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    porto velho, terça-feira 3 de novembro de 2026

“Estado falha com o povo”, diz advogado ao criticar destruição de dragas no Rio Madeira

Em entrevista ao programa A Voz do Povo, analista político defendeu a regulamentação da atividade garimpeira, cobrou resultados dos parlamentares eleitos...


Redação

Publicada em: 03/11/2026 14:18:43 - Atualizado

Foto: Rondonoticias

PORTO VELHO, RO - Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá, o programa A Voz do Povo desta terça-feira (03/11) recebeu Emanuel Nery, engenheiro, advogado e comentarista político, para uma entrevista marcada por análises sobre o futuro de Rondônia, os desafios dos representantes do estado no Congresso Nacional e os desdobramentos das eleições presidenciais. Durante a conversa, Nery defendeu mudanças na legislação mineral, criticou a destruição de equipamentos utilizados no garimpo e afirmou que o bolsonarismo perdeu espaço no cenário nacional, apesar da expressiva votação de Flávio Bolsonaro.

O debate começou pela situação dos garimpeiros que atuam no Rio Madeira, especialmente após operações de combate à mineração ilegal que resultaram na destruição de dragas e outros equipamentos. Para Emanuel Nery, a atividade está diretamente ligada à formação histórica e econômica de Rondônia, o que exige uma resposta do poder público que vá além das ações repressivas.

"A atividade garimpeira faz parte da identidade cultural do nosso povo", afirmou.

Segundo o entrevistado, a regulamentação permitiria incorporar à economia formal recursos que atualmente circulam fora dos mecanismos legais, além de assegurar melhores condições de sobrevivência às famílias que dependem da extração mineral.

Nery também destacou que existem alternativas técnicas para reduzir os impactos ambientais da exploração do ouro e defendeu a criação de mecanismos de financiamento destinados aos trabalhadores organizados em associações e cooperativas.

Na avaliação do comentarista, a ausência de uma política eficiente de regularização contribui para a continuidade da clandestinidade e dificulta a fiscalização das atividades.

"Eu já há tempos defendo, Arimar, a questão da regularização da atividade garimpeira no nosso estado", declarou.

Foto: Rondonoticias

Ao abordar a destruição de máquinas durante operações de fiscalização, o entrevistado questionou a necessidade de inutilizar equipamentos que poderiam ser apreendidos e destinados ao serviço público.

"Eu vou destruir um patrimônio que pode servir o coletivo?", indagou.

Como exemplo, Nery mencionou uma operação realizada na região da Ponta do Abunã, na qual a Prefeitura de Porto Velho conseguiu recolher equipamentos que seriam destruídos, permitindo sua utilização em atividades municipais.

Para ele, a experiência demonstra que o aproveitamento de bens apreendidos pode representar uma alternativa, desde que observados os procedimentos legais.

A discussão ganhou contornos políticos quando o entrevistado abordou a manifestação dos senadores eleitos Fernando Máximo e Bruno Scheid contra a forma como as operações de combate ao garimpo vêm sendo conduzidas.

Embora tenha considerado importante o posicionamento dos parlamentares, Emanuel Nery ressaltou que manifestações públicas precisam ser acompanhadas de iniciativas concretas no Congresso Nacional.

"O Bruno Scheidt, que foi eleito nessa eleição, ele tem que mostrar serviço. Vai ter que entrar mostrando serviço", afirmou, em referência ao novo mandato parlamentar.

Na sequência, cobrou articulação política para modificar as normas que disciplinam a exploração mineral no Brasil.

"Tudo bem, pegar o microfone na tribuna do Senado e falar e bradar é importante, mas mais importante do que isso é preparar projeto de lei, é preparar proposta de alteração da Constituição, se for preciso", declarou.

Nery também questionou a atuação da Agência Nacional de Mineração e criticou mecanismos que, segundo sua avaliação, permitem o bloqueio de áreas por meio de requerimentos especulativos, impedindo o aproveitamento de recursos minerais.

Para o entrevistado, o debate precisa resultar em mudanças estruturais capazes de conciliar proteção ambiental, atividade econômica, geração de empregos e arrecadação de impostos.

Ainda no cenário rondoniense, a entrevista abordou as expectativas em torno do novo governo estadual, que será comandado por Marcos Rogério. Arimar Souza de Sá levantou questionamentos sobre a mudança de postura atribuída ao governador eleito durante a campanha, especialmente em relação à aproximação com o eleitorado e à necessidade de demonstrar humildade no exercício do poder.

O apresentador destacou que a avaliação definitiva dessa mudança dependerá das atitudes adotadas pelo futuro governador e, principalmente, de sua capacidade de enfrentar os problemas da população. O tema foi apresentado como um dos principais desafios políticos do novo ciclo administrativo em Rondônia.

Ao ampliar a análise para o cenário nacional, Emanuel Nery avaliou os efeitos da eleição presidencial e apontou um enfraquecimento do bolsonarismo, mesmo diante da votação expressiva alcançada por Flávio Bolsonaro.

"No Brasil, eu acho que quem perdeu espaço foi o bolsonarismo", afirmou.

De acordo com o comentarista, o resultado abriu espaço para setores da direita que não mantêm compromisso direto com o movimento liderado pela família Bolsonaro.

Ele relatou conversas com empresários que se identificam politicamente com a direita, mas demonstram resistência ao bolsonarismo, comportamento que, em sua interpretação, pode influenciar a reorganização das forças conservadoras nos próximos anos.

Outro ponto de destaque foi a controvérsia envolvendo a atuação do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral durante o segundo turno.

Questionado sobre a participação do ministro Cristiano Zanin em uma decisão relacionada à prorrogação da votação, Nery considerou equivocada a atuação do magistrado, mas também criticou a postura de Cássio Nunes Marques diante do episódio.

"Eu acho que a atuação do Cristiano Zanin foi errada, mas mais errada do que a atuação dele foi a atuação do Cássio Nunes Marques", declarou.

Apesar das críticas, o comentarista rejeitou a interpretação de que o episódio teria alterado o resultado da disputa presidencial. Durante a entrevista, ele argumentou que o número de votos registrados após o horário originalmente previsto não seria suficiente para modificar o desfecho eleitoral.

A polarização política também ocupou parte importante da conversa. Nery condenou manifestações de intolerância praticadas por integrantes de diferentes correntes ideológicas, especialmente episódios de boicote a empresas e trabalhadores por suas preferências eleitorais.

"E aí, Arimar, do mesmo jeito que fala o líder, falam os liderados, dos dois lados. Esse problema, ele continua dos dois lados", observou.

O entrevistado defendeu que o respeito aos direitos individuais deve prevalecer independentemente das posições partidárias e criticou comportamentos que transformam divergências políticas em perseguições pessoais ou profissionais.

"Eu não posso dizer que ele tá certo só porque ele tá do lado que eu convenço", afirmou, ao defender critérios iguais de avaliação para adversários e aliados políticos.

Na avaliação de Emanuel Nery, a eleição presidencial foi definida principalmente pela rejeição aos candidatos, e não apenas pela identificação dos eleitores com seus respectivos projetos políticos.

"Ela foi resolvida no campo da rejeição. Muita gente não votou no candidato que quis", analisou.

Segundo ele, parte decisiva do eleitorado escolheu o candidato que considerava menos rejeitável, contribuindo para a vitória de Lula no segundo turno.

"Votou contra aquele que ele não queria de jeito nenhum", acrescentou.

Para o comentarista, esse comportamento ajuda a explicar a dinâmica da disputa presidencial e evidencia a dificuldade de superar a polarização que continua dividindo o país.

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