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porto velho, sábado 30 de maio de 2026
MUNDO: Agustina Viracachá espera há quatro meses por uma consulta com um especialista em uma EPS (Entidade Prestadora de Saúde). Várias vezes ela acordou de madrugada para ir ao hospital e implorar para que lhe dessem um horário, porque nem por telefone nem pelo site conseguem resolver o seu caso.
Agustina tem fortes enxaquecas, sofre de asma crônica e a cada dia se sente pior. Aos 77 anos, teme que sua saúde se deteriore antes de conseguir acesso a um médico que diagnostique sua condição e prescreva os medicamentos necessários.
Como Viracachá, milhares de colombianos têm sido testemunhas diretas do desgaste na prestação dos serviços de saúde.
A preocupação com a crise do sistema de saúde é um dos temas que os colombianos colocam como prioridade em pesquisas e sondagens de opinião sobre as eleições presidenciais. E também é, junto com a impossibilidade de conter a violência, uma das principais dívidas da administração do governo de Gustavo Petro, que, com as eleições do próximo domingo (31), começa a entrar em sua fase final.
“Já estou perdendo a esperança de ser atendida. A última consulta foi em outubro do ano passado e, desde então, tenho me sentido muito mal. Além disso, sinto dor em uma perna e quase não consigo mais caminhar”, conta Viracachá à CNN. “E os medicamentos não são entregues nas farmácias onde antes eu os recebia. Eu moro sozinha e dependo da pensão que meu esposo me deixou. E não me dá para comprar os medicamentos de que preciso do meu próprio bolso.”
Há pacientes que praticamente agonizam às portas de clínicas e hospitais, como no caso de Kevin Acosta, um menino de 7 anos que morreu esperando um medicamento para hemofilia.
Juan Carlos Giraldo, diretor da Associação de Clínicas e Hospitais, afirma que o problema está nos fundos que o governo deve às EPS, que o orçamento não é suficiente e que muitas instituições que prestam o serviço estão à beira da falência ou tiveram que fechar.
“Há muitas divergências sobre como deve ser a reforma. Este governo fez várias tentativas. Já se passaram mais de três anos em debates sobre reformas ao sistema de saúde. Duas reformas foram rejeitadas pelo Congresso por serem consideradas improcedentes, e atualmente essa reforma ainda está em debate, mas em estado zumbi”, diz Giraldo à CNN. “Ninguém sabe qual será o futuro dela. Mas o certo é que seja esta apresentada pelo governo ou outra que venha a ser apresentada pelo próximo, é preciso fazê-la. É inadiável, necessária e urgente para que o sistema de saúde saia da UTI.”
O governo aponta como responsáveis pela crise as EPS e afirma que muitas delas fizeram mau uso dos recursos destinados para subsidiar o setor de saúde.
Petro defende publicamente sua ideia de uma reforma da saúde que dependa mais do Estado e não de EPS privadas, e que estabeleça um sistema mais preventivo e focado nas regiões mais afastadas do país.
“Uma coisa é o estado financeiro das EPS, que todas são privadas, exceto três, e outra coisa é o estado de saúde do povo colombiano. Eu entendo que a imprensa tradicional da Colômbia confundiu os dois conceitos. O estado de saúde das pessoas se mede em taxas de morbidade e taxas de mortalidade”, disse Petro em uma entrevista à Caracol Rádio em 20 de maio.
Mas a área da saúde é apenas uma das reformas que Petro não conseguiu aprovar no Congresso. Em suas promessas de campanha também estavam a reforma da justiça, do sistema eleitoral, uma reforma política e uma reforma agrária, entre outras iniciativas que naufragaram no Legislativo.
“O presidente Petro não fez uma revolução porque, neste país, todas essas reformas que ele tentou fazer foram barradas pelas extrapolações que elas propunham. E a Constituição vigente permite fazer todas as transformações que Petro quis. O que acontece é que ele fez isso de forma errada”, disse à CNN Pedro Viveros, analista político.
“Ele começou o governo de maneira aberta, incluiu setores de diferentes correntes políticas e conseguiu aprovar leis importantes, incluindo uma reforma tributária. E, de repente, um dia rompeu a coalizão e decidiu governar apenas com seu grupo ideológico de esquerda. E isso lhe tirou as maiorias necessárias no Congresso para levar adiante suas iniciativas de reformas sociais, econômicas e políticas”, afirmou Viveros.
Alguns analistas destacam avanços em temas sociais, como a aprovação da reforma trabalhista, que deu maiores garantias aos trabalhadores e restabeleceu direitos como o pagamento de horas extras, apesar do fracasso de outras iniciativas que não conseguiram consenso no Congresso da República.
“Colocar na agenda nacional o tema social é um mérito de Gustavo Petro, ainda que tenha ficado pela metade em todas essas reformas ambiciosas que apresentou no início de seu mandato”, afirmou o analista político e colunista do jornal El Heraldo, Óscar Montes, em conversa com a CNN.
