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porto velho, sexta-feira 3 de abril de 2026
CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
Arimar Souza de Sá
CONFLITO DE GERAÇÕES: DA CHIBATA AO CELULAR
O conflito entre gerações não é novo. Atravessa a História como uma linha invisível que separa costumes, valores e visões de mundo. O que muda, de fato, é o cenário — e a intensidade do choque.
No Brasil de ontem, romper padrões custava caro. Em meio a engenhos e cafezais, a disciplina era imposta pela força. A educação nascia do medo. Crianças e mulheres não tinham voz, e a obediência era regra absoluta, sem contestação. A vida familiar seguia rígida: afetos contidos, relações vigiadas, destinos definidos pelos pais — tudo na base da chibata e da palmatória.
Mas o Brasil começou a se mover. A industrialização, a migração em massa e a mistura de culturas alteraram profundamente a sociedade. Povos de diferentes origens se encontraram nas cidades, trazendo novos costumes e novas visões. A família já não era a mesma — e a autoridade passou a ser questionada.

Com Getúlio Vargas, surgiram direitos trabalhistas e mudanças sociais relevantes. Mais tarde, com Juscelino Kubitschek, o país acelerou, construiu Brasília e se reinventou. O Brasil deixou de ser predominantemente rural e passou a experimentar uma identidade urbana e moderna. Esse processo abalou o modelo tradicional de educação. O poder absoluto do pai dentro de casa começou a ruir. O silêncio deu lugar ao questionamento.
Na sequência, veio a ruptura mais visível: a juventude dos anos 60. Influenciada pela música, pela cultura e por um espírito global de contestação, rejeitou o autoritarismo e abriu caminho para a liberdade. A chamada “Jovem Guarda” simbolizou esse momento em que obedecer deixou de ser regra — e o próprio Roberto Carlos deu voz a essa nova fase ao mandar tudo para o inferno.
Mas toda ruptura carrega excessos. A busca por liberdade também abriu portas para desequilíbrios — drogas, desorientação e a quebra abrupta de referências. Com o tempo, esse modelo também se desgastou. Surge, então, o elo com o presente: um fio ainda mais tensionado. O conflito assume nova forma. Já não há chibata nem palmatória. O instrumento de tensão agora cabe na palma da mão.
A modernidade redesenhou as relações. O celular encurtou distâncias, mas abriu abismos dentro de casa. Pais e filhos dividem o mesmo espaço, mas vivem em universos distintos. O diálogo enfraqueceu e o respeito, muitas vezes, se dissolve em confrontos diretos — não raro com frases cortantes vindas dos filhos: “Pai, deixa de ser burro!”.
A autoridade deixou de ser imposta e passou a exigir construção — nem sempre bem-sucedida. Nesse vazio, a internet ocupa o centro do tablado: silenciosa, constante, moldando comportamentos, linguagem, valores e afetos. O resultado é um desencontro evidente: jovens hiperconectados, mas sem direção clara; famílias fisicamente próximas, mas emocionalmente distantes.
Saímos da casa onde a palavra do pai era martelo e chegamos a um lar onde tudo se dissolve como areia entre os dedos. Antes, o excesso era a dureza que esmagava; hoje, é a ausência que corrói. Trocamos a imposição patriarcal pelo silêncio, a presença pelo sinal de wi-fi.
O celular, pequeno como um isqueiro, tornou-se incêndio permanente: ilumina telas, mas apaga olhares; aproxima os distantes, mas afasta os que estão ao lado. É ponte para o mundo — e, muitas vezes, muro dentro da própria família. Criou-se uma geração que conhece tudo sobre o mundo, mas pouco sobre a vida — e pais que perderam a autoridade ao tentar negociar limites onde antes apenas impunham regras.
O conflito de gerações não desapareceu. Apenas mudou de campo. Saiu do grito para o algoritmo, do medo para a indiferença — e tornou-se mais silencioso, como ferrugem que corrói a estrutura por dentro.
Resta a escolha: ou reconstruímos o diálogo, como quem ergue uma ponte sobre águas turbulentas, ou assistiremos, em silêncio, ao desgaste das relações mais essenciais da vida.
Afinal, família não é território de guerra. É porto!
E porto não pode ficar à deriva!
É tempo de reflexão.
AMÉM!
O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.