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porto velho, sexta-feira 11 de setembro de 2026

MUNDO: O secretário de Estado americano, Marco Rubio, percorre nesta semana três países que formam um dos corredores mais estratégicos — e vulneráveis — da América do Sul.
Colômbia, Equador e Peru têm governos dispostos a se alinhar com Donald Trump e compartilham uma ameaça capaz de transformar afinidade ideológica em necessidade estratégica: o narcotráfico.
A viagem do secretário de Estado está sedimentando um arco de alianças ao longo do Pacífico andino, no qual o governo americano oferece inteligência, equipamentos, treinamento, investimentos e acesso político em troca de uma cooperação de segurança muito mais estreita.
A mudança mais espetacular ocorreu na Colômbia. Há apenas seis meses, o governo de Gustavo Petro não participou do lançamento do Escudo das Américas, a coalizão criada por Trump em março para enfrentar cartéis e organizações classificadas como narcoterroristas. Em junho, porém, o direitista Abelardo De La Espriella derrotou por pequena margem o esquerdista Iván Cepeda, candidato de Petro, e assumiu prometendo restaurar a segurança e recompor a relação com os Estados Unidos. Em Barranquilla, na terça-feira, Rubio anunciou o início de uma “época dourada” entre os dois países.
De La Espriella propôs um “Plano Patriota Século 21”, com modernização de aviões, helicópteros, radares, drones, sistemas antidrones, inteligência, defesa cibernética e treinamento de forças especiais. Prometeu voltar a fumigar plantações de coca e atacar laboratórios, rotas, chefes das organizações e lavagem de dinheiro.
Colômbia e Estados Unidos assinaram ainda acordos sobre minerais críticos e terras raras e cooperação nuclear civil. É uma reversão completa do período Petro: o país que durante décadas foi o principal parceiro de segurança dos EUA na América do Sul volta a reivindicar esse papel.
No Equador, Rubio encontrou uma aliança que não precisava ser reconstruída, mas aprofundada. Daniel Noboa já havia feito da aproximação com Trump um eixo de sua política externa e de segurança e participou do lançamento do Escudo das Américas.
Seu país representa um exemplo dramático do poder do narcotráfico. Situado entre os dois grandes produtores mundiais de cocaína, Colômbia e Peru, e dotado de portos importantes no Pacífico, o Equador passou de território de trânsito a plataforma logística de organizações transnacionais e cenário de uma guerra entre gangues. Em 2025, registrou mais de 9 mil mortes violentas.
Rubio prometeu em Quito dinheiro, apoio político e meios operacionais. Anunciou que pedirá ao Congresso US$ 45 milhões adicionais para a segurança equatoriana e outros US$ 10 milhões para combater mineração ilegal, recrutamento por gangues e fluxos financeiros ilícitos. Os Estados Unidos entregarão um navio de patrulha da Guarda Costeira de cerca de 33 metros e cinco lanchas interceptoras, além das sete embarcações já fornecidas neste ano.
Rubio também classificou a gangue Los Tiguerones como organização terrorista estrangeira e anunciou sanções contra sete ex-funcionários equatorianos acusados de corrupção. Ele confirmou que americanos e equatorianos já realizam operações conjuntas contra o narcotráfico marítimo.
No Peru, Keiko Fujimori venceu em junho uma eleição apertadíssima, com 50,135% dos votos, e assumiu em julho disposta a aproximar Lima de Washington. Antes mesmo da reunião desta quinta-feira, Rubio anunciou a incorporação do Peru ao Escudo das Américas e descreveu o país como importante aliado extra-Otan.
A agenda com Fujimori inclui segurança, crime organizado transnacional, defesa, investimentos e comércio. Apesar de três anos consecutivos de redução, o Peru ainda tinha 84.546 hectares de coca em 2025 e continua sendo o segundo maior produtor mundial, atrás da Colômbia.
O desenho estratégico se torna claro quando se colocam os três países no mapa. A Colômbia concentra a maior área de coca do mundo e uma estrutura histórica de guerrilhas, dissidências e grupos narcotraficantes. O Peru continua sendo o outro grande polo produtor. Entre eles, o Equador oferece portos e rotas para o Pacífico.
São problemas nacionais distintos conectados por uma mesma economia e geografia criminosa transnacional. Para o governo americano, faz mais sentido integrar inteligência, vigilância aérea e marítima, forças especiais, extradições e combate financeiro do que tratar cada país isoladamente.
É justamente aí que o Escudo das Américas ganha substância. Trump lançou a iniciativa com linguagem agressiva sobre cartéis e chegou a admitir ataques americanos contra seus líderes quando solicitados pelos governos locais. Rubio está dando ao conceito uma arquitetura diplomática.
O que era uma reunião de presidentes politicamente próximos em março começa a se materializar em radares, embarcações, compartilhamento de inteligência, cooperação militar e mecanismos de perseguição financeira.
Mas o narcotráfico é apenas a primeira camada dessa recomposição. A segunda é a disputa com a China.
Rubio levou à Colômbia acordos sobre minerais críticos e energia nuclear e, no Peru, contrapõe explicitamente o investimento privado americano aos projetos respaldados por Pequim.
O Peru, grande produtor de minérios e sede do porto de Chancay, controlado pela chinesa Cosco, é talvez o exemplo mais evidente de como segurança, infraestrutura, minerais e competição estratégica passaram a fazer parte da mesma política americana para a região. A mensagem de Washington é que combater cartéis e limitar a influência chinesa são componentes diferentes da mesma recuperação de espaço no hemisfério.
Trump encontrou na insegurança latino-americana um instrumento poderoso de alinhamento. Governos pressionados por homicídios, extorsão e narcotráfico precisam de capacidades que os Estados Unidos podem fornecer rapidamente.
Rubio está convertendo essa dependência em uma rede política. Da Colômbia de De La Espriella ao Peru de Keiko Fujimori, passando pelo Equador de Noboa, forma-se um corredor de governos que enxergam novamente Washington como seu principal parceiro estratégico.
Mesmo que não traga resultados contra o crime organizado, a simples retórica de contundência tende a tornar o arco andino um dos pilares mais sólidos da nova projeção de poder dos Estados Unidos na América Latina.