Entre escolha e voto 2026: confronto ou alternativa?
Por Walterlina Brasil
24/09/2026 11:11:02 - Atualizado
O debate entre os seis candidatos ao governo de Rondônia, realizado pela SIC TV no dia 21 de setembro de 2026, foi mais do que um programa de televisão. Tornou-se um retrato de um incômodo bem maior: o que acontece com a política quando o confronto ocupa o lugar da apresentação de ideias e o voto deixa de ser percebido como uma escolha entre alternativas?
O problema não é exclusivo de Rondônia. Em diferentes países, a disputa pública tem sido atravessada pela polarização, pelo ressentimento e pela desconfiança. Reconhecer que esse fenômeno é amplo, porém, não significa tratá-lo como inevitável.
O debate eleitoral pode ser uma vitrine da política, mas também deveria ser um espaço para comparar projetos, cobrar compromissos e imaginar caminhos para o futuro. Quando prevalecem os ataques pessoais, o eleitor recebe menos informações para avaliar propostas e mais estímulos para reagir com indignação, lealdade ou rejeição.
Isso não significa defender uma política sem conflito. A democracia é feita de diferenças, divergências e disputas reais. O problema começa quando o adversário deixa de ser alguém com quem se diverge e passa a ser tratado como uma ameaça a ser eliminada. Nesse ambiente, a pergunta "qual projeto é melhor para o estado?" cede lugar a outra: "quem é o inimigo que precisamos derrotar?"
Quando o voto deixa de parecer uma escolha
A ciência política ajuda a compreender o que está em jogo. Uma democracia não se resume ao ato de votar. Ela depende também do debate público, da circulação de argumentos e da possibilidade de responsabilizar quem governa.
O filósofo Jürgen Habermas chama atenção para a importância de uma esfera pública na qual as decisões possam ser discutidas e justificadas. Não é necessário que todos terminem de acordo. É necessário, entretanto, que a sociedade consiga compreender o que está sendo defendido, quais são as prioridades apresentadas e quais consequências podem resultar de cada escolha.
No debate da SIC TV, o confronto entre Samuel Costa (PSB) e Expedito Netto (PT) concentrou as atenções. O petista afirmou que o adversário responderia a processo por abuso sexual; Samuel Costa negou, declarou-se ficha limpa e desafiou o oponente a um exame antidrogas. A troca de acusações envolvendo abuso, corrupção e processos pessoais foi registrada pela imprensa e repercutiu no mesmo dia. Diante de um embate dessa natureza, o eleitor recebe mais sinais de hostilidade do que elementos para comparar projetos de governo.
A política corre o risco de ser percebida como uma guerra entre identidades e vaidades, e não como uma disputa entre alternativas para enfrentar os problemas do estado. Com isso, propostas eventualmente relevantes podem ser ofuscadas pelo tom da disputa.
A psicologia social oferece outra chave de leitura. A teoria da identidade social, associada a Henri Tajfel, mostra como as pessoas tendem a organizar o mundo a partir de grupos de pertencimento. Em períodos de intensa polarização, essa divisão pode transformar a defesa de um candidato em defesa da própria identidade e a crítica ao adversário em ofensa ao grupo.
Surge, então, o que pesquisadores chamam de polarização afetiva. Não apenas discordamos de quem está do outro lado. Passamos também a sentir antipatia, desconfiança e até hostilidade em relação a essas pessoas.
Nesse processo, o voto corre o risco de ser esvaziado. Formalmente, ele continua existindo. Na experiência de muitos cidadãos, porém, pode parecer apenas uma escolha defensiva entre opções apresentadas como igualmente ruins ou entre grupos que se hostilizam permanentemente.
Quando essa percepção se espalha, cresce o cinismo político. É a sensação de que nada muda, de que todos são iguais ou de que participar não faz diferença. A descrença pode ser compreensível, especialmente quando promessas não são cumpridas. Mas, quando se transforma em desistência, ela enfraquece a capacidade coletiva de acompanhar governos e cobrar mudanças.
Educação para a democracia
É por isso que a educação precisa estar no centro desta conversa. Ela é uma política pública e também um processo de formação cidadã. A educação pode ajudar as pessoas a avaliar informações, reconhecer interesses, confrontar argumentos e conviver com diferenças sem abrir mão da crítica.
