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porto velho, sexta-feira 13 de fevereiro de 2026

Crônica de Fim de Semana
Feminicídio: A sala de aula onde um “não” virou sentença de morte
*Arimar Souza de Sá
A sala de aula sempre foi território de luz. É ali que o conhecimento acende suas primeiras frestas, que a esperança entra pela porta da frente e o futuro se escreve, em letras firmes, no caderno dos que acreditam na vida transformada pelo saber.
Mas, em Porto Velho, na sexta-feira, 06/02, uma dessas salas virou trincheira de dor. O que deveria ser templo do conhecimento transformou-se em cenário de sangue. A professora Juliana Santiago, de 41 anos, foi assassinada com golpes de faca em pleno ambiente de aula, por ter ousado exercer o direito mais simples e sagrado: o de dizer “não” a um aluno que queria seu amor.
Ela era escrivã da Polícia Civil, mulher de distintivo e de cátedra. Carregava a lei de dia e a ensinava à noite. Premiada, respeitada, segundo quem a conheceu, exemplo para alunos e colegas, dessas pessoas que deixam rastros de dignidade por onde passam. Uma vida que era escudo e farol — e que tombou justamente onde a razão deveria florescer.
Este foi mais um caso em que o feminicídio deixou de ser número frio para virar punhal no coração da cidade. O crime não aconteceu num beco escuro ou nas quebradas, mas no altar do conhecimento. A violência entrou pela porta principal da faculdade sem ser revistada, e rasgou o livro da vida de quem ensinava justiça esmiuçando o Código Penal aos seus alunos.
Mas a morte da educadora não foi um raio isolado. Foi mais um trovão numa tempestade antiga que desaba todos os dias sobre o país. O Brasil parece ter se acostumado a contar mulheres mortas como quem vira páginas do calendário. E cada feminicídio é uma casa sem voz, uma família em ruínas, filhos órfãos de mãe, uma cidade com a alma ferida.
Não faz muito tempo, em Candeias do Jamari, outra professora também teve o destino selado pela violência doméstica. Depois de denunciar o marido agressor, voltou para casa e encontrou a própria sentença. Foi assassinada por ele dentro do lar que deveria ser abrigo. O pai dela, ao tentar defendê-la, também foi brutalmente espancado com uma perna manca. Duas gerações atingidas pela mesma brutalidade, num retrato cruel do que acontece quando a violência se instala dentro das paredes de casa.
Em Porto Velho, como em tantas outras cidades, a violência anda solta como cavalo bravo sem rédea. Qualquer contrariedade vira estopim — em casa, na faculdade ou no trânsito. Qualquer rejeição, sentença.Ora, quando o respeito sai de casa, a brutalidade entra e se senta no sofá. E quando a vida perde o valor, para um psicopata, um simples “não” pode virar condenação paga com a própria vida.
Aceitar isso calado é elogiar a omissão. Na correria do dia a dia, cada feminicídio ignorado é convite ao próximo. Cada silêncio coletivo é mais um tijolo no muro da barbárie que cresce ao redor da cidade.
Mas esta crônica precisa terminar com memória. Porque, antes de virar manchete, ela era exemplo. Antes de ser estatística, era professora de Direito Penal. Antes de ser vítima, era mulher de coragem. Era a policial que registrava o crime e a professora que ensinava a combatê-lo com a lei. Agora, naquele espaço marcado pela tragédia, o silêncio pesa como sentença. A cadeira vazia será sempre o retrato cruel de quem lutou para viver e teve a vida arrancada pela violência.
A faculdade, sem medidas básicas de segurança, jamais será a mesma e precisa se penitenciar. Afinal, nenhum lugar de ensino foi feito para receber sangue. Ele nasceu para acolher sonhos e guiá-los para o bem. E sonhos interrompidos pela violência deixam cicatrizes que nem o tempo consegue apagar.
Lamentavelmente,
AMÉM!
*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A Voz do Povo da Rádio Caiari FM, 103,1.