• Fundado em 11/10/2001

    porto velho, terça-feira 18 de agosto de 2026

Análise política: os pontos vulneráveis dos principais candidatos ao Governo de RO

Ao longo dos últimos anos, Marcos Rogério passou a enfrentar uma percepção negativa em parte do eleitorado...


Jair Montes

Publicada em: 18/08/2026 10:23:48 - Atualizado

A eleição para o Governo de Rondônia começa a ganhar contornos mais definidos. Marcos Rogério, Hildon Chaves e Adailton Fúria chegam à disputa carregando trajetórias, bases eleitorais e estilos políticos bastante diferentes.

Todos possuem ativos importantes. Mas eleição não é feita apenas de virtudes. Muitas vezes, são justamente as fragilidades de uma candidatura que determinam até onde ela consegue chegar.

Nesta análise, portanto, o foco não está nas qualidades dos três principais nomes, mas nos obstáculos que cada um precisará superar para ampliar seu eleitorado e chegar competitivo à reta final da campanha.

Marcos Rogério: o desafio de romper a barreira da imagem

Marcos Rogério chega novamente à disputa pelo Governo de Rondônia depois da experiência de 2022. Naquela eleição, avançou ao segundo turno contra Marcos Rocha, mas acabou derrotado.

Sua principal força política continua sendo a identificação com o eleitorado conservador e, principalmente, com o bolsonarismo. Em um estado onde Jair Bolsonaro conquistou votação expressiva na eleição presidencial de 2022, essa associação representa um patrimônio eleitoral importante.

Mas também revela uma questão que merece atenção: até que ponto Marcos Rogério consegue transformar a força eleitoral de Bolsonaro em votos para sua própria candidatura?

Esse talvez seja um dos grandes desafios de sua campanha.

Ponto vulnerável

Ao longo dos últimos anos, Marcos Rogério passou a enfrentar uma percepção negativa em parte do eleitorado, que o associa a características como arrogância, prepotência e pouca empatia.

É importante destacar que percepção pública não significa necessariamente realidade pessoal. Pessoas que convivem com o senador costumam descrevê-lo de maneira diferente, como alguém simples e acessível.

O problema eleitoral, entretanto, não está apenas em quem o candidato é, mas principalmente em como ele é percebido pelo eleitor.

Marcos Rogério possui um estilo mais reservado. Sorri pouco, mantém postura séria e sua maneira de falar, vestir-se e se comportar publicamente pode transmitir uma imagem de distanciamento.

Curiosamente, Marcelo Vitorino, hoje responsável pela estratégia de marketing de Rogério, participou de movimentos políticos anteriores que contribuíram para consolidar uma imagem negativa do senador perante parte do eleitorado.

Agora, a missão é inversa.

Vitorino terá de trabalhar justamente para humanizar Marcos Rogério, aproximá-lo do eleitor e substituir a imagem de político distante pela de um candidato mais acessível, carismático e próximo das pessoas.

Será um verdadeiro trabalho de reconstrução de imagem.

As urnas mostrarão se essa estratégia conseguirá romper uma resistência construída ao longo dos últimos anos.

Hildon Chaves: forte na capital, desafiado pelo interior

Hildon Chaves possui uma trajetória política peculiar. Ex-promotor de Justiça, entrou na política eleitoral e conseguiu chegar à Prefeitura de Porto Velho, sendo eleito e posteriormente reeleito.

Seus dois mandatos deixaram marcas visíveis na capital.

Sua administração investiu em pavimentação, infraestrutura urbana e entregou uma nova rodoviária. Também enfrentou problemas históricos relacionados ao transporte coletivo e ao transporte escolar.

Na saúde, entretanto, sua gestão não conseguiu construir um legado com a mesma força política e administrativa percebida em outras áreas.

Hildon entra na eleição estadual carregando justamente seu principal patrimônio: Porto Velho.

A tendência é que tenha desempenho expressivo na capital. O problema começa quando a campanha ultrapassa os limites de Porto Velho.

Ponto vulnerável

O maior desafio de Hildon está no interior.

Historicamente, parte considerável do eleitorado das cidades interioranas de Rondônia possui comportamento conservador e forte identificação regional. Muitas vezes existe resistência aos candidatos identificados excessivamente com a capital.

Mesmo contando com uma composição política destinada a ampliar sua presença fora de Porto Velho, Hildon precisará construir uma identificação que ainda não possui em diversos municípios.

Sua campanha deverá apostar fortemente em duas armas: os debates e a propaganda eleitoral.

Hildon tem experiência administrativa e boa capacidade de argumentação, características que podem ganhar peso nos confrontos diretos entre os candidatos.

Na televisão, no rádio e principalmente nas redes sociais, deverá utilizar as realizações de seus oito anos como prefeito para apresentar Porto Velho como uma espécie de vitrine de sua capacidade administrativa.

O desafio será convencer o eleitor do interior de que aquilo que realizou na capital pode ser reproduzido em todo o estado.

