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    porto velho, sexta-feira 30 de outubro de 2026

Suamy Lacerda critica perda de autoridade dos professores e aponta crise na educação

Ex-secretário de Educação questiona interpretações da legislação, relata conflitos entre famílias e educadores e defende o resgate da autoridade docente diante...


Redação

Publicada em: 30/10/2026 14:04:30 - Atualizado

Foto: Rondonoticias

PORTO VELHO, RO - Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá, o programa A Voz do Povo desta sexta-feira (30/10) recebeu o ex-secretário de Estado da Educação, professor Suamy Lacerda, para uma discussão sobre os desafios do ensino em Rondônia, a perda de autoridade dos professores, a indisciplina nas escolas e o papel das famílias na formação dos estudantes. Durante a entrevista, o educador apresentou críticas à maneira como determinados direitos são interpretados no ambiente escolar e relatou situações vivenciadas ao longo de sua trajetória na educação pública.

Com experiência na administração educacional de Rondônia e mais de nove anos na direção da Escola Estadual João Bento da Costa, em Porto Velho, Suamy defendeu a necessidade de reavaliar a relação entre alunos, professores, famílias e instituições responsáveis pela proteção dos direitos de crianças e adolescentes.

Um dos pontos centrais da entrevista foi a avaliação de que a escola perdeu parte de sua capacidade de estabelecer limites e exigir o cumprimento de regras. Na interpretação do ex-secretário, mudanças ocorridas após a Constituição Federal de 1988, associadas à aplicação de dispositivos legais de proteção aos estudantes, contribuíram para modificar a autoridade dos profissionais da educação.

Ao ser questionado por Arimar sobre um possível desequilíbrio entre direitos e deveres, Suamy apresentou uma avaliação contundente.

Foto: Rondonoticias

“Na realidade, o dever não existe mais, tecnicamente não existe”, afirmou.

A declaração foi feita no contexto de sua crítica às dificuldades enfrentadas pelas escolas para aplicar medidas disciplinares e responsabilizar estudantes por comportamentos inadequados.

O ex-secretário argumentou que a preocupação em garantir a permanência dos alunos nas instituições de ensino nem sempre vem acompanhada, em sua avaliação, de mecanismos eficazes para assegurar a participação nas atividades pedagógicas.

“A escola meio que virou um depósito de seres humanos”, declarou, ao criticar situações em que estudantes permanecem no ambiente escolar sem necessariamente acompanhar as aulas.

A afirmação expressa a avaliação do entrevistado sobre a realidade educacional e não representa uma conclusão técnica sobre todas as instituições de ensino.

Constituição de 1988 e autoridade dos professores entram no debate

Durante a entrevista, Arimar questionou em que momento os professores teriam perdido parte da autoridade que exerciam dentro das salas de aula.

Foto: Rondonoticias

Suamy relacionou essa transformação à interpretação de normas estabelecidas após a redemocratização brasileira, especialmente a Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

“A partir de 88, a partir da interpretação da Constituição de 88, a partir do ECA, a partir de muitos instrumentos que são mal interpretados pelos operadores do direito”, respondeu.

O professor também recordou o período da ditadura militar, quando educadores enfrentavam restrições à liberdade de expressão e à abordagem de determinados conteúdos em sala de aula.

Segundo sua análise, a ampliação das garantias individuais representou uma mudança importante, mas a aplicação de algumas dessas normas teria produzido conflitos na relação entre professores, estudantes e responsáveis.

O ex-secretário criticou especialmente situações em que denúncias apresentadas por familiares resultam em procedimentos contra educadores antes do completo esclarecimento dos acontecimentos.

Na avaliação dele, esse cenário pode comprometer a segurança profissional dos docentes e dificultar a manutenção da disciplina.

Embora Suamy tenha associado essas dificuldades à interpretação da legislação, a Constituição e o ECA também estabelecem deveres e responsabilidades, além de garantias fundamentais aos estudantes.

Famílias ausentes e dificuldades para manter a disciplina

Outro assunto que ganhou destaque foi a participação dos pais na vida escolar dos filhos.

Suamy relatou que, durante o período em que dirigiu a Escola João Bento da Costa, enfrentava dificuldades para conseguir a presença dos responsáveis quando surgiam problemas envolvendo estudantes.

Segundo ele, de cada dez famílias convocadas, apenas duas ou três compareciam, enquanto as demais alegavam impossibilidade de participar das reuniões.

