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porto velho, sábado 11 de abril de 2026
CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
Reminiscências - Uma batida, um bilhete e uma lição que atravessou o tempo
Arimar Souza de Sá
A vida começa cedo para quem precisa trabalhar e aprende a caminhar, antes mesmo de sonhar. Eu tinha 15 anos quando troquei a adolescência pelo balcão da antiga Casa Matos, na avenida Pinheiro Machado, em Porto Velho — onde hoje ecoam gargalhadas, copos cheios de chope e o burburinho do velho Boteco da Fama. Foi lá meu primeiro emprego.
Ali, entre caixas de óleo, sabão, cachaça, aviamentos e fregueses apressados, aprendi uma lição que nunca mais me abandonou: o tempo não pede licença. Ele chega, empurra e ensina — quase sempre na marra.
Depois veio o Incra, no setor de Titulação, com o saudoso Eustáquio Godinho, já falecido. E, já nos anos 80, a consultoria jurídica do então Território. Durante a transformação em Estado, trabalhei como datilógrafo, ao lado do doutor Fouad Zacharias, homem que o destino trataria de transformar em procurador-geral e, mais adiante, no primeiro presidente do Tribunal de Justiça de Rondônia.
Naquele tempo, porém, para mim, ele era antes de tudo um mestre severo: austero, justo, avesso a fofoca e bajulação. Um homem “brabo”, como se dizia. Seus ensinamentos foram ponte firme entre o menino que pedalava sua ‘magrela’ rumo ao Palácio do Governo e o homem que começava ainda tateando, a dirigir a própria história, espelhado no rigor dele.
Foi com a indenização do Incra, ao me desligar de lá, que comprei meu primeiro carro: um Fusquinha azul, placas AB-6989. Azul de céu aberto, azul de promessa antiga feita na meninice. Para quem vinha da bicicleta, aquilo não era apenas um automóvel — era uma Ferrari, um rito de passagem solene, quase sagrado. Instalei som de gaveta, tweeters para amplificar som, e cuidava dele como quem cuida de um filho: sempre limpo, perfumado por dentro, lataria polida. Era o primeiro sonho materializado com suor próprio sobre quatro rodas. Ave Maria!

Até que um dia, estacionado na Avenida Dom Pedro II, ao lado do Banco do Brasil, a realidade resolveu testar a resistência daquele sonho conquistado no braço. Quando voltei, lá estava ele: o paralama afundado. Senti o coração afundar junto. O primeiro sonho estava ferido. Mas a vida, quando quer ensinar com delicadeza, deixa bilhetes.
Preso ao para-brisa, um pedaço de papel, escrito com caligrafia fina e quase tímida, dizia apenas:
“Bati seu carro, perdão. Isabel. Endereço tal.”
Fui ao endereço com o coração apertado. E a ironia do destino — sempre ela — quis que fosse na esquina da minha própria casa, na Benjamin Constant, esquina com Rua Brasília. Toquei a cigarra. Uma senhora gentil atendeu, sorrindo como quem já esperava.
— Já sei… é o dono do fusquinha?
— Sou, sim.
— Pode procurar uma oficina, mandar consertar, que eu pago. Simples assim. Sem rodeios. Sem justificativas longas. Sem tentativas de fuga.
Logo surgiu à porta um senhor de semblante sisudo. Observou a batida, caminhou ao redor do carro, passou a mão na lataria, mediu palavras, olhou firme para mim e lançou um aviso seco:
— Manda arrumar, mas não venha com malandragem. Não retruquei! Dois dias depois, o carro estava pronto. Paguei. Voltei. Recebi o valor do serviço. O nome dele era Theobaldo Viana, ex-secretário de Administração do Estado. O dela, Isabel Viana.
O tempo seguiu seu curso — como sempre faz. Décadas passaram. Pessoas se foram. Outras ficaram apenas na memória, esse lugar silencioso onde moram os gestos como este, que não envelhecem nunca.
Quase cinquenta anos depois, nesta terça-feira, 19 de janeiro, ao compulsar o celular, uma fotografia atravessou meu caminho e me surpreendeu. Nela, o coronel Teixeira tocava um pandeiro em um ‘petit comitê’. Ao seu lado, estava a senhora Isabel. O mesmo nome. A mesma dignidade. A mesma luz discreta que o tempo não apaga. Voltei ao passado, precisava contar essa história para os meus filhos.
Pena, que nunca mais a vi. Nunca pude lhe dar o abraço de agradecimento que gostaria, talvez contido pela presença do marido sisudo, já falecido. Mas há abraços que a vida adia e transforma em palavras, é o que estou fazendo agora.
Hoje escrevo para reverenciar aquele gesto — raro, quase uma joia fora de época. Para agradecer uma honestidade que não pediu aplausos. Para louvar uma generosidade sem plateia, dessas que não fazem barulho, mas constroem caráter.
Em tempos em que a decência parece e a honestidade parecem artigos em extinção, dona Isabel permanece viva em mim como exemplo silencioso, elegante e definitivo. Algumas pessoas não passam pela nossa vida.
Elas permanecem.
Dona Isabel, seu gesto atravessou décadas, resistiu ao tempo e repousa até hoje na minha memória como um exemplo, um patrimônio moral. Que os anos lhe sejam tão generosos quanto a senhora foi comigo.
E que a vida, essa grande plateia invisível, se levante — agora — para lhe aplaudir de pé, porque a verdadeira grandeza, inexoravelmente, nunca precisou de holofotes e, isso, a senhora me ensinou.
OBS: Na imagem - coronel Jorge Teixeira, tocando pandeiro e Isabel ao lado.
O autor é jornalista advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, 93,1.