Se conseguir ampliar significativamente sua votação fora de Porto Velho e alcançar o segundo turno, uma nova eleição começa. Nesse cenário, sua experiência administrativa e a força eleitoral da capital podem ganhar peso ainda maior.

Adailton Fúria: crescimento rápido e o desafio da maturidade política

Adailton Fúria representa uma geração mais jovem entre os principais candidatos ao Governo de Rondônia.

Sua trajetória política foi construída rapidamente. Passou pela Câmara Municipal, Assembleia Legislativa e Prefeitura de Cacoal, onde conseguiu consolidar uma base eleitoral extremamente forte.

Na reeleição municipal, conquistou vitória esmagadora, superando 80% dos votos válidos.

Como prefeito, adotou medidas de forte impacto popular.

Na saúde, investiu na ampliação da estrutura municipal, embora a manutenção desses serviços dependa também da capacidade de articulação para obtenção de recursos externos.

Fúria também enfrentou o processo de privatização do serviço de água e esgoto em Cacoal, implantou transporte coletivo gratuito e, por meio de parcerias políticas e emendas parlamentares, estruturou serviços para atender pacientes que precisam viajar até Porto Velho.

São iniciativas que lhe deram visibilidade e ajudaram a construir a imagem de gestor realizador.

Mas administrar um município e disputar o comando de um estado são desafios de dimensões completamente diferentes.

Ponto vulnerável

O principal obstáculo de Fúria pode estar no próprio estilo de liderança.

Ele possui personalidade forte, comportamento centralizador e costuma reagir diretamente quando contrariado.

Na política municipal, essa característica pode até ser interpretada como determinação. Em uma estrutura estadual, entretanto, pode se transformar em problema.

Governar Rondônia significa administrar dezenas de secretarias e órgãos, negociar permanentemente com Assembleia Legislativa, bancada federal, prefeitos, empresários, servidores e diferentes setores da sociedade.

Nenhum governador consegue centralizar todas as decisões.

Fúria precisará demonstrar que consegue delegar responsabilidades, formar equipes qualificadas e cobrar resultados sem necessariamente assumir pessoalmente cada conflito.

Também precisará administrar melhor o temperamento.

Fazendo uma comparação bíblica, às vezes Fúria lembra Pedro: diante de uma provocação, parece disposto a sacar a espada e cortar a orelha de quem estiver pela frente.

Na política estadual, entretanto, será necessário trocar a espada pela capacidade de articulação.

Seu outro grande desafio chama-se Porto Velho.

Se Hildon precisa conquistar o interior, Fúria precisa fazer o caminho inverso: entrar eleitoralmente na capital.

Porto Velho concentra parcela decisiva do eleitorado rondoniense. Portanto, não basta Fúria construir vantagem em Cacoal e obter bom desempenho nas cidades do interior. Ele precisa alcançar votação competitiva na capital.

Essa provavelmente será uma das batalhas decisivas de sua campanha.

Expedito Júnior: o personagem que continua atravessando gerações

Ao analisar Marcos Rogério, Hildon Chaves e Adailton Fúria, existe um personagem que inevitavelmente aparece no pano de fundo da política rondoniense: Expedito Júnior.

O tempo passou, novas lideranças surgiram e diferentes grupos ocuparam o poder. Mesmo assim, Expedito continua sendo personagem recorrente nas articulações políticas do estado.

Chamado por muitos de “mago da política”, ele possui relação direta ou indireta com a trajetória dos três nomes hoje colocados entre os protagonistas da disputa.

Marcos Rogério teve em Expedito um importante aliado em momentos decisivos de sua caminhada política.

Hildon Chaves também contou com a participação do grupo de Expedito em sua trajetória eleitoral até chegar à Prefeitura de Porto Velho.

Adailton Fúria, por sua vez, teve sua ascensão acompanhada de perto pelo grupo político ligado à família Expedito, inicialmente pela relação com Expedito Netto e posteriormente pela aproximação com Expedito Júnior.

É por isso que, utilizando uma metáfora política, pode-se dizer que Expedito Júnior é uma espécie de “pai político” de personagens que hoje disputam o protagonismo estadual.

A ironia da política é justamente essa.

Os antigos padrinhos ajudam a construir novas lideranças. As novas lideranças crescem, conquistam independência e, em determinado momento, passam a disputar entre si o espaço que antes pertencia aos seus próprios articuladores.

Expedito Júnior talvez seja um dos exemplos mais interessantes desse fenômeno em Rondônia.

Pode não estar entre os três nomes centrais desta disputa pelo Governo, mas continua presente na história política de todos eles.

E isso demonstra que, em Rondônia, algumas lideranças podem até sair temporariamente das urnas — mas dificilmente saem do tabuleiro.

ESSA AULA E ANÁLISE SÃO GRATUITAS.

Acordado desde as 3h da manhã, dá trabalho, espero que aproveitem a leitura e analise.

Jair Montes - O único cientista político de Rondônia.


Fale conosco