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porto velho, quarta-feira 28 de outubro de 2026

PORTO VELHO, RO - Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá, o programa A Voz do Povo desta quarta-feira (28/10) recebeu o superintendente da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (Fiero), Gilberto Baptista, para uma análise do desempenho industrial em 2026, dos resultados econômicos alcançados pelo estado e dos desafios que o setor produtivo deverá enfrentar nos próximos anos.
Durante a entrevista, o dirigente destacou o crescimento da indústria rondoniense, a expansão das exportações e a geração de empregos, mas também fez alertas sobre os efeitos das decisões políticas nacionais na competitividade das empresas, especialmente diante da redução da jornada de trabalho, do fim da escala 6x1 e da implementação da reforma tributária.
Ao avaliar o cenário econômico estadual, Baptista afirmou que Rondônia conseguiu apresentar resultados positivos mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelos empresários brasileiros. Segundo ele, o desempenho industrial pode ser medido por três indicadores fundamentais: consumo de energia elétrica, faturamento das empresas e geração de empregos.
"Arimar, o ano não foi ruim. Crescemos bastante. A indústria rondoniense cresceu ainda, mesmo diante das dificuldades que nós temos", declarou.
O superintendente explicou que o crescimento simultâneo desses indicadores representa um sinal importante de fortalecimento da atividade produtiva. Em 2026, conforme sua avaliação, os três apresentaram evolução positiva, acompanhados também pelo desempenho das exportações.
Um dos principais destaques apresentados durante a entrevista foi o comércio exterior. De acordo com Baptista, Rondônia já se aproximava da marca de US$ 3 bilhões em exportações, considerando os resultados disponíveis até setembro. A expectativa é de que o estado encerre o ano com vendas internacionais entre US$ 3,4 bilhões e US$ 3,5 bilhões.
Entre os produtos de maior participação na pauta exportadora estão a carne bovina, com aproximadamente US$ 1 bilhão, a soja, com valor próximo de US$ 1 bilhão, e o café, que já alcançou US$ 120 milhões. O dirigente também mencionou exportações superiores a US$ 100 milhões em minérios e próximas de US$ 60 milhões em madeira.
Além desses segmentos, Rondônia comercializa mais de 100 produtos no mercado internacional, demonstrando a diversidade de sua atividade econômica.
Apesar dos resultados positivos, Baptista chamou atenção para os obstáculos logísticos que ainda limitam a competitividade das empresas rondonienses. Segundo ele, parte significativa da produção destinada ao exterior precisa percorrer longas distâncias até os portos das regiões Sul e Sudeste.

Enquanto a soja e o milho utilizam rotas de escoamento por Itacoatiara e Santarém, a maior parte da carne produzida no estado segue para terminais portuários como Santos, Paranaguá e Itajaí.
O dirigente também destacou a utilização de rotas terrestres para o mercado peruano, especialmente por meio da ligação entre Porto Velho, Acre e a fronteira com o Peru. Nesse percurso, citou operações comerciais envolvendo produtos frigoríficos e pescado produzido em Ariquemes.
A questão logística ganhou relevância na discussão sobre competitividade, uma vez que os custos de transporte representam um desafio adicional para as indústrias instaladas em Rondônia.
Ao abordar os segmentos que mais avançaram em 2026, o superintendente apontou o crescimento das indústrias frigorífica, de nutrição animal e de mineração. O setor de grãos conseguiu manter seu nível de atividade, enquanto a construção civil apresentou estabilidade, apesar das dificuldades acumuladas nos últimos anos.
Para 2027, a expectativa apresentada é de recuperação mais consistente da construção civil.
Entretanto, foi no debate sobre as mudanças na legislação trabalhista que a entrevista ganhou maior dimensão política e econômica.
Baptista demonstrou preocupação com os impactos da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6x1, medidas discutidas no cenário político nacional e que, segundo sua avaliação, exigirão adaptações importantes das empresas.
