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    porto velho, sexta-feira 6 de fevereiro de 2026

Hipnose clínica ganha espaço no tratamento da ansiedade

Método, focado no subconsciente, tem sido utilizado como recurso complementar no enfrentamento da ansiedade e de outros...


CNN

Publicada em: 26/11/2025 08:19:25 - Atualizado

A ansiedade se consolidou como um dos maiores desafios de saúde mental do século XXI. A sobrecarga de estímulos, o ritmo acelerado de trabalho e a pressão por desempenho criam um ambiente propício para o aumento dos transtornos ansiosos, que hoje afetam milhões de brasileiros.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil segue entre os países com maior incidência de ansiedade, um quadro que impacta diretamente sono, concentração, produtividade e relacionamentos. Nesse cenário, métodos terapêuticos que atuam na raiz emocional do problema têm ganhado espaço. Entre eles, a hipnose clínica, ou hipnoterapia, tem se destacado como uma ferramenta complementar dentro de abordagens psicológicas e neurocientíficas.

O método busca acessar padrões emocionais e memórias que influenciam comportamentos automáticos, o que contribui para a redução de sintomas ligados ao medo, tensão e estresse.

Como funciona a hipnose clínica?

Durante uma sessão, o paciente é conduzido a um estado de foco e relaxamento, permanecendo consciente e no controle do processo. Com isso, torna-se possível acessar conteúdos inconscientes e reorganizar respostas emocionais que alimentam a ansiedade.

“A hipnose clínica atua acessando padrões emocionais que o consciente não alcança sozinho. Nesse estado de foco profundo, conseguimos reorganizar respostas internas que geram ansiedade”, explica o hipnólogo e psicanalista Júnior Silva, especialista na aplicação da técnica.

Ele ressalta, porém, que a hipnose não é indicada para qualquer situação: “Ela funciona muito bem quando a origem emocional está acessível ao subconsciente. Em outros casos, outras abordagens são mais adequadas.”

O olhar técnico da psiquiatria

Para o médico psiquiatra Marco Abud, a hipnose clínica tem sim evidência de eficácia em situações muito específicas, como casos de ansiedade relacionada a procedimentos médicos, fobias pontuais e ansiedade social leve. No entanto, ele reforça que a hipnose não deve ser considerada tratamento de primeira linha para nenhum transtorno de ansiedade.

“Ela pode ser útil como adjuvante, mas não se compara a terapias mais bem estabelecidas, como a terapia cognitivo-comportamental ou tratamentos medicamentosos. O risco está em alguém buscar a hipnose como primeira - ou única - solução e acabar postergando um tratamento mais robusto”, afirma.

Segundo Abud, embora algumas pessoas possam apresentar melhora rápida, isso só é possível em quadros muito específicos, como fobias tratadas com técnicas intensivas de exposição. Fora desses casos, “é biologicamente improvável uma cura em uma única sessão”, pontua.

Além disso, o psiquiatra alerta para riscos relacionados a possíveis falsas memórias ou vivências negativas durante a hipnose, especialmente se conduzida por profissionais sem formação clínica adequada. “Assim como qualquer técnica eficaz, a hipnose também pode gerar efeitos colaterais se mal aplicada”, afirma.

Um tratamento complementar, não substituto

A hipnose não substitui a terapia tradicional nem a prescrição médica: “Quem decide sobre medicação é o psiquiatra. A hipnose pode complementar o tratamento, mas jamais substituí-lo”, reforça Júnior Silva.

Abud concorda: “Uma integração segura pressupõe que a hipnose nunca substitua tratamentos de primeira linha. São abordagens com mecanismos diferentes. A hipnose pode ser útil, desde que usada com bom senso e responsabilidade clínica.”

A quem se destina?

De acordo com Silva, a maioria das pessoas pode ser hipnotizada, mas isso não significa que todas devam passar pelo processo. A avaliação do histórico emocional é fundamental, e pacientes com transtornos dissociativos graves ou quadros psicóticos devem evitar a técnica sem acompanhamento médico.

Abud complementa com uma orientação direta ao público: “Se a pessoa estiver em sofrimento intenso, o primeiro passo deve ser procurar um diagnóstico com um psiquiatra ou psicólogo. Se houver um transtorno mental, tratar apenas com hipnose pode significar adiar uma intervenção eficaz.”

Personalização e limitações

Embora muitos relatem mudanças perceptíveis já nas primeiras sessões, o número de encontros varia conforme a complexidade emocional de cada paciente. Silva reforça a necessidade de personalização: “Cada paciente tem um mapa emocional único. Não existe hipnose padrão.”

Entre os casos atendidos por ele, um dos mais marcantes envolve uma paciente com pânico ao dirigir. Após uma longa sessão, foi possível identificar uma memória bloqueada ligada a trauma antigo — e reorganizar a resposta emocional atrelada ao volante.

Para Marco Abud, casos como esse podem ser legítimos, mas “não devem criar a expectativa de que todos os quadros de ansiedade se resolvam de forma rápida ou sem acompanhamento multidisciplinar.”


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