Isso não significa imaginar que a escola ou a universidade possam tornar alguém imune à desinformação. Tampouco significa acreditar que a educação eliminará os conflitos políticos. Ela pode, contudo, ampliar as ferramentas para que as pessoas questionem afirmações, procurem evidências e não confundam agressividade com competência ou repetição com verdade.
Uma sociedade com formação crítica está mais preparada para avaliar propostas, identificar promessas inviáveis e exigir explicações de quem disputa o poder. Por isso, a forma como a educação apareceu no debate merece atenção. O tema foi citado entre as pautas, ao lado de saúde, infraestrutura, energia, agricultura, ciência e segurança, mas cabe perguntar se ocupou o espaço proporcional à sua importância. Comparado ao tempo dedicado a acusações pessoais, o debate sobre os projetos educacionais teve presença discreta.
Um único programa não resolveria os problemas de Rondônia; a questão é outra: por que a formação das pessoas, a qualidade do ensino e o futuro das instituições educacionais não alcançaram a centralidade que os documentos de governo dizem atribuir a elas? Se a educação influencia o desenvolvimento econômico, a participação cidadã e a capacidade de compreender o mundo, tratá-la como tema secundário também significa deixar de discutir parte decisiva do futuro do estado.
Elevar o debate é responsabilidade coletiva
Rondônia enfrenta problemas que exigem planejamento, compromisso público e capacidade de gestão. A BR-364 acumulou 895 acidentes, mais de mil feridos e 53 mortes nos primeiros sete meses de 2026, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal divulgados em setembro com números que dizem respeito à rodovia concedida à Nova 364, com 686,7 quilômetros entre Porto Velho e Vilhena.
No setor energético, a insatisfação com a Energisa virou tema de campanha, a ponto de um candidato prometer "expulsar" a concessionária do estado, enquanto moradores da zona rural de Cacoal relataram mais de 17 horas sem energia por uma falha de fácil correção e a falta de luz segue como a principal reclamação registrada na ANEEL em todo o país.
Na segurança pública, Rondônia caminha na contramão do Brasil: as mortes violentas intencionais cresceram 7,9% em 2025, enquanto a média nacional caiu 7,8%, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Vale lembrar que séries oficiais distintas, como o Atlas da Violência, usam metodologias e períodos próprios e a lição, aqui, é a mesma do bom debate: saber quais dados orientam nossas escolhas importa tanto quanto os números em si.
Nenhuma dessas questões será enfrentada apenas com acusações pessoais ou ameaças mútuas. São problemas que exigem políticas públicas, prioridades claras, informações confiáveis, definição de responsabilidades e prestação de contas. O eleitor precisa saber não apenas o que cada candidatura promete, mas também como pretende executar suas propostas, quanto elas podem custar e quais resultados serão utilizados para avaliar sua implementação.
Isso não significa considerar irrelevantes a vida pública e a conduta ética dos candidatos. Integridade e responsabilidade importam. A avaliação pública, entretanto, não pode se limitar à indignação diante da personalidade de alguém ou à desqualificação de um adversário. É preciso perguntar também o que cada candidatura propõe, com quais meios pretende realizar suas promessas e como poderá ser cobrada depois da eleição.
Essa responsabilidade é compartilhada. Candidatos devem qualificar a disputa. Os veículos de comunicação podem organizar debates que favoreçam a comparação de propostas e a cobrança de respostas. Universidades, movimentos sociais e organizações da sociedade civil podem contribuir para ampliar o acesso a informações e estimular a participação.
Os eleitores também têm uma responsabilidade. Podem recusar uma política reduzida ao insulto, à torcida e à desinformação. Podem assistir aos debates completos, consultar os programas de governo, verificar dados e acompanhar o desempenho dos eleitos.
O voto é um momento de escolha, mas não encerra a cidadania. A participação continua no acompanhamento das políticas públicas, nas audiências, nos conselhos, no controle social e na cobrança por resultados.
A democracia também se aprende nas instituições
A lógica revelada em um debate eleitoral não fica restrita às eleições para o governo. Ela pode reaparecer, em escala própria, nos processos de escolha de dirigentes de instituições de ensino superior.
Nesses espaços, quando a disputa se organiza apenas em torno de grupos rivais, quando candidatos são reduzidos a rótulos e quando o voto é tratado como formalidade ou obstáculo, a comunidade perde a oportunidade de discutir projetos acadêmicos, condições de trabalho, ensino, pesquisa, extensão e compromisso social.
