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    porto velho, segunda-feira 31 de agosto de 2026

Qual é a gramática da irresponsabilidade: “Ninguém”, “Alguém” e “Todo Mundo”?


Por Valdemir Caldas

31/08/2026 19:44:04 - Atualizado

Pare um segundo e repare na sua própria fala. No condomínio, na escola, no escritório, na assembleia de sindicato ou mesmo no bate papo com colegas ou estranhos: alguém aponta um problema qualquer, seja um vazamento, uma irregularidade, um abuso de autoridade, uma situação no trabalho e a resposta coletiva é sempre a mesma litania: "Alguém precisa fazer alguma coisa, mas ninguém quer; todo mundo fica quieto, cada qual cuidando apenas do seu.”

Agora proponha-se essa pergunta: quem é esse "ninguém" que nunca faz nada? Quem é esse "alguém" que nunca aparece? E quem é esse "todo mundo" que (dizem) sempre se cala? Nenhum deles existe. E, no entanto, são eles que governam nossas decisões mais importantes.

A gramática como álibi

Essas expressões não são meros pronomes indefinidos do cotidiano. São dispositivos linguísticos que apagam o sujeito da ação e, ao apagá-lo, dissolvem a responsabilidade. Gramaticalmente, "ninguém" ocupa o lugar do sujeito da frase; semanticamente, não aponta para pessoa alguma. É a estrutura perfeita da evasão: posso falar de um problema sem nunca me incluir nele.

Repare no truque: “ninguém” é o único sujeito que pode fazer tudo sem ser responsabilizado por nada; age sem existir, falha sem ter nome. A linguagem não descreve a inércia coletiva, ela a fabrica e a legitima. Como ensinou o giro linguístico de Wittgenstein e Austin, a fala não apenas descreve o mundo: ela produz o mundo. Cada "ninguém" dito em voz alta é um pequeno ato de construção de uma realidade onde não há agentes, apenas vítimas ou espectadores, ou ambos em uma única pessoa assujeitando-se a partir de uma verdade que lhe exclui.

A ciência por trás do "ninguém"

O que a filosofia suspeita, a psicologia social já provou. Nos anos 1960, os pesquisadores John Darley e Bibb Latané demonstraram o efeito espectador: quanto mais pessoas testemunham uma emergência, menos cada uma delas age. Cada testemunha supõe que "alguém" vai ajudar e a responsabilidade se dilui na multidão até evaporar, como demonstrou o experimento clássico mostrou pessoas que não socorrem uma vítima porque presumem que outro fará. A linguagem cotidiana apenas verbaliza o que a ciência já mediu: a responsabilidade se pulveriza quando todos se sentem cobertos pelo "alguém".

O "todo mundo cuida do seu" e a vida líquida

Esse individualismo, porém, não é natural. Na verdade, trata-se de uma construção social recente. Zygmunt Bauman descreveu a modernidade líquida como a dissolução dos laços coletivos em favor de um "cada um por si" que corrói o senso de comunidade. Para Émile Durkheim, o enfraquecimento das normas compartilhadas gera anomia onde o indivíduo perde a referência e o pertencimento, e com eles, o impulso de agir pelo comum.

Se Bauman descreve a dissolução dos laços, Durkheim explica o que acontece quando esses laços, já fragilizados, deixam de sustentar normas compartilhadas. Quando "todo mundo fica quieto" diante de uma realidade dada, de um autoritarismo ou de uma injustiça, não estamos diante de covardia individual, mas de um colapso do senso do que é nosso.

A inversão como paradoxo

Mas aqui o texto vira. E se essas expressões forem, no fundo, uma confissão? "Alguém precisa fazer alguma coisa" revela que sabemos, intimamente, que algo deve ser feito. O problema não é a ignorância, mas é a transferência infinita de responsabilidade. O "alguém" é sempre o outro, nunca eu. O "ninguém" é sempre o outro, nunca eu. O "todo mundo" que fica quieto... inclui você, mas vítima da própria impotência justificada pelo seu próprio cotidiano.

Diversos pensadores analisaram esse movimento de transferência da responsabilidade, cada qual iluminando um aspecto desse paradoxo. Albert Hirschman nos deu a chave: diante de uma falha coletiva, há três caminhos: saída, voz ou lealdade. Denunciar irregularidades é exercer a "voz". Quando "todo mundo fica quieto", a voz é suprimida e restam apenas a saída (abandonar) ou a lealdade passiva (tolerar). E Hannah Arendt nos advertiu, em Eichmann em Jerusalém, que o mal não exige monstros: basta gente que "não pensa" e se esconde no anonimato. "Ninguém" é o refúgio perfeito de quem não quer julgar. Slavoj Žižek chamaria isso de cinismo: sabemos que "ninguém" é uma ficção, mas usamos a ficção para não agir. Por sua vez, as condições objetivas de “cada um no seu, cada qual por si”, limitam a prática social do indivíduo.

