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    porto velho, quarta-feira 4 de março de 2026

A guerra EUA–Israel–Irã : neutralidade e interesse nacional - por Eliseu Muller

Essa enxurrada diária de notícias sobre essa guerra — verdadeiras, exageradas, distorcidas ou simplesmente falsas — o conflito deixa de ser apenas...


Eliseu Muller

Publicada em: 03/03/2026 16:07:03 - Atualizado

Foto: Reprodução

Não é figura de linguagem dizer que a guerra invade o sono — eu mesmo, depois de dias consumindo essa avalanche, acabei sonhando com o conflito, como se o Oriente Médio tivesse atravessado o travesseiro.

Essa enxurrada diária de notícias sobre essa guerra — verdadeiras, exageradas, distorcidas ou simplesmente falsas — o conflito deixa de ser apenas manchete e vira ruído permanente, ocupando cada intervalo da nossa vida comum. A guerra passa a morar no bolso, na tela, no almoço em família, no grupo de mensagens, no impulso raivoso de “tomar lado” como se isso fosse uma prova moral.

Percebo, que a escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, virou combustível perfeito para a pior mercadoria do debate público: a indignação fácil, vendida em prestações nas redes.

Vejo claramente, que no Brasil, essa guerra acionou condicionamentos: gente que se diz “patriota” ajoelhada ao alinhamento automático com Washington e Tel Aviv, e, na mesma linha, oportunistas que descobrem em Teerã um atalho para “lacrar” antiamericanismo. Para mim, essa gritaria revela uma coisa: desconhecimento da tradição diplomática brasileira, pela conciliação, pela legalidade e busca de negociação, não de idolatria geopolítica.

O Itamaraty, com razão, condenou os ataques e insiste que a saída viável é a negociação e o respeito ao direito internacional. Não é covardia: é método. Neutralidade não é lavar as mãos; é proteger vidas, interesses e a autonomia do país sem virar satélite de ninguém.

E há o fato incômodo que os palanqueiros, principalmente os de extrema direita, fingem não ver: Brasil e Irã mantêm relações diplomáticas desde 1903 — mais de um século de canais abertos, inclusive em momentos de turbulência mundial.

Para conhecimento, o comércio com o Irã, segundo dados da economia, em 2025, milho e soja dominaram as exportações brasileiras ao Irã; só o milho respondeu por 67,9% do total, com vendas acima de US$ 1,9 bilhão. E, do outro lado, fertilizantes (como ureia) entram na conta de custos do agro — o Brasil importou cerca de 7,7 milhões de toneladas de ureia em 2025, com parcela menor vinda do Irã, mas com o Oriente Médio como eixo sensível de oferta.

Até governos de perfil ideológico fizeram o que países adultos fazem: conversar. Bolsonaro foi à Rússia às vésperas da guerra da Ucrânia, e a então ministra Tereza Cristina viajou ao Irã para tratar de fertilizantes e ampliar comércio. Ou seja: pragmatismo existe quando a realidade aperta — por que desaparece quando a internet pede sangue?

A posição diplomática brasileira não deveria surpreender ninguém: nem “sim” automático aos aliados tradicionais, nem “não” performático para agradar plateia. O Brasil é grande demais para virar torcida organizada de guerra alheia — e pacífico demais para aceitar que nos empurrem para o lado de um míssil.

Foi dessa saturação que nasceu este texto: não para escolher heróis e vilões em tempo real, nem para reverenciar potência ou demonizar adversário, mas para lembrar o óbvio que anda proibido. O Brasil não é extensão emocional de Washington, de Tel Aviv ou de Teerã. Nossa tradição diplomática — por interesse e por convicção — é a do freio, do diálogo e do consenso. E, por mais que gritem, os extremistas, não deveriam esperar de nós outra coisa.


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