O ex-secretário reconheceu que fatores como trabalho e distância podem dificultar o acompanhamento escolar, mas também questionou a postura de responsáveis que, segundo sua experiência, deixam de investigar conflitos antes de defender os filhos.

Para o educador, a ausência de diálogo entre família e escola prejudica o trabalho pedagógico e pode contribuir para o agravamento de problemas disciplinares, especialmente durante a adolescência.

Ele também relembrou práticas adotadas em décadas anteriores, quando estudantes com problemas de comportamento eram encaminhados à direção e o retorno às atividades poderia depender da presença dos pais.

Na avaliação do professor, as dificuldades atuais para aplicar determinadas medidas exigem uma discussão mais ampla sobre os instrumentos disponíveis às instituições de ensino.

Professor denunciado após corrigir redação com 49 erros

Um dos episódios relatados por Suamy durante a entrevista envolveu um professor de Porto Velho que teria sido denunciado após corrigir uma redação escolar.

Segundo o ex-secretário, o educador identificou 49 erros no texto de um estudante e registrou uma orientação para que ele melhorasse seu desempenho.

A correção, conforme o relato, motivou uma reclamação apresentada pelo pai do aluno ao Ministério Público, incluindo uma pretensão de indenização.

Suamy afirmou que precisou comparecer ao órgão para prestar esclarecimentos sobre o episódio, ocorrido durante sua atuação como diretor escolar.

O caso foi mencionado como exemplo das situações que, em sua avaliação, demonstram a dificuldade enfrentada pelos professores para exercer atividades pedagógicas sem que suas orientações sejam interpretadas como constrangimento.

O ex-secretário também defendeu que eventuais reclamações sejam inicialmente encaminhadas aos setores responsáveis pela administração escolar, evitando confrontos diretos com professores durante as aulas.

Ele explicou que, quando dirigia a Escola João Bento da Costa, estabeleceu procedimentos para impedir interrupções das atividades pedagógicas por familiares que desejassem discutir problemas com docentes.

Nessas situações, os responsáveis deveriam procurar a orientação educacional, a supervisão ou a direção.

Para Suamy, a medida buscava preservar o ambiente de aprendizagem e evitar que desentendimentos comprometessem o trabalho dos professores e o atendimento aos demais estudantes.

Ministério Público e órgãos de controle também são questionados

A atuação das instituições responsáveis pela garantia dos direitos dos estudantes também foi abordada na entrevista.

Suamy afirmou que determinados procedimentos adotados a partir de denúncias podem gerar consequências para profissionais da educação antes que os fatos sejam completamente esclarecidos.

O ex-secretário relatou preocupação com situações em que acusações feitas por estudantes e familiares provocam conflitos administrativos e questionamentos sobre a conduta de professores.

Apesar das críticas, declarou perceber uma mudança na atuação de instituições de controle, mencionando o Ministério Público e o Tribunal de Contas de Rondônia.

O professor afirmou ter esperança de que esses órgãos contribuam para evitar injustiças e melhorar a análise de situações envolvendo a comunidade escolar.

Educação, responsabilidade e formação da sociedade

Ao longo da conversa, Arimar também destacou a importância histórica dos professores na formação profissional, intelectual e social da população.

Na abertura da entrevista, o apresentador apresentou uma reflexão sobre a valorização da docência, criticando o tratamento dispensado aos educadores e a falta de reconhecimento de sua contribuição para o desenvolvimento do país.

Suamy concordou com a importância da profissão e ressaltou que a formação de profissionais de diferentes áreas depende diretamente do trabalho realizado nas escolas.

“Não existe nenhum engenheiro, nenhum médico, nem ninguém, nenhum advogado, nem nada que não tenha passado por uma sala de aula”, afirmou.

O ex-secretário também defendeu que a educação deve preparar os estudantes para compreender direitos, deveres e responsabilidades na convivência social.

Em sua avaliação, a escola possui uma função que ultrapassa a transmissão de conteúdos, contribuindo para a formação de cidadãos capazes de compreender o funcionamento das instituições e as regras da vida em sociedade.

Ao relacionar educação e organização social, Suamy afirmou que o conhecimento e a formação dos indivíduos são fundamentais para prevenir conflitos e reduzir a necessidade de medidas coercitivas do Estado.

“Então a escola ensina para que o poder coercitivo nunca seja usado”, declarou.

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