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porto velho, terça-feira 13 de janeiro de 2026
Na noite de 12 de janeiro de
2026, enquanto Hollywood celebrava O Agente Secreto de Kleber Mendonça
Filho no Globo de Ouro, a realidade geopolítica escrevia seu próprio roteiro
distópico. Nove dias antes, os Estados Unidos haviam invadido a Venezuela e
capturado Nicolás Maduro numa operação militar transmitida em tempo real,
reduzida a vídeos de 60 segundos e consumida como entretenimento. A ficção
denuncia os mecanismos ocultos do poder; a realidade os normaliza. E nós,
espectadores globais, oscilamos entre indignação performática e anestesia
coletiva.
O paradoxo está na evidência de
que premiamos filmes que expõem engrenagens de manipulação enquanto assistimos,
quase inertes, a invasões reais que dispensam qualquer disfarce diplomático. A
ficção nos alerta; a realidade nos entorpece. Tenho insistido em escrever sobre
esses paradoxos porque eles revelam o sintoma mais agudo de nossa era no qual a
guerra está transformada em espetáculo-game, a democracia reduzida a
performance e a incapacidade crescente de distinguir entre o drama da tela e o
sangue desumanizante do noticiário.
A invasão como performance.
Não é coincidência que consumamos
a invasão à Venezuela como entretenimento. Guy Debord já alertava, em 1967, que
nas sociedades do espetáculo “tudo o que era vivido diretamente tornou-se
representação”. A guerra real é substituída por sua imagem editada, e nossa
capacidade de agir politicamente diante dela vem sucumbindo velozmente.
Jean Baudrillard radicalizou essa
análise durante a Guerra do Golfo ao afirmar que o conflito televisionado era
um simulacro dado que uma guerra virtual anestesiava a indignação pública.
Hoje, na era dos vídeos rápidos e trends, a guerra nem precisa ser
estetizada porque ela é auto-espetacularizada por algoritmos que priorizam
engajamento sobre compreensão, emoção sobre contexto, viralização sobre memória,
escritório virtual em lugar das ruas.
A invasão aconteceu. Pessoas
morreram. Um presidente foi capturado. Mas, para a maioria, foi apenas mais um
episódio na série infinita de crises que consumimos sem conseguir processar. E
aqui reside o perigo: quando a guerra se torna espetáculo, a resistência também
se torna performática. Postamos hashtags, compartilhamos infográficos, sentimos
que “fizemos nossa parte” mas a máquina de guerra segue intacta. Por ironia:
está nos dedos do meu, seu, nosso voto.
Como alertou Debord, “o
espetáculo não é um complemento do mundo real; é o coração da irrealidade da
sociedade real”. Enquanto assistirmos à guerra como espectadores, parece que
jamais seremos capazes de interrompê-la como cidadãos. Não deveria ser assim.
Por isso escrevo. É o mínimo.
A desinibição da força
A invasão americana à Venezuela
marca uma inflexão histórica pela desinibição com que foi executada, pois não a
violação da soberania é uma prática antiga. Não houve resolução da ONU,
coalizão internacional ou justificativa elaborada. Trump simplesmente invadiu,
capturou um presidente eleito (ainda que contestado) e anunciou ocupação
indefinida. O Secretário de Estado Marco Rubio tentou minimizar: “Isso não foi
uma invasão, não ocupamos um país”. A frase é tão orwelliana que dispensa
comentário.
O mais perturbador não é a ação
em si, mas a recepção. Como reportou a Wired, a invasão foi “reduzida a
vídeos de 60 segundos”, consumida como conteúdo viral, debatida em threads
e esquecida no próximo scroll. Venezuelanos divididos entre apoio e
revolta. Iranianos sentindo o impacto psicológico da demonstração de força
americana. E o resto do mundo? Assistindo passivamente ao colapso da ordem
internacional construída no pós‑1945. O Pragmatismo tem disso: apelo a
modernização das estruturas com práticas pouco convencionais.
A Venezuela talvez nem seja o
alvo final. Trump já ameaçou “mudança de regime” em Cuba, México e Colômbia. A
mensagem dele está clara: a Doutrina Monroe está de volta e agora sem verniz
diplomático, sem instituições multilaterais, sem constrangimento moral.
Colapso das Instituições
Globais
A invasão expõe uma suspeita
incômoda: as instituições que deveriam proteger a ordem democrática global
estão mortas ou em coma. A ONU não se pronunciou de forma efetiva. A OEA
manteve-se em silêncio cúmplice. O Conselho de Segurança, paralisado por vetos
cruzados, tornou-se irrelevante. Organizações como o International IDEA
publicam relatórios alarmantes, mas sem poder de enforcement, são apenas
cronistas do colapso.
O cenário global amplia a
gravidade: guerras na Ucrânia, Gaza, Sudão, Myanmar; democracias fragilizadas;
desinformação industrial; líderes narcisistas transformando política em reality
show. A invasão à Venezuela é mais um sintoma do esgotamento do multilateralismo
liberal. No vácuo, emergem poderes que operam por força bruta, narrativas
simplistas , pragmatismo apelativo e espetáculo midiático.
