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porto velho, sábado 24 de janeiro de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
QUEM NÃO TEM HISTÓRIA, NÃO SUSTENTA DISCURSO EM RONDÔNIA
Arimar Souza de Sá
O ano mal começou e o caldeirão político de Rondônia já ferve. As eleições de outubro dão as caras e arrivistas de plantão se assanham em lançar candidaturas.
Nos sites e noticiários, surgem pretendentes aos cargos eletivos como quem fareja o poder à distância e corre para alcançá-lo a qualquer custo. É sempre assim: A democracia atrai interessados. O problema surge quando a quantidade, somada à biografia dos ungidos, ameaça sufocar a qualidade do processo eleitoral. Fique atento.
Na década de 80, no início da formação política do Estado, venceu quem correu mais e ocupou espaços vazios. Era outro tempo, outra urgência — e isso abriu caminho para aventureiros e despreparados. Rondônia, porém, já não é mais terra de improvisos. Não é mais o lugar onde qualquer um fincava bandeira, colhia votos e depois pegava a estrada, deixando para trás promessas e frustrações, como fez o ex-deputado federal Múcio Athaíde.
Nesse período, quase nos acostumamos a caminhar entre cobras e lagartos. Canibais da política, espertinhos de toda ordem, alguns cassados, outros salvos por atalhos jurídicos — todos ávidos por morder o que restou de vergonha pública. Homens de palavra curta e biografia longa em escândalos, tentando ensinar moral depois de vender a própria mãe.
Tais formigas fizeram estrago. Mordidas silenciosas, transferências suspeitas, roubalheiras miúdas, escândalos no Executivo, no Legislativo, prisões. Um conjunto de fatos que abriu fendas profundas no peito do eleitor desta terra.
Hoje, no entanto, o Estado já não comporta corpos estranhos disputando o comando do que pertence ao coletivo e não basta prometer: é preciso atravessar os anos sem se vender a eles. A política desta terra deixou de ser abrigo para carreiras ocas e passou a exigir densidade humana e há um divisor claro.
De um lado, os que prestam. Do outro, os 'ocasionistas', os arrivistas, os “safadistas” de plantão — figuras que reaparecem de quatro em quatro anos com discurso reciclado e passado mal explicado. A paciência social se esgotou, e o voto passou a pesar como consciência, não mais como impulso.
O povo já apanhou feio e deve ter aprendido a distinguir quem caminhou pelas brenhas do Estado com o suor do próprio rosto e fez entregas, de quem apenas deslizou sobre o esforço alheio e “se deu bem”.
Isso precisa ser dito porque a política rondoniense entrou numa fase em que o passado cobra a conta do presente. O improviso perdeu espaço para a responsabilidade. Caráter não se improvisa em ano eleitoral.
Que se diga com franqueza: a atual bancada federal atravessou esta legislatura com presença discreta, quase invisível. Baixo clero. Pouca voz. Pouca entrega. A exceção foi a deputada Sílvia Cristina, que honrou o mandato, trabalhou, apareceu e entregou resultado. O restante passou como pegada na areia — vem a onda e leva.
Presumo — e tomara Deus — que o eleitor tenha amadurecido o olhar e endurecido o critério. Neste chão, não há mais espaço para ingenuidade nem encenação. Quem não tem história não sustenta discurso. É tempo de refletir. Quando o excesso apodrece, a consciência coletiva exige limpeza geral. Não se trata de perseguição nem de radicalismo. Trata-se de seleção histórica. Quem não sustenta o próprio peso moral fica pelo caminho. O alerta é claro: há gente se lançando com a alma já apodrecida. Olho vivo.
Ainda bem que ainda sobraram homens de bem. Poucos, mas decisivos. Gente que atravessou o mar de lama sem se lambuzar, contrariando a versão catastrófica do Estado com trabalho, presença e decência. Como dizia Santo Agostinho: “Mantiveram-se santos convivendo com o lodo.” Quando falam, encantam. Não espantam.
Esta crônica é um aviso há nove meses das eleições. Um alerta de fim de semana de quem acompanha a política rondoniense há mais de trinta anos. Em outubro, o voto não pode ser aposta cega. Precisa ser depositado em homens e mulheres de mãos limpas, com história, lastro e coragem para acenar com o lenço — e serem reconhecidos.
Porque, com sósias de virtude duvidosa, o risco é enorme. E esse risco Rondônia já pagou caro demais. O poder por aqui não pode ser prêmio. Tem que ser missão. Ponto.
Ainda bem que há tempo para refletir — e para vigiar os arrivistas que ensaiam candidaturas fajutas.
Reflitamos, então!
Até sexta!
Amém.