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    porto velho, sábado 7 de novembro de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA - O Brasil está derretendo na lama da própria moral

A moral ganhou coloração partidária. Para os adversários, a espada da Justiça; para os aliados, o manto da indulgência....


Redação

Publicada em: 06/11/2026 14:41:08 - Atualizado

imagem - divulgação - IA/RONDONOTICIAS

Crônica de Fim de Semana

O Brasil está derretendo na lama da própria moral

*Arimar Souza de Sá

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e se transforma em cumplicidade. O Brasil atravessa um desses períodos sombrios. A vergonha perdeu o endereço, a indignação foi anestesiada e a moralidade agoniza nos corredores de uma República que parece ter desaprendido a distinguir a honra da desfaçatez.

Sinto-me diante do 'Inferno de Dante', assistindo ao desfile de personagens que transformaram a política num espetáculo bufo. A Globo, ao conceder protagonismo ao deputado André Janones, quase alçando-o à condição de herói nacional, reacendeu a amarga sensação de que os valores morais foram virados pelo avesso.

Um político envolvido no caso da chamada “rachadinha”, encerrado mediante acordo com a PGR, e alvo de acusações relacionadas à Lei Maria da Penha ganha os holofotes da televisão, como se a fama pudesse apagar as sombras de um passado controverso.

Ora, o Brasil virou um imenso pântano de hipocrisia. Escândalos envolvendo aposentados, estatais e fundos de pensão desaparecem na poeira das manchetes de um jornalismo que, não raramente, parece mais militante do que fiscalizador. Enquanto isso, o contribuinte continua pagando a conta de um banquete servido aos poderosos, no qual jamais teve direito a uma cadeira.

A moral ganhou coloração partidária. Para os adversários, a espada da Justiça; para os aliados, o manto da indulgência. A esquerda precisa compreender que nenhum discurso social absolve desvios éticos. A direita tampouco pode exigir dos outros a retidão que dispensa aos seus. A honestidade não deveria ter ideologia. Muito menos a corrupção, padrinhos.

Essa degradação corrói a confiança nacional. O cidadão já não sabe em quem acreditar. Desconfia dos políticos, das instituições e até daqueles que juram combater a corrupção. Quando a Justiça passa a ser percebida como seletiva, a democracia continua respirando, mas sua alma vai sendo lentamente asfixiada.

Ninguém mais aceita  que a esperteza seja coroada como virtude, a desfaçatez celebrada como coragem e a fidelidade partidária transformada em salvo-conduto moral. O Brasil parece ter criado duas medidas para o mesmo pecado: a condenação implacável dos inimigos e a indulgência quase religiosa com os aliados, tudo em nome da “democracia”. Nesse tribunal de conveniências, a verdade é a primeira vítima. A segunda é o cidadão honesto, que levanta cedo para trabalhar.

Ato contínuo, o cinismo ganhou palanque e a sociedade assiste a um teatro de absurdos, no qual mudam os figurinos, mas os vícios permanecem em cena e, pasmem, ainda são aplaudidos. O mais assustador é que tamanha degradação já não provoca mais espanto. 

É preciso romper com a irresponsabilidade de gastar mais do que se arrecada, dilapidar o patrimônio público, viajar pelo mundo às custas do erário e depois apresentar a fatura ao povo. Não se pode transformar o Estado num balcão de negócios nem o dinheiro do contribuinte em combustível de ambições particulares. Uma República que tolera esses vícios transforma o cidadão honesto em refém da própria honestidade. E até a paciência dos justos tem limites.

Talvez Dante Alighieri, se conhecesse o Brasil de hoje, acrescentasse outro círculo ao seu inferno: o da hipocrisia política, reservado àqueles que pregam virtudes em público e negociam conveniências nos bastidores, sem sequer passar pelo purgatório...

O país precisa abandonar a ladainha dos falsos moralistas, que discursam sobre democracia enquanto relativizam os próprios pecados e os de seus companheiros. Não existe ética pela metade, tampouco honestidade de ocasião. Democracia relativa, nem se diga! Quem exige transparência precisa abrir as próprias janelas. Quem aponta a sujeira alheia deve primeiro examinar a lama que carrega nos sapatos.

Não escrevo por ódio. Escrevo por indignação. Pelo cansaço de ver a decência transformada em artigo de luxo e a consciência nacional escorrer pelo ralo da impunidade, sob o beneplácito de muita gente considerada “grande”.

O Brasil precisa reencontrar a vergonha antes que perca definitivamente a dignidade. Porque uma nação não começa a morrer quando seus cofres ficam vazios. Começa a derreter quando sua consciência apodrece.

E a tragédia brasileira não está apenas na lama que invade os palácios do poder. Está também na multidão que aprendeu a caminhar sobre ela, indiferente ao mau cheiro, como se a podridão tivesse deixado de causar repulsa e se tornado parte natural da própria existência.

Cruz credo! É tempo de desabafo!

AMÉM!

O autor é jornalista, advogado, e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.


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