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    porto velho, sábado 31 de janeiro de 2026

Crônica de Fim de Semana: Quando o café é sobrevivência no amanhecer dos invisíveis

Nesse luto diário, não há viúvos. Há órfãos. Órfãos de políticas públicas eficazes, de ações contínuas, de um Estado que quase sempre chega quando a alma já desmoronou...


Redação

Publicada em: 31/01/2026 09:43:38 - Atualizado

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA


Quando o café é sobrevivência no amanhecer dos invisíveis

Arimar Souza de Sá

Um dia desses, ao deixar minha cria na Escola Laura Vicuña, com a manhã ainda bocejando sobre Porto Velho, passei defronte ao Centro Pop Dom Moacir Grechi, que fica ao lado do colégio, por volta das sete horas. A manhã estava cinzenta, e o sol mal ensaiava romper o céu, quando uma cena me atravessou o peito e me deu um nó na garganta: uma longa fila de homens e mulheres, semblantes pálidos, amanhecidos, maltrapilhos, corpos curvados, olhos vazios. Gente vencida pelo vício antes mesmo do primeiro gole de café. Dependentes químicos alinhados na porta não por ordem, mas por fome — e por acolhimento. Ali, compreendi: o desjejum não é rotina. É resistência.

E justamente por isso a cena não grita. Ela sussurra. Um sussurro agudo, incômodo, que atravessa a rua e bate na consciência de quem passa — mas que a cidade, eu e tantos outros, insistimos em não ouvir. Fingimos não ver porque ver dói. E, diante dos problemas que cada um carrega, dói mais ainda compreender.

Para quem está ali, o vício não é um desvio passageiro. É um labirinto sem saída visível, nem a curto nem a longo prazo. Quem entra raramente encontra o caminho de volta sozinho. A droga corrói devagar, como ferrugem na alma: primeiro enfraquece os laços, depois derruba a vontade, por fim toma o nome, a história, o rosto. O homem deixa de ser projeto de Deus e passa a ser pura sobrevivência. Torna-se um sonho pálido do que um dia foi, vagando pelas ruas como quem carrega o próprio epitáfio nos bolsos.

Do outro lado da rua — e da vida — há famílias em vigília permanente. Casas rachadas por dentro, mesas vazias, cadeiras vazias, mães que não dormem, pais esmagados por culpas que não são só suas. O vício não sequestra apenas quem usa. Ele invade e dilacera lares, arrasta afetos, compromete futuros, cria estigmas. Cada dependente carrega consigo uma família inteira em silêncio, esperando um retorno que, muitas vezes, já não acontece.

E quando ampliamos o olhar, percebemos que Porto Velho não está sozinha. As cidades deste país de meu Deus estão coalhadas daquilo que a elite, em sua linguagem asséptica e egoísta, chama de “lixo social”. Gente que não mendiga luxo nem redenção — apenas um pedaço de pão. À noite, o teto é improviso. Quando a chuva cai, é um Deus-nos-acuda. Prédios abandonados, vãos de ruas e marquises, no inverno amazônico, transformam-se em altares precários de abrigo para quem já foi abandonado pela vida.

Nesse luto diário, não há viúvos. Há órfãos. Órfãos de políticas públicas eficazes, de ações contínuas, de um Estado que quase sempre chega quando a alma já desmoronou. A droga age como lepra social: devora o corpo, envenena a mente e rasga o tecido humano, transformando pessoas em sombras que aprendem a caminhar sem deixar rastros — e sem serem vistas.

É nesse cenário que o Centro Pop Dom Moacir Grechi se impõe como um raro ponto de luz. Ali, homens e mulheres que trabalham no atendimento diário não lidam apenas com a fome do corpo, mas com as ruínas da alma. São mãos que servem o café, mas também ouvidos que escutam, olhos que não julgam e gestos que ainda reconhecem humanidade onde muitos só veem descarte.

Alí, oferecem alimento, higiene e acolhimento, devolvendo um fiapo de dignidade a quem já perdeu quase tudo. Não resolvem o abismo, é verdade, mas permanecem na beira dele, segurando nas pontas dos dedos quem ainda tenta não cair.

Segui meu caminho e deixei para trás a fila do café. Mas ela não me deixou. Ficou grudada na mente como pergunta sem resposta: o que eu, afinal, posso fazer diante disso tudo? Ainda que, no meu programa diário de rádio, eu não me descuide das cobranças pontuais.

Porque, enquanto a cidade desperta todos os dias para seus compromissos e vaidades, muitos apenas acordam para continuar lutando — não por sonhos, mas por mais um dia de pé.

Gente que precisa apenas de um café forte, de uma palavra que não humilhe, de um gesto que não falhe… e talvez de um lápis, ainda que curto, ainda que gasto, para tentar redesenhar o próprio destino escrevendo a palavra ESPERANÇA.

Que Deus os ajude! AMÉM!


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