06/04/2026 22:48:10 - Atualizado

EDITORIAL – Fúria o show pirotécnico que derrapa antes do palanque

Encerrado o prazo de filiações e desincompatibilização, Rondônia entra, enfim, no compasso quente da disputa. Os nomes começam a se expor, os bastidores fervem e o eleitor, atento, passa a separar quem tem lastro de quem vive de espuma e fumaça.

O cenário não mudou: um estado com velhos gargalos — infraestrutura, saúde pressionada, segurança em sobressalto e uma educação que ainda corre atrás de melhorar seus próprios índices. É nesse terreno árido que se mede liderança de verdade. Não basta ser candidato; é preciso ter envergadura de estadista para enxergar e cabeça para agir futuramente.

Entre os que emergem, aparece Adailton Fúria, alçado à condição de pré-candidato ao governo pelo PSD. Traz consigo a vitrine da gestão municipal, sobretudo na saúde, como credencial para chegar ao CPA. Mas é justamente aí que a narrativa começa a ratear. Governar Cacoal não é um ensaio em miniatura para conduzir um estado inteiro. E transformar uma única pasta em atalho discursivo é reduzir Rondônia a um corredor estreito — quando, na verdade, o estado exige uma avenida de ideias.

Rondônia não precisa de um gestor de uma nota só. Precisa de regência completa. Alguém capaz de desenhar o futuro, enfrentar o nó logístico da BR-364, dialogar com quem produz, proteger o que é nosso e preparar o estado para um mundo que já cobra inovação e inteligência. Isso pede densidade. Pede visão. Pede preparo. E, sobretudo, pede sobriedade e inteligência.

O que se vê, porém, é uma outra trilha — mais barulhenta que consistente. No período pré-convenções, quando ainda se mede terreno, alguns preferem trocar conteúdo por espetáculo. No caso de Fúria, a política parece ter descido do palanque para a pista. Carros “envenenados”, manobras radicais, lama como cenário e adrenalina como argumento. Espetáculo para enganar besta. A pergunta surge quase inevitável: é campanha ou é show de fim de semana?

A fúria que se apresenta não é a da coragem de enfrentar problemas estruturais do estado — é a fúria da encenação. Uma fúria que acelera, derrapa, levanta poeira… empolga alguns, poucos, mas não aponta direção. E política sem direção é apenas ruído.

Há uma linha tênue — e perigosa — entre falar com o povo e caricaturar o povo. Entre ser popular e se tornar personagem de aventura. Quando a política vira espetáculo, o conteúdo evapora. E quando o conteúdo evapora, o eleitor percebe. Pode até assistir, mas não aplaude com o voto. Eleitor não é mais besta, não.

Rolar na lama pode até render curtidas. Mas não pavimenta estradas. Não abre leitos. Não qualifica escolas. Não reduz a violência. Lama, afinal, não é plataforma de governo — é só barro que suja o debate.

O Palácio Rio Madeira não é arquibancada para aplausos fáceis. É trincheira de decisões duras. Quem pretende ocupá-lo precisa mais do que fôlego para manobras radicais — precisa de firmeza para escolhas. Precisa menos de performance e pirotecnia e mais de substância.

A dúvida que fica, e que o eleitor não pode ignorar, é direta: a fúria que se apresenta é energia para governar ou apenas impulso para aparecer? Se for só impulso, o risco é evidente. Porque o estado não pode ser conduzido por quem confunde volante com timão. Nem por quem troca planejamento por pirotecnia barata.

No fim, a política cobra maturidade — sempre cobrou. E Rondônia, diante de desafios tão grandes, não pode se dar ao luxo de escolher no grito, no barro ou no espetáculo. O estado precisa de cabeça fria, não de fúria sem rumo rolando no barro da insensatez.

Talvez valha ouvir o secretário Renan Fernandes Barreto — articulador e uma espécie de maestro desse enredo — que conduz a partitura das aparições e publicações com zelo quase teatral, enquanto cultiva relações com a mídia que, digamos, nem sempre parecem movidas apenas pela espontaneidade dos veículos.


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