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porto velho, quarta-feira 25 de março de 2026

A disputa pela vaga aberta no Tribunal de Contas da União (TCU), com a saída do conselheiro Aroldo Cedraz, escancarou o que Brasília costuma disfarçar: acordos políticos têm prazo de validade — e, muitas vezes, vencem antes da votação.
O que deveria ser uma escolha institucional virou uma guerra silenciosa entre governo e oposição, com digitais espalhadas por todo o plenário. No centro desse tabuleiro está o presidente da Câmara, Hugo Motta, que tenta ganhar tempo enquanto evita ser atropelado pelas próprias alianças.
Durante a campanha pelo comando da Casa, Motta assumiu um compromisso claro: apoiar Odair Cunha, nome do PT e preferido do Palácio do Planalto para o cargo.
O problema é que, em Brasília, promessa é ativo político — e também passivo. Cumpri-la agora significa abrir fissuras com partidos que sustentam sua base e também querem um pedaço do TCU.
Na fila estão Hugo Leal, Hélio Lopes, Adriana Ventura, Gilson Daniel, Danilo Forte e Elmar Nascimento — todos com apetite e discurso de viabilidade.
Por fora, mas sem ser irrelevante, aparece Cezar Miola, um nome técnico que pode virar opção de consenso… ou de crise.
Se há algo que assombra qualquer articulação na Câmara é o voto secreto. É nele que acordos evaporam, fidelidades se dissolvem e traições ganham forma.
Hugo Motta sabe disso — e por isso não tem pressa. O movimento agora é de radiografia: entender quem tem voto de verdade e quem apenas ocupa espaço no noticiário. Em disputas assim, musculatura política não se mede em declarações, mas em silêncio de urna.
O TCU não é apenas um tribunal de contas — é um centro de poder. Ali se decide o ritmo de obras, a legalidade de contratos bilionários e, muitas vezes, o destino de políticas públicas inteiras.
Para deputados, a vaga oferece o que a política raramente garante: estabilidade até a aposentadoria, influência contínua e distância segura das urnas. É o tipo de cargo que transforma carreira — e explica por que ninguém recua facilmente.
A eleição do ministro do TCU Jhonatan de Jesus em 2023 ainda ecoa nos corredores da Câmara. Na ocasião, o resultado contrariou expectativas e expôs a fragilidade dos acordos de cúpula, derrotando nomes como Fábio Ramalho e Soraya Santos. A lição ficou: no voto secreto, ninguém controla totalmente o resultado.