• Fundado em 11/10/2001

    porto velho, sexta-feira 23 de janeiro de 2026

As "coincidências" que explicam a crise bancária do Master e no Supremo Tribunal Federal

O passado vira espelho do presente: avanços existem, mas o sistema repete padrões, e o escândalo financeiro expõe a pergunta final: em quem confiar?


ig

Publicada em: 22/01/2026 10:56:48 - Atualizado


Geralmente, música de protesto envelhece. No Brasil, ela amadurece. É um diagnóstico.

Nos anos 80, o país parecia finalmente virar uma página histórica. A ditadura ficava para trás, a democracia surgia como promessa, a Constituição de 1988 anunciava um novo pacto social. O Brasil acreditava, como sempre acredita, que "agora vai".

Quarenta anos depois, a sensação geral não mudou tanto assim. O Brasil continua sendo um museu de grandes novidades. E isso não significa que nada melhorou. Melhorou, sim.

Saímos da hiperinflação, ampliamos acesso à educação, à universidade, à saúde pública, à tecnologia, à informação. O país se modernizou em muitos aspectos concretos.

O problema é que, no Brasil, a modernidade costuma ser mais estética do que estrutural.

A embalagem muda, só que o mecanismo permanece.

Os artistas já anunciavam

Nos anos 80, o Cazuza já cantava que o brasileiro nem foi convidado para a festa. Ficou do lado de fora, "estacionando os carros", enquanto alguém armava o evento para ele pagar sem ver:

“Brasil, mostra tua cara

Quero ver quem paga pra gente ficar assim

Qual é o teu negócio

O nome do teu sócio

Confia em mim.”

Quatro décadas depois, dá até pra preencher as lacunas:

Publicidade

Mostra tua cara: Daniel Vorcaro.

Quem paga: o povo brasileiro, como correntista, contribuinte ou servidor que descobre que até a aposentadoria pode entrar no jogo.

Qual é o teu negócio: Banco Master.

O nome do teu sócio: conexões e coincidências que, embora não provem crime, justificam escrutínio público e institucional.

Segundo reportagens, o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, firmou com o Banco Master um contrato que previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos, totalizando R$ 129 milhões, para representá‑lo em diferentes frentes.

Além disso, o escritório atuou em uma queixa‑crime movida por Vorcaro e pelo banco contra um economista, ação que acabou rejeitada em todas as instâncias.

E o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, foi o único cotista de fundos que compraram participação em um resort no Paraná, ligado a irmãos e a um primo do ministro Dias Toffoli.

Ou seja, não é qualquer um mencionado no contexto de um dos maiores rombos bancários recentes do país: as relações chegam ao entorno da cúpula dos ministros do STF, ainda que não haja acusação formal contra eles.

A música virou um relatório

Nada disso é, por si só, prova de crime. Mas é exatamente o tipo de situação que transforma o "confia em mim" em pergunta pública:

  • Quem fiscaliza?
  • Quem deixa?
  • Quem deveria impedir?
  • E, a mais importante, em quem confiar?

A Legião Urbana traduziu esse mesmo espanto em uma pergunta direta, curta e atemporal:

“Que país é esse?”

Porque a sensação é recorrente: regra que não pega, Constituição ignorada, sujeira institucional espalhada "nas favelas e no Senado", mas todo mundo ainda acreditando no futuro da nação, não por lógica, mas por sobrevivência emocional.

Os Paralamas deram endereço a isso. Alagados, Favela da Maré, palafitas, farrapos.

A cidade de braços abertos no cartão postal, com os punhos fechados na vida real.

Mesmo país com figurino atual

A modernidade chega também ao sistema financeiro, mas o roteiro se repete. Quando se olha para o caso do Banco Master, é difícil não enxergar a mesma coreografia antiga, com personagens novos.

Aí a gente se apega à esperança que vem da fé, só não se sabe fé em quê. E aí entra o cansaço. O Brasil não esgota só o bolso. Esgota a alma.

Cazuza resumiu isso como quem estivesse vivendo em pleno 2026:

“Piscina cheia de ratos

Ideias que não correspondem aos fatos

O futuro repetindo o passado

Um museu de grandes novidades”

O que deveria ser verso de poesia, o Brasil faz questão de traduzir em exemplos práticos.

O caso do Banco Master virou um símbolo recente do velho problema brasileiro.

Há um alívio inicial quando se fala no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que começa a ressarcir parte dos clientes dentro dos limites previstos.

Quem paga?

O total a ser pago pode chegar a quase R$ 49 bilhões, no maior ressarcimento da história do FGC, alcançando cerca de 800 mil credores. Isso reduz o dano imediato para muita gente.

Mas aí vem a parte que conecta 2026 diretamente a 1986: fundos de previdência de servidores estaduais e municipais, com cerca de R$ 1,86 bilhão aplicados em títulos do Master, ficam fora dessa proteção e entram na fila de credores da liquidação.

O risco deixa de ser apenas privado e passa a ser coletivo: dinheiro público, aposentadoria futura, confiança institucional.

Em democracias maduras, a mera aparência de conflito já é um problema.

No Brasil, ela costuma virar apenas mais uma nota de rodapé.

Como é que a gente se sente vendo isso acontecer na nossa fuça?

É aí que entra o último ato dessa trilha sonora, que funciona como epitáfio emocional do país: Inútil, do Ultraje a Rigor.

“A gente não sabe escolher presidente

A gente não sabe tomar conta da gente.”

Essa música não é um ataque ao povo. É o retrato de como o sistema faz o cidadão se sentir no fim do processo: pequeno, impotente, descartável.

Quarenta anos depois, o Brasil mudou muita coisa. Mas manteve permissões demais, especialmente para que crises financeiras privadas respinguem em recursos públicos e na autoestima coletiva.

Por isso, para entender o Brasil de 2026, basta ouvir uma playlist de 1986. Não como nostalgia, mas como reconhecimento.

Porque aqui o tempo passa, e a gente continua vendo o futuro repetir o passado.

E a quem nos representa continuam pedindo, com a cara mais lavada do mundo:

"Confia em mim."


Fale conosco