Fundado em 11/10/2001
porto velho, sexta-feira 27 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
Padre Antônio Vieira e os ladrões de império que nunca deixaram o poder
*Arimar Souza de Sá
Há anos cultivo o hábito de reler Padre Antônio Vieira. Não por devoção cega, mas por espanto contínuo. Impressiona perceber que um homem do século XVII descreve, com precisão desconcertante, as mazelas de hoje.
Jesuíta, orador brilhante, diplomata, defensor dos povos indígenas e perseguido pela Inquisição, Vieira viveu entre 1608 e 1697. Grande parte de sua vida foi no Brasil. Sua verve era um punhal afiado e daqui lançou palavras que até hoje ardem no coro de quem não tem vergonha.
No Sermão do Bom Ladrão, em 1655, ergueu do púlpito uma denúncia que atravessaria séculos. Não falava apenas a colonos, governadores ou magistrados da Coroa Portuguesa. Falava — sem saber — aos nossos prefeitos, deputados, ministros e gestores que confundem o público com o próprio bolso.
Vieira ironizava a “justiça” que prende o ladrão de galinha e reverencia o ladrão de ‘império’. No Brasil colonial, pequenos furtos levavam ao pelourinho; grandes saques rendiam títulos e prestígio. O mundo — dizia ele — castiga quem rouba por necessidade, mas tolera quem rouba com caneta e decreto.
Ontem, em 1665, eram funcionários da Coroa explorando impostos, manipulando contratos e oprimindo indígenas sob o manto da legalidade. Hoje, mudam-se os trajes, mas a engrenagem permanece a mesma: superfaturamentos, licitações dirigidas, emendas desviadas, verbas da saúde que evaporam antes de alcançar o leito do hospital. Rouba-se em todos os tempos do verbo.
No Brasil contemporâneo, o ladrão comum apodrece no sistema prisional; o engravatado que desvia milhões responde em liberdade, protegido por padrinhos poderosos, recursos intermináveis e discursos ensaiados sobre “perseguição política”. A lei, que deveria ser reta como régua, dobra-se como vara verde diante da conveniência do poder.
Basta recordar escândalos que vieram à tona como terremotos institucionais: 'Mensalão', 'Petrolão', roubo aos velhinhos do INSS e, agora, do Banco Master e, pouco depois, foram soterrados por novas manchetes. O enredo se repete como peça antiga encenada com figurinos modernos. Mudam os nomes. Permanecem os métodos. Ou seja, mudam as moscas, mas o resíduo do distúrbio intestinal é sempre o mesmo.
Vieira subverteu o ditado popular. “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, dizia o povo. Ele corrigiu com firmeza: quem rouba o que é de todos — quem rouba o público, quem rouba a justiça — não deveria ter perdão algum. Sua palavra era lâmina. Cortava privilégios, rasgava máscaras, expunha hipocrisias.
A atualidade dessa advertência do Padre incomoda até hoje. O dinheiro da merenda desaparece enquanto crianças comem bolacha com água. Hospitais seguem sem insumos. Obras começam com festa, discursos e fitas coloridas; terminam como esqueletos de concreto, monumentos ao abandono. Escândalos bilionários estouram como tempestades tropicais: fazem barulho, alagam a opinião pública e logo são engolidos pelo próximo vendaval.
Vieira criticava magistrados que vendiam sentenças e governantes que usavam o cargo como escada para fortuna pessoal. Quase quatro séculos depois, assistimos a planilhas de propina, contratos inflados, consultorias fantasmas e conluios sofisticados sob o manto da capa escura. A tecnologia avançou. A ética, essa sofre de uma doença crônica — resistente a qualquer reforma.
Padre Antônio Vieira denunciava impostos injustos que esmagavam o colono. Hoje enfrentamos uma carga tributária sufocante, criminosa, que pesa sobre quem produz, enquanto privilégios seguem blindados por sigilos centenários. O contribuinte invisível paga em dia, mas raramente vê retorno. Trabalha, recolhe, confia — mas assiste, resignado, ao espetáculo do desperdício.
O que espanta não é apenas a permanência da corrupção. É a permanência da seletividade no punir. Nunca faltou diagnóstico. Faltou coragem para quebrar a banca. "Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei". O discurso moralista, que deveria iluminar, muitas vezes serve apenas para encobrir.
Quando releio Padre Vieira, não vejo apenas o que ele retrava no ano 1655. Vejo promessas que evaporam como água ao sol do meio-dia. Vejo indignações seletivas. Vejo viagens oficiais com diárias generosas, hotéis de luxo, (sete mil reais) e cartões corporativos passados sem dó na maquininha. Vejo escândalos convertidos em rotina — como se o extraordinário tivesse virado regra.
Vieira pregava para salvar almas. Nós talvez precisemos relê-lo para salvar a vergonha nacional que se instalou.
Como visto, não podemos mais tergiversar, porque, se continuarmos punindo apenas os ladrões de galinha e absolvendo os grandes saqueadores do erário, não será o tempo o responsável por nossa decadência.
Será nossa omissão,
Nosso morno silêncio e, por derradeiro,
nossa conivência diante das traquinagens desses abutres de plantão.
Então, que não seja nunca como eles querem.
Vamos à luta!
AMÉM!
*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.