Outros especialistas consideram que este foi um governo de esquerda que se diferencia muito pouco dos governos de direita ou de centro-direita que ocuparam a Casa de Nariño no passado.
“Há muita polarização. E, na verdade, essa polarização foi tudo o que aconteceu na Colômbia. Na Colômbia nada mudou de forma estrutural, mas mudaram coisas que as pessoas não percebem. Esta foi uma batalha simbólica, uma batalha linguística”, afirma o cientista político e analista Hernando Gómez Buendía.
Os escândalos de corrupção que atingem vários de seus ex-funcionários, incluindo ministros e diretores de departamentos administrativos da presidência da República, e as investigações sobre o financiamento de sua campanha não passaram despercebidos pelo que o próprio Petro chamou de “governo da mudança”. Agora, o presidente promove a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, segundo ele, para acabar com esses problemas endêmicos do Estado.
“Foram quatro anos de um governo atacando todos os poderes na Colômbia. Brigou com ex-presidentes, com jornalistas, com associações empresariais. Era o presidente da República, eleito democraticamente, atuando como chefe da oposição. Gustavo Petro passou quatro anos fazendo oposição. E foi uma oposição com grande força retórica, muito discurso. Muito barulho e poucos resultados concretos”, conclui Gómez Buendía.
O presidente, no entanto, se orgulha de ter uma aprovação significativa de sua gestão em algumas pesquisas de opinião. O que, para muitos analistas, é o capital político com o qual conta o candidato presidencial Iván Cepeda, do partido governista Pacto Histórico.
“Agradeço ao povo colombiano, a ponto de chegar ao final do meu mandato, por ter a gestão do meu governo avaliada positivamente por 55% da população. Apenas López Obrador superou esse percentual ao final de seu governo. Despeço-me agradecido e reconhecido. É preciso aprofundar e continuar o projeto humano e progressista que desenvolvemos”, disse Petro em uma mensagem em sua conta oficial no X em 18 de maio, citando os resultados de uma pesquisa.
Apesar do balanço otimista de Petro, o primeiro governo de esquerda na história contemporânea da Colômbia se encontra em uma encruzilhada complexa, onde o discurso transformador entra em choque direto com variáveis macroeconômicas preocupantes, o ressurgimento da violência nas regiões e escândalos institucionais que têm minado sua governabilidade.
Luis Fernando Mejía, ex-diretor do Centro de Investigação Econômica e Social, acredita que o próximo presidente terá muitos desafios que podem complicar sua governabilidade. “Vai encontrar um país com finanças públicas tremendamente deterioradas. Ou seja, com muito pouca possibilidade de levar adiante uma plataforma programática para a qual esse presidente ou presidenta foi eleito.”
“E há dois elementos que evidenciam a gravidade da situação fiscal em termos históricos: o primeiro é o tamanho do déficit fiscal, que está próximo a 6,5% do Produto Interno Bruto, enquanto historicamente era de 3,5%. O segundo ponto é que isso é inédito, em uma economia que cresce pouco acima de 2%. E isso mostra a gravidade da situação fiscal que Petro deixa e que o próximo governo terá que enfrentar”, afirmou Mejía em diálogo com a CNN.
No campo da transição energética, outro dos pilares das promessas de Petro, a situação também é complexa. A orientação de reduzir a dependência dos hidrocarbonetos diminuiu o investimento estrangeiro direto no setor minerador-energético, sem que o país contasse com uma infraestrutura de substituição, reduzindo valiosas receitas do orçamento nacional por meio da estatal petrolífera Ecopetrol.
Como ponto positivo, o governo exibe uma redução histórica do desmatamento na Amazônia, em torno de 40%, e o sucesso diplomático de ter sediado a COP16 em Cali, em 2024. O balanço do governo de Petro evidencia, segundo analistas consultados pela CNN, a distância entre a retórica do ativismo político e a complexidade da administração do Estado.
Embora haja avanços setoriais na gratuidade da educação superior, na entrega de terras para que os agricultores possam cultivá-las e manter seu sustento familiar, e em métricas de conservação ambiental, o balanço geral é obscurecido pela instabilidade fiscal, pela paralisia dos serviços de saúde sob intervenção e por uma violência rural persistente.
Além disso, observa-se o crescimento das plantações ilícitas. A Colômbia é o principal produtor mundial de cocaína, representando quase dois terços da produção total do alcaloide, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.
A diferença no enfoque da guerra contra as drogas entre a administração do presidente Donald Trump e a de Petro esteve no centro do debate e gerou diversos desentendimentos entre os mandatários. Quem assumir no lugar de Petro em 7 de agosto terá que reformular as relações diplomáticas entre os dois países para enfrentar um inimigo comum: o narcotráfico.