O dirigente afirmou que os efeitos serão diferentes conforme o porte e a atividade econômica de cada estabelecimento. Nas indústrias que já concentram suas atividades entre segunda e sexta-feira, a adaptação poderá ocorrer principalmente na organização da jornada diária. Já nos pequenos negócios que funcionam aos sábados e domingos, a necessidade de reorganizar escalas e contratar trabalhadores poderá elevar significativamente os custos.
Como exemplo, mencionou as padarias, que precisam manter o atendimento durante toda a semana e dependem de equipes organizadas em diferentes turnos.
Segundo Baptista, a redução gradual da jornada poderá provocar um impacto de aproximadamente 10% na folha de pagamento até o final de 2027. Em empresas nas quais os salários representam entre 20% e 30% dos custos operacionais, esse aumento poderá corresponder a uma elevação de 2% a 3% no custo total.
O superintendente ressaltou que esse percentual pode parecer pequeno isoladamente, mas ganha importância quando considerado o baixo nível das margens de lucro de determinadas atividades industriais.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de a mudança trabalhista representar uma promessa eleitoral, Baptista ponderou que a discussão sobre a redução da jornada existe há décadas, embora tenha ganhado velocidade durante o período eleitoral.
"Não é que foi uma promessa eleitoreira, essa PEC está lá já há vários anos tramitando", afirmou.
Na sequência, explicou que a tramitação foi acelerada no contexto das eleições, mas defendeu que qualquer alteração precisa considerar as condições econômicas das empresas brasileiras.
Para o dirigente, o direito ao descanso dos trabalhadores é legítimo, porém deve ser acompanhado de uma avaliação dos custos que serão absorvidos pelo setor produtivo.
"Nós temos uma insegurança jurídica, nós temos um custo logístico adicional das outras empresas do resto do mundo, principalmente a da OCDE, e isso vai tirar cada vez mais a competitividade", alertou.
Baptista também levantou a possibilidade de empresários reconsiderarem investimentos ou optarem por outras atividades econômicas diante do aumento sucessivo das despesas operacionais.
Ao ser perguntado sobre o risco de fechamento de empresas, evitou atribuir essa possibilidade exclusivamente à redução da jornada. Segundo ele, a preocupação está na soma de diferentes fatores que pressionam os negócios, incluindo os custos logísticos, as mudanças tributárias e as novas obrigações trabalhistas.
A reforma tributária foi outro ponto central da entrevista. O superintendente afirmou que as indústrias beneficiadas por incentivos fiscais em Rondônia precisarão acompanhar atentamente as mudanças previstas para os próximos anos, especialmente diante dos efeitos mais intensos esperados a partir de 2028.
A preocupação envolve a capacidade de adaptação das empresas instaladas no estado e a preservação de condições competitivas em relação a outras regiões brasileiras.
Nesse contexto, Baptista defendeu atenção especial aos pequenos empreendimentos, que possuem menor capacidade financeira para absorver aumentos de custos ou reorganizar rapidamente suas operações.
"Empreender no Brasil é um desafio, é desafiador empreender no Brasil, principalmente para esses negócios menores", declarou.
O dirigente manifestou expectativa de que a regulamentação das mudanças trabalhistas estabeleça mecanismos capazes de reduzir os impactos sobre as pequenas empresas, incluindo a possibilidade de um período de transição mais amplo.
A discussão também mostrou a relação direta entre decisões tomadas em Brasília e seus efeitos sobre a economia de Rondônia. Embora o estado tenha apresentado crescimento industrial, aumento das exportações e evolução na geração de empregos, o representante da Fiero ressaltou que a manutenção desses resultados dependerá da capacidade de adaptação das empresas às novas condições econômicas e regulatórias.
Ao longo da entrevista, Gilberto Baptista apresentou um cenário de crescimento acompanhado de preocupações estruturais.
De um lado, Rondônia amplia sua presença no comércio internacional e fortalece segmentos importantes de sua indústria. De outro, enfrenta custos logísticos elevados, mudanças tributárias e a perspectiva de novas despesas trabalhistas.
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