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porto velho, segunda-feira 2 de fevereiro de 2026

PORTO VELHO - RO - A decisão do governador Marcos Rocha de deixar o União Brasil e ingressar no Partido Social Democrático não foi um gesto isolado nem protocolar. Segundo analistas, foi um gesto calculado. A filiação, construída a convite direto do presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, redesenha alianças, muda o discurso e antecipa, na prática, o roteiro eleitoral de 2026.
Nos bastidores, a movimentação é interpretada como a formalização de um projeto familiar e político já em curso: a preparação de Rocha para disputar o Senado, a manutenção da esposa na Câmara Federal e a entrada do irmão Sandro Rocha, que vem realizando um grandioso trabalho no Detran, na corrida por uma vaga na Assembleia Legislativa. O PSD surge como abrigo estratégico para um plano que exige musculatura partidária, tempo de TV e liberdade de articulação — ativos que o União Brasil já não oferecia nas mesmas condições.
O gesto também implode a narrativa sustentada pelo próprio governador no início do ano. Em janeiro, durante entrevista a um programa de televisão, Rocha foi taxativo ao descartar qualquer possibilidade de renúncia para disputar o Senado e entregou tudo nas mãos de Deus. À época, ancorou o argumento na “ falta de confiança institucional” e no compromisso com o mandato até o fim. A declaração soou como ponto final nas especulações. Não obstante, hoje, diante da troca de legenda, ou seja, Deus operando, a pergunta inevitável ecoa nos corredores da política: se não há projeto eleitoral, por que mudar de partido agora?
A filiação ao PSD, avaliam analistas, não apenas contradiz o discurso anterior como também reposiciona o governador no xadrez político estadual e nacional. Kassab não costuma abrir espaço em seu partido para filiações sem perspectiva concreta de poder. Quando o faz, é porque há jogo grande em andamento.
Quem sai fortalecido nesse rearranjo é o ex-senador Expedito Júnior, principal articulador do PSD em Rondônia e fiador da ida de Rocha ao PSD. Experiente e pragmático, Júnior passa a operar em duas frentes simultâneas: de um lado, abriga Marcos Rocha no PSD, oferecendo estrutura e legenda para um projeto ao Senado; de outro, mantém influência no campo da esquerda ao emplacar o próprio filho no PT, mirando a disputa pelo governo do Estado.
O movimento revela mais do que alianças ocasionais. Expõe uma engenharia política cuidadosamente montada, em que discursos públicos ficam em segundo plano diante da lógica eleitoral. No novo desenho, o tabuleiro foi virado — e as peças já começaram a se mover em outras direções.