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porto velho, sexta-feira 2 de outubro de 2026

Antigamente era assim: quando o trem apitava na Estação da Madeira-Mamoré, a cidade ainda dormia ou começava a acordar. Havia pouca luz nas ruas e nas casas. Dormia-se com as janelas abertas, e quase não havia registro de criminalidade.
Asfalto, nem se falava. E, no reino dos lares, o respeito aos pais, a paz e o sorriso faziam folia.
Porto Velho não era muito mais do que isso: uma cidade pequena e pacata, uma linha de ferro e barcos subindo e descendo o rio Madeira, levando e trazendo esperanças. “Lá pras bandas de cima”, como diria o caboclo, transportavam-se borracha, sernambi, poaia e castanha. Eita tempo de cabra macho!
O cenário amazônico, de belezas naturais, tinha o tom forte das matas virgens, onde o bicho-preguiça, de quando em vez, se esgueirava por uma árvore qualquer, desafiando o tempo e o trabalho.
Papagaios, araras e curicas, em bandos, confundiam-se com o verde da floresta. Bastava sair dos limites da cidade, que ficavam ali pelas imediações do Mercado do Km 1, e logo surgiam, sob o embalo solto das espécies em festa: o caititu, o veado — da selva, é claro —, a anta, o tatu, a cotia, a paca e, de quebra, algumas sucuris e a “papagaia”, a famosa cobra voadora.
Dos índios nem se fala! Aqui e acolá, lá para os lados de Periquitos e Arara, na Estrada de Guajará, ouvia-se falar de uma flechada certeira, de um grito no mato, de um homem no chão, do ranger de dentes e da tristeza pela dor do herói que se foi.
Não obstante os índios e a bicharada sempre em festa, Porto Velho era um pouso de ternuras, no qual o santuário sagrado era a própria família.
Tempos bons aqueles, quando se curtiam, em delírio, as manhãs de sol na quadra do Ferroviário e os filmes do Cine Resky. No Estádio Aluízio Ferreira, ferviam as rivalidades entre as torcidas do Moto Clube, Flamengo, Botafogo, São Domingos, Vasco, Cruzeiro, “Ferrim” e Ipiranga...
Lembranças do Colégio Dom Bosco e das meninas do Colégio Maria Auxiliadora, a desfilarem de azul e branco, bonitas e puras como as águas no tempo do inverno. Da Escola Samaritana, onde passei a infância, hoje fechada, sem protesto. Do Danúbio Azul, do Bancrévea, clube da elite, onde aportava, em puro linho, a fina flor da “rapiocagem” da época.
Da Casa Saudade, o ponto chique da moda. Na hora do almoço, Ronaldo Medeiros apresentava o teatrinho infantil pelas ondas da Rádio Caiari. E, nas manhãs e tardes dos dias de semana, lá estavam, a postos diante do microfone, Antônio Fonseca, Edinho Marques, José Bonifácio e Luiz Augusto, enchendo os lares porto-velhenses com suas verves musicais. Como era bom!
Saudades do Porto Velho Hotel, hoje Unir Centro. Dos encontros estudantis, da litorina e dos cassacos; dos banhos de igarapé; do catecismo do padre Mário, bravo à beça. Do pioneirismo dos jornais “O Alto Madeira” e “O Guaporé”. Os fatos viravam notícia em cima da pinta, apesar da incipiência daquele momento.
Memórias das missas de domingo na Catedral, dos fantásticos sermões de Dom João Batista Costa e do sacristão “Beleza”, batendo o sino e induzindo a garotada a assistir à missa quieta.
Das festas de gala, da calça de linho branco, engomada, estalando; da Baixa do União e do time do União, que depois se tornou Botafogo Futebol Clube, onde meu pai, seu Ary do Carmo, era um dos dirigentes, deixando marcas cravadas no esporte das multidões.
Lembremos do primeiro conjunto musical: João Miguel, no sax; Manga Rosa, no trombone; e Adamor, na bateria. Do Supermercado Teixeira, o primeiro da cidade, e do seu Teixeira, ali, à porta, recepcionando os clientes com ternura. Tudo passou célere, mas era um mundo de sonhos.
Veio a ambição. O ouro, a cassiterita, a madeira, os homens de todos os lados, feitos andorinhas de arribação. A dobra dos costumes e o costume da dobra. O “convento” da Anita voava. Com o tempo, tantas “Anitas” apareciam e desapareciam. Era a dança da modernidade porto-velhense.
E a Porto Velho de hoje, desprezada pela “desgovernança”, acabrunhou-se. Virou o fel, o feio, o azedo, o ciúme, o enxofre, o passo, a senda; a capital que mudou para pior. Ave Maria!
Com a violência — assaltos, roubos, furtos, sequestros, maus costumes, drogas e vícios de toda ordem —, hoje somos praticamente prisioneiros dos nossos próprios lares. As grades de nossas casas já lambem o teto do céu. Nos quintais, feras adestradas e famintas estão prontas para devorar.
Porto Velho, hoje, sem o amor dos governantes, é o medo, é o tiro, mais um estampido no escuro, mais uma vida que se foi.
É a pressa, os acidentes no trânsito e a dor nos hospitais. Gente, quanta gente! Que multidão que vai e que vem. Um pouco de muito, um muito de nada. O ambiente tenso, pesado, chumbado, pintado com as cores horrendas do drama social.
E tudo isso é obra da ambição dos incautos, que vai trazendo coisas e levando outras. Trazendo as coisas dos homens, levando as coisas de Deus. Solapando um pouco da ternura da velha Porto Velho e deixando-a ali, enganchada no carretel e na pipa de nossa imaginação, em algum lugarzinho do céu.
Deixando-nos órfãos, sentados, chupando o dedo e curtindo a perplexidade. Lembrando, com saudade, da Porto Velho de ontem e correndo, com medo, dos marginais, protagonistas das cenas de horror da Porto Velho de hoje.
Que pena! Porto Velho de ontem, nunca mais!
AMÉM!