O imperialismo energético
A Venezuela possui as maiores
reservas comprovadas de petróleo do planeta. Durante décadas, essas reservas
estiveram fora do controle direto americano e foram progressivamente entregues
a China e Rússia. O presidente estadunidense foi explícito: “Os Estados Unidos
administrarão a Venezuela”. Já anunciou a venda de milhões de barris, com
receitas controladas por Washington.
A invasão não é apenas sobre
petróleo; é sobre expulsar China e Rússia da América Latina. Como reportou a Deutsche
Welle, ambos têm “interesse profundo” na Venezuela, e a ação americana é um
recado direto de que “o hemisfério ocidental está fechado para vocês”.
Enquanto potências disputam
barris e bilhões, 26 milhões de venezuelanos enfrentam bombardeios, ocupação
militar, colapso de serviços e êxodo. A lógica extrativista permanece intacta,
independentemente de quem controle o petróleo. E o Brasil? Iludido com o “golfo
Norte” do Amapá, como se os Estados Unidos não estivessem vendo.
Espectadores, cúmplices ou
exaustos?
Voltemos ao Globo de Ouro. A
premiação de O Agente Secreto é justa, mas carrega a ironia de
celebrarmos a arte que denuncia enquanto normalizamos a realidade denunciada.
Aplaudimos Kleber Mendonça Filho por expor mecanismos de manipulação estatal,
mas quando esses mecanismos operam diante de nossos olhos na Venezuela, na
Palestina, na Ucrânia, nossa indignação dura o tempo de um post. Eu me sinto
cansada.
Somos espectadores cúmplices, não
por maldade, mas por exaustão e, até, por fadiga cívica. A guerra tornou-se tão
onipresente e midiatizada que perdemos a capacidade de sustentar atenção,
memória, revolta. A invasão à Venezuela será esquecida em semanas, substituída
pelo próximo escândalo, pela próxima crise, pelo próximo espetáculo, substituída
pelo próximo escândalo, pela próxima crise, pelo próximo espetáculo. Pelas
próximas eleições polarizáveis.
Podemos continuar consumindo
críticas ao poder como entretenimento seguro, ou podemos reconhecer que a
ficção só tem valor se nos mobiliza para transformar a realidade. "O
Agente Secreto" não pode ser apenas um filme premiado como “Ainda Estou
Aqui” foi; pode ser e manter nosso “pisca-alerta” ligado.
Contexto local
As universidades brasileiras
produziram algumas das análises mais lúcidas sobre o significado profundo da
invasão. Especialistas ouvidos pelo Jornal da Unicamp foram categóricos:
“Os Estados Unidos estão em busca de disciplinar governos na região, e a
Venezuela foi a primeira”. A frase captura a essência estratégica da operação:
a Venezuela é laboratório, não destino final.
As reações acadêmicas não foram
massivas, mas foram significativas. A nota da ANDIFES teve grande repercussão e
foi replicada por diversas federais. Na região Norte, a UFAC e pesquisadores da
UFRR tiveram algum destaque.
Esses posicionamentos não alteram
decisões de Estado, mas tensionam o debate público, oferecem lastro técnico e
reafirmam o papel das universidades como guardiãs da soberania latino‑americana.
Aparentemente, com pouca possibilidade de reação à polarização do período
eleitoral em 2026.
E Rondônia? Bom, “Rondônia não é
Roraima”. Somos Nota 5 no MEC.
Saiba Mais.
Globo de Ouro e Cinema
We Are Iowa. (2026, janeiro
12). Golden Globe awards 2026 coverage. https://www.weareiowa.com/article/news/local/plea-agreement-reached-in-des-moines-murder-trial/524-3069d9d4-6f9b-4039-b884-1d2146bd744f
Guy Debord
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Jean Baudrillard
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FONTES JORNALÍSTICAS E
REPORTAGENS
Invasão à Venezuela
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13). Ação dos EUA contra Maduro dispara alerta em Teerã. UOL Notícias. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2026/01/13/acao-dos-eua-contra-maduro-dispara-alerta-em-teera.htm
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Union of Concerned Scientists.
(2026, janeiro). Illegal, aggressive, and unstable: President Trump's foray
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Contexto Geopolítico Global
Infobae. (2026, janeiro 10).
Un mundo en guerra permanente: Lo que 2025 nos dejó. https://www.infobae.com/mexico/2026/01/10/un-mundo-en-guerra-permanente-lo-que-2025-nos-dejo/
The Conversation. (2025,
dezembro). Política y sociedad 2025: El año en el que el carisma del mal puso
al mundo en alerta. https://theconversation.com/politica-y-sociedad-2025-el-ano-en-el-que-el-carisma-del-mal-puso-al-mundo-en-alerta-272551
Naciones en Ruinas. (2025).
2025: El punto de inflexión mundial - Crisis global, guerras, protestas y el
agotamiento del orden internacional. https://www.nacionesenruinas.com/post/2025-el-punto-de-inflexi%C3%B3n-mundial-crisis-global-guerras-protestas-y-el-agotamiento-del-orden-in
International IDEA. (2025).
Apoyo a la democracia en un nuevo contexto geopolítico: Evento de alto nivel en
el marco de la Asamblea General de la ONU. https://www.idea.int/es/news/apoyo-la-democracia-en-un-nuevo-contexto-geopolitico-evento-de-alto-nivel-en-el-marco-de-la