A saída pode ser a responsabilidade como escolha

A responsabilidade não é um fardo a evitar, mas uma capacidade a exercer. Arendt insistia: pensar e julgar por si mesmo é o antídoto contra a banalidade do mal. O primeiro passo é nomear-se. Responsabilizar-se começa pela linguagem: transformar “alguém precisa fazer” em “eu posso fazer”; substituir “ninguém faz nada” por “o que eu fiz hoje?”; e trocar “todo mundo fica quieto” por “eu não vou ficar”.

A linguagem que nos aprisiona pode ser a mesma que nos liberta. Pode ser, porém, que alguém, ninguém ou todo mundo seja confortável para o que você talvez não queira fazer. Ou seja, no fundo é conveniente.

Contexto local.

Há um campo onde essa gramática se torna mais perigosa: a Universidade Pública. Ela é, por definição, o espaço onde a verdade deveria ser o valor supremo. E, no entanto, é ali que a lógica do "ninguém" e do "alguém" se infiltra com mais gravidade.

Tomemos um exemplo concreto. Uma universidade recebe nota 5 na avaliação do MEC obtendo seu conceito máximo. De fato é boa notícia e deve ser celebrada, transformada em vitória institucional. Mas o que a celebração omite? Que a nota foi alcançada por arredondamento, e que itens que não atingiram o mínimo exigido no instrumento foram compensados por protocolos de compromisso que se trata de promessas de melhoria futura, não realidades presentes. É justamente nesse silêncio seletivo que a gramática da irresponsabilidade se manifesta com mais nitidez.

Aqui está a falsificação da verdade: tornar mediática a realidade, ignorando os desafios que ainda existem. Quando "todo mundo" comemora a nota e "ninguém" menciona o arredondamento, quando "alguém" assina o protocolo de compromisso e "ninguém" cobra o cumprimento, a gramática da irresponsabilidade opera em seu estado mais puro. A avaliação que deveria ser abertamente discutida no que expõe de fortalezas e fragilidades vira apenas o instrumento de marketing. O "ninguém" que deveria apontar as deficiências se cala; o "todo mundo" que deveria exigir rigor aplaude, tornam “alguém” indigno da verdade.

A verdade falseada é a forma mais sofisticada de autoritarismo: não a violência explícita, mas a distorção silenciosa do que é real. Impõe: não falemos sobre isso porque o que importa é que estamos no caminho certo. E o custo é real. Uma universidade que maquia seus indicadores não engana apenas o MEC; engana seus estudantes, seus professores, a sociedade que a financia. A nota arredondada não forma melhor ninguém. O protocolo de compromisso não substitui laboratório, biblioteca ou corpo docente qualificado.

Na universidade, isso significa exigir transparência nos indicadores, questionar os arredondamentos, cobrar o cumprimento dos protocolos de compromisso, recusar

a celebração vazia. Significa que professores, estudantes e técnicos parem de se esconder atrás dos pronomes e assumam o nome próprio da responsabilidade.

Da próxima vez que ouvir “ninguém”, pergunte quem; quando disser “alguém”, pergunte por que não eu; e quando ouvir “todo mundo”, identifique quem exatamente está sendo silenciado. Afinal, a história não é feita por invasão de pronomes, mas por pessoas que decidem assumir o próprio nome.”

Saiba Mais.

AUSTIN, J. L. How to Do Things with Words. Cambridge: Harvard University Press, 1962. (Obra clássica sobre atos de fala e performatividade.)

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. (Análise sobre responsabilidade, pensamento e obediência burocrática.)

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. (Discussão sobre fragilidade dos laços sociais na modernidade.)

DARLEY, John M.; LATANÉ, Bibb. Bystander Intervention in Emergencies: Diffusion of Responsibility. Journal of Personality and Social Psychology, v. 8, n. 4, p. 377–383, 1968. (Artigo seminal sobre o efeito espectador.)

DURKHEIM, Émile. A Divisão do Trabalho Social. São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Obra sobre solidariedade social e anomia.)

DURKHEIM, Émile. O Suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000. (Discussão aprofundada sobre anomia e desintegração social.)

HIRSCHMAN, Albert O. Exit, Voice and Loyalty: Responses to Decline in Firms, Organizations, and States. Cambridge: Harvard University Press, 1970. (Teoria sobre saída, voz e lealdade em contextos de falhas institucionais.)

WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Vozes, 2017. (Obra fundamental sobre linguagem, significado e uso.)

ŽIŽEK, Slavoj. The Sublime Object of Ideology. London: Verso, 1989. (Discussão sobre ideologia e subjetividade.)

ŽIŽEK, Slavoj. Violence. New York: Picador, 2008. (Análise sobre formas visíveis e invisíveis de violência, incluindo omissão e cinismo.)


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