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porto velho, quarta-feira 15 de abril de 2026

PORTO VELHO - RO - Guajará-Mirim chegou aos 97 anos entre o abandono crônico e o espetáculo grotesco para o deleite de quem buscava um like para as eleições de outubro.
Em vez de um marco de reflexão sobre os rumos do município, o aniversário escancarou uma prática antiga e conhecida: enquanto os problemas se acumulam, a resposta da gestão é investir em festa — uma versão explícita do já desgastado “pão e circo”.
Com uma cidade marcada por ruas deterioradas, ausência de saneamento básico e um sistema de saúde que opera no limite, levanta questionamentos inevitáveis sobre prioridades. Não se trata de condenar a celebração em si, mas de expor o contraste gritante entre o palco iluminado e a realidade enfrentada diariamente pela sofrida população.
Sob a condução do prefeito Fábio Garcia de Oliveira, o Netinho, a administração municipal optou por um evento de forte apelo midiático, mas completamente desconectado das demandas estruturais da cidade. O brilho das apresentações durou algumas horas; os problemas crônicos da cidade seguem, sem prazo para solução.
O episódio ganha contornos ainda mais críticos quando se observa o comportamento da classe política. Figuras públicas que raramente são vistas enfrentando de perto os desafios cotidianos do município surgiram em peso para a festividade. Sorridentes, posaram para fotos, aplaudiram e celebraram — sabe Deus o quê — diante de uma cidade que carece de ações concretas e permanentes.
A ausência desses mesmos agentes políticos nos momentos em que Guajará-Mirim mais precisa — seja na busca por investimentos, seja na cobrança por melhorias — torna a presença festiva ainda mais simbólica. Não é participação; é oportunismo. Não é compromisso; é conveniência em busca do incauto eleitor do município.
Há, ainda, um elemento que agrava o cenário: o uso pouco criterioso dos recursos públicos. A recente conduta de uma representante no parlamento que cruza a fronteira para o lado boliviano e recebe diária internacional, reforça a percepção de descontrole e falta de zelo com o dinheiro da população. Em um município que enfrenta limitações severas, esse tipo de prática não apenas indigna — expõe uma lógica distorcida de gestão.
Guajará-Mirim não precisa de palco, precisa de planejamento. Não precisa de espetáculo, precisa de infraestrutura. E, sobretudo, não precisa de uma classe política que aparece apenas quando há festa, mas desaparece diante dos problemas do cotidiano do município.
O recado que fica é claro: enquanto a política continuar tratando o essencial como secundário e o supérfluo como prioridade, a cidade seguirá presa ao mesmo ciclo. E o tempo — esse sim implacável — continuará passando sem que Guajará-Mirim avance.