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    porto velho, quinta-feira 24 de setembro de 2026

Álcool na adolescência pode afetar comportamento na vida adulta, diz estudo


Nathallie Lopes

Publicada em: 24/09/2026 10:58:33 - Atualizado

O consumo excessivo de álcool durante a adolescência pode deixar efeitos no comportamento que duram até a vida adulta. Realizando testes com camundongos, os pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) observaram que animais expostos a altas doses da substância enquanto o cérebro ainda estava em desenvolvimento passaram a tomar decisões mais arriscadas depois de adultos, podendo causar prejuízos. Em parte dos animais, a exposição também esteve associada ao aumento do consumo de álcool na fase adulta.

A pesquisa, realizada na Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), deu origem a dois artigos científicos publicados nas revistas Alcohol Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.

Para investigar os efeitos do álcool nessa fase da vida, os pesquisadores aplicaram doses da substância em camundongos durante a adolescência. O protocolo buscou reproduzir episódios de consumo excessivo, conhecido como binge drinking, caracterizado pela ingestão de grandes quantidades de álcool em um curto período.

Cada animal recebeu quatro aplicações ao longo da adolescência. Segundo a coordenadora do estudo, Karina Possa Abrahão, professora do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp, a quantidade foi ajustada à duração da vida dos animais. Em humanos, a exposição seria comparável a cerca de duas intoxicações por mês durante toda a adolescência.

Os resultados variaram conforme o sexo dos animais e o momento da exposição. Quando receberam álcool no início da adolescência, os camundongos machos apresentaram maior tendência a tomar decisões arriscadas na fase adulta. Entre as fêmeas, os pesquisadores não observaram o mesmo efeito, mas aquelas expostas precocemente passaram a consumir mais álcool quando tiveram acesso à substância depois de adultas.

Quando a exposição ocorreu no fim da adolescência, tanto machos quanto fêmeas apresentaram alterações na avaliação de riscos na vida adulta. Para os pesquisadores, os resultados sugerem que o consumo excessivo de álcool nessa etapa pode interferir no processo de amadurecimento cerebral.

Cérebro ainda está em desenvolvimento

Segundo o estudo, a adolescência é um período de maior vulnerabilidade aos efeitos do álcool porque o cérebro ainda não completou seu desenvolvimento. Uma das áreas que amadurecem mais tarde é o córtex pré-frontal, região ligada à tomada de decisões e ao controle dos impulsos. Em humanos, esse processo continua até aproximadamente os 25 anos.

“O álcool pode causar um prejuízo da maturação final do cérebro, tornando aquele indivíduo adolescente por muito mais tempo, talvez a vida toda. Ele sempre vai ficar se colocando em risco. O adolescente se colocar em risco é normal, mas o adulto continuar fazendo isso é problemático”, afirma Karina.

A equipe também investigou se as diferenças observadas entre machos e fêmeas poderiam estar relacionadas ao ritmo de desenvolvimento cerebral. A hipótese inicial considerava que a maturação mais precoce nas fêmeas poderia protegê-las dos efeitos da exposição no começo da adolescência. Os resultados da exposição mais tardia, no entanto, mostraram alterações em ambos os sexos, indicando que outros fatores podem estar envolvidos.

Os pesquisadores encontraram efeitos semelhantes ao analisar camundongos em uma idade equivalente a cerca de 20 anos em humanos. Segundo Abrahão, estudos anteriores indicam que os impactos do consumo excessivo tendem a diminuir conforme o cérebro amadurece, embora também possam ocorrer prejuízos cognitivos em adultos.

No Brasil, a venda e o fornecimento de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos são proibidos. Segundo dados do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira mostram que 5% dos adolescentes de 12 a 17 anos tiveram ao menos um episódio de consumo excessivo de álcool em um período de 30 dias. Entre jovens de 18 a 24 anos, a proporção chegou a 20,5%.





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