A escolha de dirigentes universitários não é idêntica a uma eleição geral. Cada instituição possui regras, procedimentos e limites legais próprios. Ainda assim, há um princípio democrático que atravessa essas experiências: a participação precisa ter sentido, a consulta deve ser respeitada e as diferenças devem poder se expressar sem que a comunidade seja dividida entre aliados e inimigos. Quando o voto é desvalorizado ou a decisão coletiva passa a ser percebida como uma encenação, a legitimidade da gestão se fragiliza.
A universidade não é apenas um lugar onde se estudam conceitos de democracia. É também um espaço em que se aprende a praticá-la. Participar de uma escolha, debater propostas, respeitar regras e aceitar a pluralidade são experiências de formação cidadã. Por isso, a governança acadêmica e a participação da comunidade não devem ser tratadas como assuntos menores ou exclusivamente internos. Elas dizem respeito à capacidade das instituições de cumprir sua função pública.
Nesse contexto, é importante que reuniões de conselhos superiores, mudanças de regras e decisões administrativas sejam conduzidas com transparência. Quando decisões que afetam futuras eleições ou processos de escolha começam a ser percebidas (ainda que sem comprovação formal) como resultado de interesses particulares, alianças antecipadas ou vantagens para determinados grupos, a confiança institucional pode ser comprometida. A melhor resposta a essa desconfiança não é o silêncio, mas a publicidade dos atos.
A UNIR, por exemplo, mantém atas, resoluções e regimentos dos seus Conselhos Superiores acessíveis à comunidade por meio da Secretaria dos Conselhos Superiores (SECONS), incluindo o Regimento Geral aprovado pela Resolução em 2026. Instrumentos como esses existem exatamente para que a clareza dos procedimentos, o acesso aos documentos e a participação efetiva da comunidade substituam a suspeita. Instituições democráticas não dependem apenas de boas intenções. Dependem de regras conhecidas, decisões justificadas e possibilidade de fiscalização.
O debate da SIC TV pode, assim, ser lido como um alerta que ultrapassa a campanha eleitoral. Quando a política se converte em confronto permanente, o voto perde valor tanto nas urnas quanto nos espaços em que comunidades decidem seus rumos.
Reverter essa tendência exige educação, participação, transparência e disposição para avaliar ideias sem abandonar a crítica às pessoas e às instituições. Em outras palavras, mais do que pedir moderação aos candidatos. Portanto, a pergunta que fica não é apenas em quem votar. É também que tipo de política estamos dispostos a sustentar e que responsabilidade cada um de nós assume para que o voto volte a significar escolha, participação e possibilidade de mudança e confiança democrática.
Saiba mais.Habermas e esfera pública — Jürgen Habermas, "Mudança Estrutural da Esfera Pública" (1962) e a teoria da ação comunicativa.
Tajfel e identidade social — Henri Tajfel e John Turner (1979), formulação clássica da teoria da identidade social, base dos estudos de polarização afetiva.
Debate na íntegra — Gravação completa do debate da SIC TV com os seis candidatos (21/09/2026), no canal oficial no YouTube:
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Principais momentos do debate — Resumo de propostas, confrontos e acusações por candidato:https://informarondonia.com.br...;
Troca de acusações entre Samuel Costa e Expedito Netto — Cobertura do episódio: https://www.euideal.com/notici... e https://www.jornalrondonia.com...;
Planos de governo na Justiça Eleitoral — Divulgação de Candidaturas e Contas (TSE): https://divulgacandcontas.tse....;
Propostas de governo de RO em dados abertos:https://dadosabertos.tse.jus.b...;
Registros julgados pelo TRE-RO:https://www.tre-ro.jus.br/comu...;
BR-364 — 895 acidentes, mais de mil feridos e 53 mortes em sete meses (dados PRF):https://sgc.com.br/noticia/6/4...;
Energia elétrica — Falta de luz lidera queixas na ANEEL:https://megawhat.uol.com.br/di...;
Insatisfação com a Energisa:https://www.euideal.com/notici...;
Caso de Cacoal (17 horas sem energia):https://www.euideal.com/notici...;
Segurança pública — Anuário Brasileiro de Segurança Pública:https://forumseguranca.org.br/...;
Análise dos indicadores de Rondônia:https://rodolfojacaranda.com/r...;
UNIR — Conselhos Superiores: https://www.secons.unir.br&nbs...;
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