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porto velho, terça-feira 20 de janeiro de 2026

PORTO VELHO - RO - Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) de 2025, divulgado nessa segunda-feira, 19, não apenas revelaram números preocupantes — escancararam um perigo concreto que ronda a vida dos rondonienses. Em um estado onde a saúde pública já opera no limite do colapso, a constatação de que a maioria dos cursos de Medicina forma profissionais sem desempenho satisfatório transforma a crise educacional em ameaça direta à saúde da população.
O levantamento do Ministério da Educação (MEC), divulgado nesta semana, mostrou que apenas a Universidade Federal de Rondônia (Unir) alcançou resultado considerado bom, com conceito 4. Todas as demais instituições ficaram abaixo desse patamar. Algumas, perigosamente abaixo. A Faculdade Metropolitana amargou conceito 1, o pior da escala, entrando na lista de cursos que podem ter vestibulares suspensos. Fimca, Afya Porto Velho e Uninassau Vilhena ficaram com conceito 2 — desempenho insuficiente para um curso que lida diariamente com vidas humanas.
O problema se agrava quando se observa a realidade do estado. Rondônia enfrenta filas intermináveis, hospitais superlotados, falta de especialistas, unidades básicas sucateadas e municípios inteiros dependentes de poucos médicos recém-formados. Em muitas cidades do interior, o profissional que atende no posto de saúde é o único disponível em centenas de quilômetros. Quando esse médico sai da universidade sem preparo adequado, o risco deixa de ser estatística e passa a ser cotidiano.
Diagnósticos equivocados, erros de conduta, atrasos em tratamentos e decisões clínicas inseguras são consequências diretas de uma formação deficiente. E quem paga essa conta não são as instituições privadas nem seus acionistas: é o cidadão que chega ao hospital fragilizado e confia sua vida a um sistema que já falha antes mesmo do atendimento começar.
Ensino particular caro, resultado pobre
Há ainda um contraste que revolta. Na capital, cursos de Medicina cobram mensalidades que variam entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Valores que transformam o ensino médico em um dos negócios mais lucrativos do país. Ainda assim, o retorno acadêmico é pífio. Como explicar que cursos tão caros entreguem profissionais com desempenho tão baixo em avaliações nacionais? Onde está o investimento em estrutura, corpo docente qualificado, hospitais de ensino e prática clínica adequada?
A lógica do mercado parece ter se sobreposto à missão essencial da Medicina. Formar médicos virou produto. A qualidade, um detalhe secundário. O resultado é um exército de diplomas caros e uma população cada vez mais exposta.
Silêncio das autoridades preocupa
Mais grave ainda é o silêncio institucional. Até o momento, nem o Conselho Regional de Medicina de Rondônia (Cremero), nem o Ministério Público do Estado (MP-RO), nem o Ministério Público Federal (MPF) se manifestaram de forma contundente sobre os dados do Enamed. O mutismo das autoridades diante de um problema dessa magnitude causa perplexidade.
Cabe ao Cremero zelar pela boa prática médica e alertar a sociedade quando a formação coloca em risco o atendimento. Cabe aos Ministérios Públicos fiscalizar, investigar e agir quando interesses coletivos — como o direito à saúde — estão ameaçados. A ausência de posicionamento soa como omissão diante de um problema que pode custar vidas.
Um debate que não pode mais ser adiado
O Enamed deixou claro: a expansão desenfreada dos cursos de Medicina, sem controle rigoroso de qualidade, cobra um preço alto. E esse preço não aparece apenas em relatórios do MEC. Ele se manifesta nas macas dos corredores, nos diagnósticos tardios, nas famílias que perdem entes queridos por falhas evitáveis.
Rondônia já não pode fingir normalidade. A saúde do estado está em frangalhos, e a formação médica deficiente é mais um golpe em um sistema já exaurido. Quando a Medicina deixa de ser compromisso com a vida e passa a ser apenas negócio lucrativo, o problema deixa de ser educacional — e se transforma em risco real, diário e inaceitável para toda a sociedade.
Com a palavra as faculdades envolvidas.