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porto velho, segunda-feira 16 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DE CARNAVAL
SAMBA-ENREDO IDEOLÓGICO E HOMENAGEM COM VERBA PÚBLICA
*Arimar Souza de Sá
Festa popular em que o homem se entrega à fantasia, o carnaval do passado era uma celebração sadia. Em Porto Velho, nem se diga. Pouca confusão, muita diversão — e, sobretudo, férias ao cansaço do corpo diante das agruras do cotidiano brutal.
Havia nas ruas uma leveza quase infantil, um clima voltado às emoções simples. As marchinhas embalavam o riso fácil, a folia se eternizava na memória, e o folião voltava para casa com os pés doloridos e a alma leve como pluma. O carnaval era o intervalo do povo — uma trégua com a dureza da vida.
Mas o tempo passou. Os ritmos mudaram, os palcos cresceram, os desfiles viraram espetáculos milionários. Vieram novas batidas, novas pautas, novos discursos. A festa se transformou — evolução para uns, descaracterização para outros. E, nesse processo, a essência parece ter se diluído entre luzes, dinheiro público, contratos e narrativas.
Hoje, a avenida já não exibe apenas arte, crítica social e irreverência — marcas históricas do samba. Tornou-se também campo de batalha simbólico. Escolas passaram a degradar figuras religiosas e políticas de forma frontal, por vezes agressiva, com alegorias grandiosas e encenações que dividem mais do que unem.
Ontem, na Sapucaí, a controvérsia ganhou novo capítulo. A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida homenagens explícitas ao presidente da República, críticas duras e caricaturais ao seu antecessor, personagens transformados em alegorias, Bozo preso e um refrão repetido à exaustão em rede nacional com o nome do homenageado.
Para uns, liberdade artística. Para outros, fé exposta ao escárnio, conservadores ridicularizados, evangélicos simbolicamente enlatados e uso ideológico de recursos públicos sambando na cara dos otários. Um combo de afrontas morais — e, quem sabe, legais.
A questão não é apenas estética. É jurídica e política. Quando o dinheiro público financia o espetáculo, até onde vai a liberdade criativa?
Onde termina a crítica e começa a propaganda — e a serviço de quem?
É admissível promoção pessoal com verba pública em ano eleitoral?
E a paridade de armas?
E se fosse o adversário?
Você decide!
O Judiciário Futebol Clube observa o flagrante abuso de poder econômico e o abuso de poder político, cujos institutos geram inelegibilidade e cassação de mandato. Agirá? Silenciará? Tratará tudo como arte? A sociedade, já exausta da polarização que atravessa famílias, igrejas e mesas de bar — e agora a própria avenida — reage como pode: Hora, com indignação, hora, com defesa apaixonada e às vezes em silêncio.
Para os que pensam, o carnaval deixou de ser catarse coletiva e virou extensão permanente do palanque — às custas do contribuinte. Confetes misturados a slogans. Samba-enredo com refrãos políticos. Brincantes fazendo gestos de ‘L’ e usando cores partidárias, como se a fantasia tivesse escolhido lado.
O riso agora tem lado? A folia veste partido?
Na quarta-feira de cinzas, o cidadão acordará com boletos vencidos no feriado. Paga impostos, enfrenta filas, suporta transporte precário e faz malabarismo para fechar o mês. Olha para a avenida iluminada com dinheiro público e se pergunta se assistiu a cultura popular — ou à campanha política financiada por ele.
Ora, o carnaval sempre foi espelho do Brasil. O problema é, quando o espelho reflete menos o povo e mais o poder — de quem está no poder. Aí lascou!
A avenida seguirá grandiosa. O Brasil, não! Porque a farra termina, os holofotes se apagam, a vida volta ao normal - mas a conta, feita por esses espertalhões, sem opção, você vai ter que pagar.
Lamentavelmente, AMÉM!
O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A Voz do Povo, da Rádio Caiari, 103,1.FM.